Eu tenho uma dificuldade de ir embora. Como tem gente que sempre chora em casamento ou não resiste a plástico bolha. Acho que é por isso que nunca vou embora de vez, prefiro o até-logo do que o Tchau. Minha mãe dizia que ficava pra trás um rabo que não deixa a porta fechar. Então lá vou eu botar a casa nas costas e o pé no mundo outra vez. Rio, foi bom enquanto durou. Mas nossa relação já foi melhor, já era hora de dar um tempo pra gente gostar mais de ficar junto. Como sempre aperta o coração, ainda mais quando metade dele fica longe. Mas a outra metade o vento espalhou em pedacinhos pelo mundo e vou eu de novo igual doida ver se consigo juntar.
sábado, 18 de outubro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
Meditação de ônibus
Existem algumas ações cotidianas que comportam pequenas meditações. Uma delas é escovar os dentes. São 5 minutos em que uma pequena lembrança de algo que passou ou a continuidade de algum raciocínio cabem perfeitamente. Mas nada muito longo. Digamos que uma unidade de epifania.
Outra delas é tomar banho (coisas que fazemos no banheiro parecem propícias à reflexão). Quem nunca tomou uma decisão importante enxaguando a cabeça? Para mim tomar banho é acordar pra vida ou pensar sobre o dia. Até eu lembrar da água acabando no mundo e da conta de eletricidade e ficar um pouco mais pragmática com as meditações.
Mas para mim a meditação cotidiana mais importante do dia costuma ser a do transporte público. Acostumados que estamos a gastar nossa existência no deslocamento para nossos afazeres do dia-a-dia, que este tempo deixe de ser um tempo perdido para ser um tempo ganho. Se a paisagem é bonita, melhor ainda. Mesmo a paisagem feia, cotidiana, é uma sequência à qual nos acostumamos.
A meditação de ônibus cabe em mais de um parágrafo. Ela contém lições de vida, momentos de instrospecção profundos. Não é igual à brevidade da meditação do metrô com as suas rápidas passagens pelas estações (e impossíveis nos horários de pico).
É um tipo de meditação que tem várias condições. Ela se torna um martírio no ônibus lotado, em que é impossível não se lembrar de como esse descaso é revoltante. Mas algumas vezes damos aquela sorte de estar em pé de frente para aquele lugar que vaga naquela hora e não tem nenhuma senhorinha/senhorzinho, grávida ou alguém com criança para quem cederíamos o lugar. É a glória!
A depender da condição física, a meditação vira sono, bem dormido, quando o corpo até já sabe a hora de acordar sem perder o ponto (algo que condições alcoólicas podem alterar). Pode valer uma leitura, escutar música, mexer no celular. Ou só olhar pra janela e pensar na vida.
Depois que mudei pro Rio, acabou minha meditação de ônibus: motoristas tresloucados, ambulantes interativos, figuras expansivas e assobios da lataria desperdiçaram um futuro filosófico promissor.
Outra delas é tomar banho (coisas que fazemos no banheiro parecem propícias à reflexão). Quem nunca tomou uma decisão importante enxaguando a cabeça? Para mim tomar banho é acordar pra vida ou pensar sobre o dia. Até eu lembrar da água acabando no mundo e da conta de eletricidade e ficar um pouco mais pragmática com as meditações.
Mas para mim a meditação cotidiana mais importante do dia costuma ser a do transporte público. Acostumados que estamos a gastar nossa existência no deslocamento para nossos afazeres do dia-a-dia, que este tempo deixe de ser um tempo perdido para ser um tempo ganho. Se a paisagem é bonita, melhor ainda. Mesmo a paisagem feia, cotidiana, é uma sequência à qual nos acostumamos.
![]() |
| Quadrinho da Crocomila, veja mais em: http://crocomila.blogspot.com.br/ |
A meditação de ônibus cabe em mais de um parágrafo. Ela contém lições de vida, momentos de instrospecção profundos. Não é igual à brevidade da meditação do metrô com as suas rápidas passagens pelas estações (e impossíveis nos horários de pico).
É um tipo de meditação que tem várias condições. Ela se torna um martírio no ônibus lotado, em que é impossível não se lembrar de como esse descaso é revoltante. Mas algumas vezes damos aquela sorte de estar em pé de frente para aquele lugar que vaga naquela hora e não tem nenhuma senhorinha/senhorzinho, grávida ou alguém com criança para quem cederíamos o lugar. É a glória!
A depender da condição física, a meditação vira sono, bem dormido, quando o corpo até já sabe a hora de acordar sem perder o ponto (algo que condições alcoólicas podem alterar). Pode valer uma leitura, escutar música, mexer no celular. Ou só olhar pra janela e pensar na vida.
Depois que mudei pro Rio, acabou minha meditação de ônibus: motoristas tresloucados, ambulantes interativos, figuras expansivas e assobios da lataria desperdiçaram um futuro filosófico promissor.
![]() |
| Quadrinho da Crocomila, veja mais em: http://crocomila.blogspot.com.br/ |
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Renascer: algumas memórias noveleiras
Quando era criança eu passava muito tempo sozinha (ou só com adultos, o que na maioria das vezes era igualmente chato). Como tantas e tantas, minha principal companhia foi durante muito tempo foi a TV. Precisei assistir muita TV para cansar dela., Hoje as crianças tem a internet, a cada dia mais infinita. A TV não - era muito limitada - até porque demorou um tempo até a TV a cabo chegar lá em casa. Lembro claramente de vários coleguinhas da 3a série comentando que TV aberta não dava pra assistit e eu ficar tentando imaginar um aparelho - àquela época um senhor de um caixote de tubos - aberto de forma que inviabilizava assistir. Sabia de nada, inocente.
Acho que a primeira novela que eu acompanhei, de saber trama e nome dos personagens, foi Vamp. Cláudia Ohana de vampira virou uma grande musa. Mas a novela que me marcou de verdade foi Renascer. Primeiro porque, diferente de todas as novelas em que as pessoas falavam como as pessoas de São Paulo ou Rio, em Renascer a trama era na Bahia. Era evidente que um monte de gente estava forçando, tentando falar com sotaque da Bahia, mas algumas pessoas falavam como eu na época (a essa altura já não soo mais de lugar nenhum). Era bom enfim ouvir alguém que soa como você, que parece com você. Nas novelas, parece que todo mundo no mundo é branco, loiro, rico e que toma suco de laranja da jarra de vidro no café da manhã. Chatice é pouco.
E em Renascer tinha aquelas paisagens verdes lindas, trilha sonora com um batuque comendo solto, tinha a maravilhosa Patrícia França com aqueles cabelos soltos e cacheados lindíssimos, tinha um monte de homem gatinho (como não reparar no Marcos Palmeira de 1993?) sem camisa (ainda que vários não soubessem atuar).
É engraçado pensar nas voltas que a vida dá. O meu passado de novela, na Ilhéus que já era passado, encontrando meu futuro, no espaço já tão mudado. O que Jorge Amado eternizou nas suas tocaias, nos seus romances picantes, com as mulheres ou santas ou putas, que faz com que entrecruze os estereótipos que nos causam alguma empatia e alguma rebeldia, continua lá, mas anos à frente.
Não há como entender o hoje sem olhar para esse ontem. A gente vai se achando nesse espanar da poeira do tempo.
Acho que a primeira novela que eu acompanhei, de saber trama e nome dos personagens, foi Vamp. Cláudia Ohana de vampira virou uma grande musa. Mas a novela que me marcou de verdade foi Renascer. Primeiro porque, diferente de todas as novelas em que as pessoas falavam como as pessoas de São Paulo ou Rio, em Renascer a trama era na Bahia. Era evidente que um monte de gente estava forçando, tentando falar com sotaque da Bahia, mas algumas pessoas falavam como eu na época (a essa altura já não soo mais de lugar nenhum). Era bom enfim ouvir alguém que soa como você, que parece com você. Nas novelas, parece que todo mundo no mundo é branco, loiro, rico e que toma suco de laranja da jarra de vidro no café da manhã. Chatice é pouco.
E em Renascer tinha aquelas paisagens verdes lindas, trilha sonora com um batuque comendo solto, tinha a maravilhosa Patrícia França com aqueles cabelos soltos e cacheados lindíssimos, tinha um monte de homem gatinho (como não reparar no Marcos Palmeira de 1993?) sem camisa (ainda que vários não soubessem atuar).
É engraçado pensar nas voltas que a vida dá. O meu passado de novela, na Ilhéus que já era passado, encontrando meu futuro, no espaço já tão mudado. O que Jorge Amado eternizou nas suas tocaias, nos seus romances picantes, com as mulheres ou santas ou putas, que faz com que entrecruze os estereótipos que nos causam alguma empatia e alguma rebeldia, continua lá, mas anos à frente.
Não há como entender o hoje sem olhar para esse ontem. A gente vai se achando nesse espanar da poeira do tempo.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
O Paulo Freire que (re)conheci
Paulo Freire é uma daquelas pessoas que ninguém tem coragem de invocar para falar mal. Ainda que a máxima da estupidez da unanimidade costume não ter falhas, até mesmo os seus maiores detratores de alguns anos atrás (lembremos de seu exílio) hoje lhe tecem as maiores loas de sorrisos amarelos. O coitado deve estrebuchar no caixão com usos como o da Prefeitura do Rio de Janeiro, com seus programas mais do que questionáveis, ou de projetos vinculados a bancos multibilionários e afins.
Por outro lado, vale lembrar que essas personalidades unânimes muitas vezes o são mais por reconhecimento do que por conhecimento da obra. Quem acompanhou sua produção (e tive muito gosto de fazê-lo no mestrado) sabe que ideias freireanas não cabem em qualquer contexto. Sobretudo nos autoritários - ainda que possamos discutir fases em sua vasta obra, em nenhuma pode servir de desculpa para relações autoritárias.
Nesta semana ocorreu uma situação daquelas em que você se pega pensando sobre as voltas que a vida dá. Não tive bolsa de mestrado e no segundo ano precisei concluí-lo trabalhando como professora na prefeitura de São Paulo. Cheguei a trabalhar durante três meses em duas escolas simultaneamente: no Euclydes Figueiredo (Vila São Francisco, pertinho de Osasco), dando aula para o Ensino Fundamental, e no Derville Allegretti (Santana), dando aula para o Ensino Médio e Curso Normal. Era uma loucura: trabalhar 60 horas por semana e ainda ter pique para estudar e produzir uma dissertação não foi fácil. Mas foi muito importante para minha formação. Infelizmente tive que fazer a difícil opção de me vincular de uma das escolas ou não teria conseguido concluir o curso, ficando somente no Derville até 2012.
Eis que chega no meu email um link com várias fotos de Paulo Freire, num auditório que me pareceu familiar. Era um planejamento escolar em que o famoso educador sentava à mesa num conhecido tablado. O mesmo tablado em que dei tantas aulas. Essa sensação de voltas do mundo me pareceu muito engraçada. Não conheci Paulo Freire, ele não me conheceu. Isso nunca alterou em nada a minha vida, mas só de saber que pisamos no mesmo local, é como se ele, que habita minha estante e meus sonhos, estivesse um passo mais próximo.
De repente me peguei lembrando de todas as coisas que já passei nesse auditório. Foram muitas reuniões pedagógicas, a maioria sem sentido, feitas porque "a gestão" disse que teria que fazer. Os problemas da escola iam para baixo do tapete, porque urgiam seguir as metas. Foram várias reuniões do Conselho de Escola, algumas vezes como presidenta: umas guardo boas recordações, outras nem tanto: como no dia em que aprovaram o programa de trainee Junior Achievement para "formar jovens empreededores", ou no dia em que um professor reconhecidamente autoritário veio me agredir por eu "estar fazendo política" (e ele não?).
Gostava muito do auditório por poder trazer vídeos, preparar slides e usar o datashow para fugir um pouco dos livros, mas também por sair um pouco da sala de aula. Lembro de algumas aulas sobre biotecnologia, lembro de debates organizados por outros professores, e lembro do momento que talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que fiz como professora do noturno que foi brigar para que tivessem, como nas turmas diurnas, um show de calouros (um sucesso, por sinal!).
De repente todas essas coisas que fiz, é possível que pela distância do espaço e do tempo, ficaram mais especiais, pelo fato de Paulo Freire ter passado ali. Então fiquei pensando nas coisas que fazemos por acharmos importante, e não por ninguém nos dizer que é preciso fazê-las. Tantas colegas fazem coisas muito especiais nas salas de aula por aí, que vão ser tão somente coisas que irão lembrar como as melhores coisas que fizeram. Às vezes farão à revelia de diretoras, às vezes desistirão de fazer pela mesma razão. Mas o fato é que fazem, porque não desistem, a despeito de toda a desvalorização que passam, de ser o que são: educadoras. E para sê-lo, têm que lutar todos os dias, porque acreditar não paga aluguel, nem faz compras do mês, nem cria autonomia pedagógica: o conflito, o debate, a tomada de posição podem fazer com que venham novas conquistas (econômicas e políticas).
E então fiquei feliz por encontrar de novo, depois de tantas voltas, o querido mestre com quem tanto aprendi. Ele está um pouco em mim, como está um pouco em todas as que lutam.
P.S. Para quem sentiu curiosidade, o link das fotos: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/3410
Por outro lado, vale lembrar que essas personalidades unânimes muitas vezes o são mais por reconhecimento do que por conhecimento da obra. Quem acompanhou sua produção (e tive muito gosto de fazê-lo no mestrado) sabe que ideias freireanas não cabem em qualquer contexto. Sobretudo nos autoritários - ainda que possamos discutir fases em sua vasta obra, em nenhuma pode servir de desculpa para relações autoritárias.
Nesta semana ocorreu uma situação daquelas em que você se pega pensando sobre as voltas que a vida dá. Não tive bolsa de mestrado e no segundo ano precisei concluí-lo trabalhando como professora na prefeitura de São Paulo. Cheguei a trabalhar durante três meses em duas escolas simultaneamente: no Euclydes Figueiredo (Vila São Francisco, pertinho de Osasco), dando aula para o Ensino Fundamental, e no Derville Allegretti (Santana), dando aula para o Ensino Médio e Curso Normal. Era uma loucura: trabalhar 60 horas por semana e ainda ter pique para estudar e produzir uma dissertação não foi fácil. Mas foi muito importante para minha formação. Infelizmente tive que fazer a difícil opção de me vincular de uma das escolas ou não teria conseguido concluir o curso, ficando somente no Derville até 2012.
Eis que chega no meu email um link com várias fotos de Paulo Freire, num auditório que me pareceu familiar. Era um planejamento escolar em que o famoso educador sentava à mesa num conhecido tablado. O mesmo tablado em que dei tantas aulas. Essa sensação de voltas do mundo me pareceu muito engraçada. Não conheci Paulo Freire, ele não me conheceu. Isso nunca alterou em nada a minha vida, mas só de saber que pisamos no mesmo local, é como se ele, que habita minha estante e meus sonhos, estivesse um passo mais próximo.
De repente me peguei lembrando de todas as coisas que já passei nesse auditório. Foram muitas reuniões pedagógicas, a maioria sem sentido, feitas porque "a gestão" disse que teria que fazer. Os problemas da escola iam para baixo do tapete, porque urgiam seguir as metas. Foram várias reuniões do Conselho de Escola, algumas vezes como presidenta: umas guardo boas recordações, outras nem tanto: como no dia em que aprovaram o programa de trainee Junior Achievement para "formar jovens empreededores", ou no dia em que um professor reconhecidamente autoritário veio me agredir por eu "estar fazendo política" (e ele não?).
Gostava muito do auditório por poder trazer vídeos, preparar slides e usar o datashow para fugir um pouco dos livros, mas também por sair um pouco da sala de aula. Lembro de algumas aulas sobre biotecnologia, lembro de debates organizados por outros professores, e lembro do momento que talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que fiz como professora do noturno que foi brigar para que tivessem, como nas turmas diurnas, um show de calouros (um sucesso, por sinal!).
De repente todas essas coisas que fiz, é possível que pela distância do espaço e do tempo, ficaram mais especiais, pelo fato de Paulo Freire ter passado ali. Então fiquei pensando nas coisas que fazemos por acharmos importante, e não por ninguém nos dizer que é preciso fazê-las. Tantas colegas fazem coisas muito especiais nas salas de aula por aí, que vão ser tão somente coisas que irão lembrar como as melhores coisas que fizeram. Às vezes farão à revelia de diretoras, às vezes desistirão de fazer pela mesma razão. Mas o fato é que fazem, porque não desistem, a despeito de toda a desvalorização que passam, de ser o que são: educadoras. E para sê-lo, têm que lutar todos os dias, porque acreditar não paga aluguel, nem faz compras do mês, nem cria autonomia pedagógica: o conflito, o debate, a tomada de posição podem fazer com que venham novas conquistas (econômicas e políticas).
E então fiquei feliz por encontrar de novo, depois de tantas voltas, o querido mestre com quem tanto aprendi. Ele está um pouco em mim, como está um pouco em todas as que lutam.
P.S. Para quem sentiu curiosidade, o link das fotos: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/3410
terça-feira, 5 de agosto de 2014
As pepitas de Jesus ex-presidiário
Quando saí da sala do cursinho que funciona na Igreja, encontrei Jesus. Não, nada que possa parecer uma epifania, iluminação ou aparição: Cosme Silva de Jesus, negro, grisalho, com os rastros da idade esculpidos no rosto, conversava animadamente sobre sua saída da cadeia.
Estava rindo, visivelmente surpreso, mais muito à vontade: acabava de conhecer o primeiro ateu de sua vida na conversa com um novo amigo. Dizia não conseguir entender como podia ser tão pacato e ateu: como se duvidar da existência divina fosse uma ansiedade muito maior do que a de Lhe prestar contas.
Seu Jesus encontrava-se frustrado com a tentativa de encontrar um grupo de oração - ainda faltavam-lhe R$ 16,50 para inteirar o valor da passagem até o norte do Estado (queria chegar à Bahia), e esperava que encontraria um coração cristão que se compadecesse para tornar o pedido mais convincente.
E eis que até esqueceu o pedido do dinheiro, já que conseguiu encontrar de uma tacada só dois (eu e o outro) sem Jesus no coração, dois tristes da vida, sofrendo em agonia, ou - sabe de nada inocente - numa vida de pecado. Evangelizar foi preciso.
Mas o demônio é ardiloso! A argumentação era fina e cuidadosamente escolhida, envolvendo repertório de parábolas de todos os tipos. Seu Jesus foi direto ao tema da evolução, clamando pela evidência do design inteligente, invocando Darwin. Quando eu falei que era bióloga e que Darwin era um dos assuntos favoritos, a estratégia logo mudou.
Então veio o contra-ataque: encarei de frente, e, com um sorriso, lancei o desafio. Jesus, o problema é o seguinte: vai ficar meio difícil a gente discutir a existência de Deus pela ciência, por uma causa simples. A ciência precisa duvidar, duvidar sempre. O dia que a ciência descobrir uma verdade em que não haja dúvida, é porque deixou de ser ciência. Mas a fé não pode jamais conviver com a dúvida, porque o não questionar é o motor de sua existência. Então, Jesus, a gente podia deixar a César o que é de César.
Ali eu vi Jesus duvidar. Por um momento deu uma risada e apertou minha mão, como quem dissesse que ganhei um round. Mas ele não tinha nome de quem desiste fácil.
"Você fez biologia né? Coisa de cientista que descobre coisas, isso. Cientista é que nem garimpeiro. Eu quando trabalhei no garimpo às vezes tinha uma pilha maior que ele ali. A gente ia no aluvião e aguava, aguava. E depois de um tanto de tempo aquela pilha gigante tava em menos da metade, até acabar. E a gente tinha achado algumas pepitas. Cientista faz isso né? Procura lá umas pepitas no seu estudo..."
Eu ainda estava embasbacada com a perfeição da metáfora e ele veio de sola:
"Então se a senhora acreditou em algum momento que ia encontrar o seu ouro como cientista, quer dizer que em algum momento teve fé em alguma coisa não é? Pois minha senhora, isso que a senhora sentiu, é o mesmo com Jesus!"
Os dois gargalhamos, apertamos as mãos. Antes de ir, Jesus disse que mudou a impressão que tinha dos ateus - havia percebido que "eram gente muito humana". Achei graça.
Fomos cada um para o seu lado, eu com um pouco mais de fé, ele com um pouco mais de dúvida.
Estava rindo, visivelmente surpreso, mais muito à vontade: acabava de conhecer o primeiro ateu de sua vida na conversa com um novo amigo. Dizia não conseguir entender como podia ser tão pacato e ateu: como se duvidar da existência divina fosse uma ansiedade muito maior do que a de Lhe prestar contas.
Seu Jesus encontrava-se frustrado com a tentativa de encontrar um grupo de oração - ainda faltavam-lhe R$ 16,50 para inteirar o valor da passagem até o norte do Estado (queria chegar à Bahia), e esperava que encontraria um coração cristão que se compadecesse para tornar o pedido mais convincente.
E eis que até esqueceu o pedido do dinheiro, já que conseguiu encontrar de uma tacada só dois (eu e o outro) sem Jesus no coração, dois tristes da vida, sofrendo em agonia, ou - sabe de nada inocente - numa vida de pecado. Evangelizar foi preciso.
Mas o demônio é ardiloso! A argumentação era fina e cuidadosamente escolhida, envolvendo repertório de parábolas de todos os tipos. Seu Jesus foi direto ao tema da evolução, clamando pela evidência do design inteligente, invocando Darwin. Quando eu falei que era bióloga e que Darwin era um dos assuntos favoritos, a estratégia logo mudou.
Então veio o contra-ataque: encarei de frente, e, com um sorriso, lancei o desafio. Jesus, o problema é o seguinte: vai ficar meio difícil a gente discutir a existência de Deus pela ciência, por uma causa simples. A ciência precisa duvidar, duvidar sempre. O dia que a ciência descobrir uma verdade em que não haja dúvida, é porque deixou de ser ciência. Mas a fé não pode jamais conviver com a dúvida, porque o não questionar é o motor de sua existência. Então, Jesus, a gente podia deixar a César o que é de César.
Ali eu vi Jesus duvidar. Por um momento deu uma risada e apertou minha mão, como quem dissesse que ganhei um round. Mas ele não tinha nome de quem desiste fácil.
"Você fez biologia né? Coisa de cientista que descobre coisas, isso. Cientista é que nem garimpeiro. Eu quando trabalhei no garimpo às vezes tinha uma pilha maior que ele ali. A gente ia no aluvião e aguava, aguava. E depois de um tanto de tempo aquela pilha gigante tava em menos da metade, até acabar. E a gente tinha achado algumas pepitas. Cientista faz isso né? Procura lá umas pepitas no seu estudo..."
Eu ainda estava embasbacada com a perfeição da metáfora e ele veio de sola:
"Então se a senhora acreditou em algum momento que ia encontrar o seu ouro como cientista, quer dizer que em algum momento teve fé em alguma coisa não é? Pois minha senhora, isso que a senhora sentiu, é o mesmo com Jesus!"
Os dois gargalhamos, apertamos as mãos. Antes de ir, Jesus disse que mudou a impressão que tinha dos ateus - havia percebido que "eram gente muito humana". Achei graça.
Fomos cada um para o seu lado, eu com um pouco mais de fé, ele com um pouco mais de dúvida.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Crônica de uma panfleteira: tem uma pessoa ali!
Panfletar é uma arte. A maioria das pessoas acha que distribuir panfleto na rua é uma ação teleológica: o objetivo final seria se livrar do papel. Isto só faria sentido se a relação com o papel distribuído for uma relação monetária: tanto faz o que está escrito, o que moveria à distribuição de panfletos seria acabar com eles. Para quem recebe por quantidade de panfletos distribuídos ou por tempo de distribuição, é compreensível ouvir de alguns "deixa eu pegar uns 10 panfletos para te ajudar".
Mas no meu caso, e no de milhares de ativistas por aí, não ajuda muito. O ato de panfletar tem a ver com uma necessidade: a de espalhar ideias para uma quantidade de pessoas que seria inatingível pelas relações pessoais e também pela internet. Primeiro porque todos conhecemos um número limitado de pessoas, e segundo porque a internet, além de enganar um pouco sobre a capacidade de atingir novas pessoas (ainda mais com as novas políticas do Facebook, que valorizam publicações pagas), também não é um direito universal ainda hoje no país.
É engraçado quando você panfleta há um certo tempo, porque alguns padrões de comportamento insistem em se repetir. Um tipo é o que pega por educação ou solidariedade. Se a motivação é bem intencionada, de nada terá servido caso não leia a mensagem espalhada. Afinal de contas, o objetivo é a mensagem! Mas depois de algumas horas tentando o contato com diversos desconhecidos nem sempre tão educados, quem pega por educação deixa uma sensação de alívio, pois representa esta possibilidade de talvez ler o panfleto.
Uma quantidade considerável de pessoas, ao perceber alguém panfletando, prefere ignorar solenemente a humanidade do outro. Os fones de ouvido ajudam bastante - são um subterfúgio mais eficaz para tratar o outro como um poste. Ei gente, tem uma pessoa ali! É um tanto aflitivo, depois do bom dia/boa tarde/ boa noite, ver as pessoas te tratarem como aos leprosos do século XV - correndo para mudar de calçada, mantendo o pescoço reto para não cruzar o olhar, ou fazendo cara de nojo.
Tento compreender estas atitudes, mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Alguns são motivados por uma crítica à efetividade do panfleto: muito papel para pouco retorno, gera lixo e as pessoas não dão atenção. Posso dizer, depois de panfletar por diversas situações - cursinho popular, sindicato, posição política, campanha eleitoral, que ainda não conheço nenhum modo mais eficaz de fazer chegar suas ideias a um grande número de pessoas (fora a internet, com as ressalvas já feitas lá em cima). Outros negam por pressa mesmo, acontece. Um outro tanto de gente levou muito a sério as orientações maternas de não falar com estranhos. E ainda há aqueles que pensam que panfleto="político", entendido na pior das suas acepções: o político corrupto que só quer ganhar vantagem (e não na acepção política que temos todos, inclusive os "que odeiam política" e permitem que esses vermes se reproduzam com sua posição abstencionista).
Mas se eu não tivesse panfletado tanto, teria perdido muito causo nessa minha vida. Que alegria conhecer o seu Antônio, trabalhador da construção civil, e ganhar uns dois dedos de prosa sobre a situação política no Brasil. Seu Antônio, pernambucano de uns 60 anos, de fala mansa e amplo conhecimento, lembrava de cabeça o nome e número de todas as pessoas em quem votou na vida. Um verdadeiro exemplo. Por mais Antônios nas ruas. Eles fazem a gente ganhar o dia.
Mas no meu caso, e no de milhares de ativistas por aí, não ajuda muito. O ato de panfletar tem a ver com uma necessidade: a de espalhar ideias para uma quantidade de pessoas que seria inatingível pelas relações pessoais e também pela internet. Primeiro porque todos conhecemos um número limitado de pessoas, e segundo porque a internet, além de enganar um pouco sobre a capacidade de atingir novas pessoas (ainda mais com as novas políticas do Facebook, que valorizam publicações pagas), também não é um direito universal ainda hoje no país.
É engraçado quando você panfleta há um certo tempo, porque alguns padrões de comportamento insistem em se repetir. Um tipo é o que pega por educação ou solidariedade. Se a motivação é bem intencionada, de nada terá servido caso não leia a mensagem espalhada. Afinal de contas, o objetivo é a mensagem! Mas depois de algumas horas tentando o contato com diversos desconhecidos nem sempre tão educados, quem pega por educação deixa uma sensação de alívio, pois representa esta possibilidade de talvez ler o panfleto.
Uma quantidade considerável de pessoas, ao perceber alguém panfletando, prefere ignorar solenemente a humanidade do outro. Os fones de ouvido ajudam bastante - são um subterfúgio mais eficaz para tratar o outro como um poste. Ei gente, tem uma pessoa ali! É um tanto aflitivo, depois do bom dia/boa tarde/ boa noite, ver as pessoas te tratarem como aos leprosos do século XV - correndo para mudar de calçada, mantendo o pescoço reto para não cruzar o olhar, ou fazendo cara de nojo.
Tento compreender estas atitudes, mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Alguns são motivados por uma crítica à efetividade do panfleto: muito papel para pouco retorno, gera lixo e as pessoas não dão atenção. Posso dizer, depois de panfletar por diversas situações - cursinho popular, sindicato, posição política, campanha eleitoral, que ainda não conheço nenhum modo mais eficaz de fazer chegar suas ideias a um grande número de pessoas (fora a internet, com as ressalvas já feitas lá em cima). Outros negam por pressa mesmo, acontece. Um outro tanto de gente levou muito a sério as orientações maternas de não falar com estranhos. E ainda há aqueles que pensam que panfleto="político", entendido na pior das suas acepções: o político corrupto que só quer ganhar vantagem (e não na acepção política que temos todos, inclusive os "que odeiam política" e permitem que esses vermes se reproduzam com sua posição abstencionista).
Mas se eu não tivesse panfletado tanto, teria perdido muito causo nessa minha vida. Que alegria conhecer o seu Antônio, trabalhador da construção civil, e ganhar uns dois dedos de prosa sobre a situação política no Brasil. Seu Antônio, pernambucano de uns 60 anos, de fala mansa e amplo conhecimento, lembrava de cabeça o nome e número de todas as pessoas em quem votou na vida. Um verdadeiro exemplo. Por mais Antônios nas ruas. Eles fazem a gente ganhar o dia.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Causo de aniversário ou Como conheci Marcelo Yuka
Eu adoro aniversário. Sempre adorei, e ouso dizer que continuarei adorando porque gosto de celebrar a vida sem motivo específico, que dirá num dia de paparicos e mimos. Estou a um passo dos 30 anos e este é mais um motivo para comemorar demais: a vida pede passagem! E nem me venham com esse papo de crise da meia idade: se os mais novos quiserem me chamar de velha que o façam porque foram bastante bem aproveitados! Nesse caso a melhor resposta é o texto da Eliane Brum, pra quem tiver a curiosidade.
Dois anos atrás, no dia 16 de agosto de 2012, tive a felicidade de comemorar de uma forma única meu aniversário. Mas antes de contar essa parte da história, vou fazer um breve flashback para explicar o porquê.
Fui adolescente nos anos 1990 e a grande sensação da música brasileira na época era a banda O Rappa. As letras denunciando a desigualdade, numa mistura de rock, rap, reggae e samba, mas sem se reduzir a nada disso era a síntese do novo. Marcelo Yuka se tornou um grande ídolo de toda uma geração por sua sensibilidade nas letras. E ainda mais depois de, mesmo depois de levar um tiro durante um assalto, ficando paraplégico, não fez coro ao discurso de ódio contra os pobres, rechaçando a envenenada linha, "bandido bom é bandido morto", assumida por alguns que se dizem "justiceiros" e replicada por figuras torpes como Rachel Sheherazade. Preferiu dizer que "é uma cilada confundir justiça com vingança".
Em 2012, Yuka ainda aceitou o desafio de uma candidatura a vice-prefeito de ninguém menos do que Marcelo Freixo, figura nacionalmente conhecida pelo combate ao reacionarismo de direita e ao pragmatismo utilitário governista, ao ser o principal porta-voz da luta por direitos humanos no Rio de Janeiro. Esta dupla de Marcelos inspirou centenas de ativistas, principalmente jovens, a construir uma campanha parca de recursos mas rica de sonhos, que ficou conhecida como Primavera Carioca.
E no meio do turbilhão de atividades dessa campanha, voltando pra casa cansada de corpo e renovada de espírito, encontrei com meu namorado e os companheiros de casa num bar próximo à minha casa. Era um bar muito particular: havia vários livros pelas mesas para serem folheados, muitas imagens pelas paredes, garçons falantes e simpáticos, e apresentações de música ao vivo. As terças-feiras era especialmente interessante, porque era o dia da seresta: senhores septuagenários cantando Reginaldo Rossi, Wando, Amado Batista, e de quebra interagindo com a plateia.
Naquela terça quando cheguei para encontrar com o pessoal, estavam todos eufóricos. Diziam que eu tinha que ter estado lá, tinha que ter! Um dos senhores, aparentemente o mais animado, depois de cantar, interagir, dedicar a música e fazer casais dançarem, sentou para tomar uma cerveja naquela mesa. Olhou para um dos presentes e atirou:
- Você não me conhece, mas aposto que conhece meu filho.
Meu companheiro, surpreso, pergunta com curiosidade quem seria o ilustre.
E então o pai de Marcelo Yuka começa contando histórias e mais histórias do filho, divide cervejas e risadas, canta mais uma música e vai embora. Minutos antes de eu chegar, para meu desconsolo.
Algumas semanas depois, eis que acontece uma das atividades mais impressionantes que tenha participado: era uma assembleia de jovens com o Freixo e o Yuka, para discutir a campanha. Seria no auditório da Associação Brasileira de Imprensa, às 18h. Era 18h10 e o local já era absolutamente intransitável. A solução, sem querer, virou um símbolo do que seria a própria campanha: fomos pra rua. E fizemos uma atividade com mais de 3 mil jovens na Cinelândia. Um dia inesquecível: fitas amarelas, flores, palavras de ordem, e muitos sorridos. Um dia que marcou a história.
Lá no finalzinho da atividade, emocionada com tudo aquilo que aconteceu, ainda tive a oportunidade de chegar perto do Yuka, através de uma amiga em comum. Tímida, mas também animada, com o estômago revirando de nervoso, mas resoluta a sair de lá ao menos depois de conversarmos, consegui vencer a vergonha e contar toda essa história pra ele. Ele, a simpatia em pessoa, ria, achava muita graça, e quando eu contei que era meu aniversário, me deu o segundo melhor presente: "Feliz parabéns".

O primeiro, ele ajudou a construir já há alguns anos: a utopia.
Dois anos atrás, no dia 16 de agosto de 2012, tive a felicidade de comemorar de uma forma única meu aniversário. Mas antes de contar essa parte da história, vou fazer um breve flashback para explicar o porquê.
Fui adolescente nos anos 1990 e a grande sensação da música brasileira na época era a banda O Rappa. As letras denunciando a desigualdade, numa mistura de rock, rap, reggae e samba, mas sem se reduzir a nada disso era a síntese do novo. Marcelo Yuka se tornou um grande ídolo de toda uma geração por sua sensibilidade nas letras. E ainda mais depois de, mesmo depois de levar um tiro durante um assalto, ficando paraplégico, não fez coro ao discurso de ódio contra os pobres, rechaçando a envenenada linha, "bandido bom é bandido morto", assumida por alguns que se dizem "justiceiros" e replicada por figuras torpes como Rachel Sheherazade. Preferiu dizer que "é uma cilada confundir justiça com vingança".
(O que Sobrou do Céu, um dos clipes preferidos)
Em 2012, Yuka ainda aceitou o desafio de uma candidatura a vice-prefeito de ninguém menos do que Marcelo Freixo, figura nacionalmente conhecida pelo combate ao reacionarismo de direita e ao pragmatismo utilitário governista, ao ser o principal porta-voz da luta por direitos humanos no Rio de Janeiro. Esta dupla de Marcelos inspirou centenas de ativistas, principalmente jovens, a construir uma campanha parca de recursos mas rica de sonhos, que ficou conhecida como Primavera Carioca.
E no meio do turbilhão de atividades dessa campanha, voltando pra casa cansada de corpo e renovada de espírito, encontrei com meu namorado e os companheiros de casa num bar próximo à minha casa. Era um bar muito particular: havia vários livros pelas mesas para serem folheados, muitas imagens pelas paredes, garçons falantes e simpáticos, e apresentações de música ao vivo. As terças-feiras era especialmente interessante, porque era o dia da seresta: senhores septuagenários cantando Reginaldo Rossi, Wando, Amado Batista, e de quebra interagindo com a plateia.
Naquela terça quando cheguei para encontrar com o pessoal, estavam todos eufóricos. Diziam que eu tinha que ter estado lá, tinha que ter! Um dos senhores, aparentemente o mais animado, depois de cantar, interagir, dedicar a música e fazer casais dançarem, sentou para tomar uma cerveja naquela mesa. Olhou para um dos presentes e atirou:
- Você não me conhece, mas aposto que conhece meu filho.
Meu companheiro, surpreso, pergunta com curiosidade quem seria o ilustre.
E então o pai de Marcelo Yuka começa contando histórias e mais histórias do filho, divide cervejas e risadas, canta mais uma música e vai embora. Minutos antes de eu chegar, para meu desconsolo.
Algumas semanas depois, eis que acontece uma das atividades mais impressionantes que tenha participado: era uma assembleia de jovens com o Freixo e o Yuka, para discutir a campanha. Seria no auditório da Associação Brasileira de Imprensa, às 18h. Era 18h10 e o local já era absolutamente intransitável. A solução, sem querer, virou um símbolo do que seria a própria campanha: fomos pra rua. E fizemos uma atividade com mais de 3 mil jovens na Cinelândia. Um dia inesquecível: fitas amarelas, flores, palavras de ordem, e muitos sorridos. Um dia que marcou a história.
Lá no finalzinho da atividade, emocionada com tudo aquilo que aconteceu, ainda tive a oportunidade de chegar perto do Yuka, através de uma amiga em comum. Tímida, mas também animada, com o estômago revirando de nervoso, mas resoluta a sair de lá ao menos depois de conversarmos, consegui vencer a vergonha e contar toda essa história pra ele. Ele, a simpatia em pessoa, ria, achava muita graça, e quando eu contei que era meu aniversário, me deu o segundo melhor presente: "Feliz parabéns".

O primeiro, ele ajudou a construir já há alguns anos: a utopia.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Muita sede ao pote: Sabesp pra quem?
Da última vez em Sampa, enfim conheci o Jardim Miriam, até então somente o nome do meu ônibus azulzinho companheiro, que me trazia de volta para casa nas mais diversas situações. Lá no fim da Avenida Cupecê, quase tropeçando em Diadema, tive a oportunidade de fazer novos amigos enquanto assistíamos um Nigéria x Bósnia retrancado de tudo. Ao saber que um deles trabalhava na Sabesp, não contive a curiosidade de perguntar como estava o problema da falta de água no Sistema Cantareira e de como são as coisas na Sabesp vistas de dentro.
E o que ele me contou é que a crise de abastecimento já era sabida na empresa desde 2004: a exigência de reformas estruturais tem sido sempre protelada contando com a sorte de que a chuva supere o previsto. Ou seja, sabendo que hora ou outra ia faltar água, passaram a confiar no acaso. Segundo esse amigo, "eles se fiaram em Deus e só".
Dez anos depois, e a necessidade de obras bate à porta, agora em caráter emergencial - ou seja, sem o planejamento prévio e sujeita a todo tipo de contingência - sobretudo a moda do superfaturamento que há tempos se desfila nas passarelas bandeirantes.
E como se nao bastasse, a gota d'água: a Sabesp, assim como outras empresas "públicas" como o Banco do Brasil, tem 49% de suas ações sendo negociadas na Bolsa de Nova York. Além de faltar água para a periferia de São Paulo, a fonte dos acionistas não seca.
domingo, 29 de junho de 2014
Meio de campo no Brasil: uma falta histórica
A primeira Copa que eu acompanhei foi a de 1994, há exatos 20 anos. Estava na 3a série, tinha recém mudado para São Paulo, e acompanhei em casa da nossa TV véinha, com meus pais e tios. Lembro com clareza da tabela em que eu marcava o resultado dos jogos (algumas já vinham com o nome do Brasil preenchido até a final), lembro do frio e do cheiro de quentão, é sempre na época da festa junina. Lembro da cotovelada do Leonardo no jogo contra os Estados Unidos - doloroso cartão vermelho, lembro do chute de trivela do Branco, das tabelas de Romário e Bebeto, das inúmeras vezes que tive que segurar o xixi pra não sair antes dos lances mais marcantes.
E claro, do Galvão Bueno, já irritante à época. Às vezes conseguia convencer a mudar pro SBT, que às transmitia o jogo com um mascote que era uma bolinha amarela meio tosca que ficava fazendo movimentos engraçados. E apesar de não conseguir ouvir a voz do mala do Galvão por mais de 5 segundos, não tem como esquecer a cena cômica dele dando uma gravata no Pelé e gritando descontroladamente “É TETRA!!!!!”.
Desde então, de 4 em 4 anos tem um quê especial assistir à copa do mundo, esperar a escalação pra palpitar, acompanhar a tabela pra escrever no papelzinho (ou na tabela do Excel, atualmente) os resultados dos jogos, não só torcer para o Brasil, mas ter uma síntese do que acontece em 32 seleções pelo mundo, ver golaços históricos, novos clássicos se construindo, torcer para os hermanos e para os africanos. Tudo isso vai virando uma tradição que hoje faz parte indissociável do que eu sou.
Eu não escolhi a Copa vir para cá. E certamente não escolheria se soubesse quantos absurdos se faria em nome dela: remoções, superfaturamentos, repressão policial, violência sexual, aprofundamento dos problemas urbanos nas cidades-sede, só pra citar alguns. Também não engrosso o coro falido daqueles que dizem “agora não adianta protestar”: estive em boa parte das manifestações contrárias às injustiças promovidas pela realização da Copa no Brasil. Por outro lado respeito profundamente a dor dos que perderam os operários mortos nas aceleradas obras, respeito o indignação daqueles que não conseguem mais torcer como antes ao botar na balança as graves injustiças cometidas em nome da Copa.
Agora me recuso a engrossar um outro coro, esse mais diminuto, é verdade, que tentar colocar em dois lados distintos os torcedores x os “conscientes”, como se torcer para o Brasil fosse uma alienação que fizesse com que as pessoas esquecessem os absurdos ocorridos. Tratam o torcer como uma questão moral, entrando numa luta perdida contra um hábito brasileiro que constrói paixão e identidade. Só quem não sabe o que é brigar num campeonato, enfrentar rivalidade histórica, ser roubado pelo juiz, ser motivo de chacota uns dias e tirar uma onda em outras, comemorar gol na torcida, botar o time pra frente mesmo nos momentos improváveis, poderia pensar que boa parte dos brasileiros iria passar insensível a uma Copa aqui (convenhamos, dentro das 4 linhas, que Copa!).
Suspeito que quem opõe os que protestam contra a FIFA /CBF aos que torcem pela seleção são os mesmos que se “chatearam” com as milhões de pessoas que se somaram às manifestações de junho de 2013, que nunca haviam estado antes nas ruas - "chateados" por não terem capacidade de dirigir os novos sentimentos rebeldes que afloraram nas ruas. Ainda que eu "não estivesse dormindo" antes das multitudinárias passeatas, não vejo com maus olhos os jovens de 16, 17 anos que empolgados cantavam "O gigante acordou", e sim com esperança de que voltem nas próximas. Desse ciúme tenho alívio de não compartilhar.
Limpo o meio de campo, vou direto onde queria: eu nunca vi um jogo do Brasil com tantos lançamentos quanto este último das oitavas contra o Chile – lance a lance, a cena se repetiu inúmeras vezes, Júlio César, David Luiz ou Thiago Silva fazem um bom corte, dominam a bola e lançam para Neymar, Hulk ou Oscar. Invariavelmente este três – e o Fred – muito bem marcados pela zaga chilena. Ficou óbvio, evidente, ululante que não havia meio de campo – sim uma defesa reforçada com volantes recuando no contra-ataque, além de nosso ataque, à espera de um lance como quem espera iluminação divina. Todos esperando um lance impressionante, belo, maroto, à altura de um olé, um grito, um papitar de coração que faz a gente olhar pro vizinho com nada além de um palavrão de espanto na boca porque viu aquilo, provavelmente de autoria de Neymar, mas vai que aparece pelos pés de um outro (eu mesma, com essa escalação, teria enorme dificuldade de dizer quem).
Acontece que esse lance não veio. Não veio nenhum brilho em especial no jogo, além de Júlio César que calou muitas bocas (aqui me incluo) na prorrogação e nos pênaltis. Não veio entrosamento do time. Nosso capitão Thiago Silva, a quem considero um dos melhores zagueiros do mundo, se recusou a bater pênalti e se ajoelhou de fora do grupo. O time desentrosado, não parecia uma equipe. Veio um time sem meio de campo, sem brilho e sem união: até dois desses ainda dá pra driblar num jogo.
Na minha humilde opinião de comentarista amadora e virtual, tem tudo a ver com o estilo de técnico de Felipão: autoritário, de quem não admite ser questionado, e que mantém o time porque quer provar na marra que sua ideia é a melhor, mesmo ao custo de uma derrota (se não formal, definitivamente uma derrota moral, já que o silêncio profundo ao longo do jogo era prova inequívoca do sofrimento do torcedor brasileiro). É sintomático que não aposte no meio de campo – a falta de meio campo do Brasil reflete a falta de mediação do técnico. Bem diferente do time da Holanda, cuja preparação física e discussão coletiva da tática (são realizadas plenárias com toda a equipe para discuti-la), aliada ao sangue frio da experiência contra um México muito guerreiro munido de uma muralha de goleiro, conseguiram conquistar sua classificação.
Assitir um Brasil com toque de bola, trabalho coletivo em campo, explorar as melhores características individuais e coletivas da seleção seria algo bonito de ver. Poderia ser uma métafora para um Brasil que procura apostar no que tem de melhor: sua matéria humana. Esse sim seria um golaço.
E claro, do Galvão Bueno, já irritante à época. Às vezes conseguia convencer a mudar pro SBT, que às transmitia o jogo com um mascote que era uma bolinha amarela meio tosca que ficava fazendo movimentos engraçados. E apesar de não conseguir ouvir a voz do mala do Galvão por mais de 5 segundos, não tem como esquecer a cena cômica dele dando uma gravata no Pelé e gritando descontroladamente “É TETRA!!!!!”.
Desde então, de 4 em 4 anos tem um quê especial assistir à copa do mundo, esperar a escalação pra palpitar, acompanhar a tabela pra escrever no papelzinho (ou na tabela do Excel, atualmente) os resultados dos jogos, não só torcer para o Brasil, mas ter uma síntese do que acontece em 32 seleções pelo mundo, ver golaços históricos, novos clássicos se construindo, torcer para os hermanos e para os africanos. Tudo isso vai virando uma tradição que hoje faz parte indissociável do que eu sou.
Eu não escolhi a Copa vir para cá. E certamente não escolheria se soubesse quantos absurdos se faria em nome dela: remoções, superfaturamentos, repressão policial, violência sexual, aprofundamento dos problemas urbanos nas cidades-sede, só pra citar alguns. Também não engrosso o coro falido daqueles que dizem “agora não adianta protestar”: estive em boa parte das manifestações contrárias às injustiças promovidas pela realização da Copa no Brasil. Por outro lado respeito profundamente a dor dos que perderam os operários mortos nas aceleradas obras, respeito o indignação daqueles que não conseguem mais torcer como antes ao botar na balança as graves injustiças cometidas em nome da Copa.
Agora me recuso a engrossar um outro coro, esse mais diminuto, é verdade, que tentar colocar em dois lados distintos os torcedores x os “conscientes”, como se torcer para o Brasil fosse uma alienação que fizesse com que as pessoas esquecessem os absurdos ocorridos. Tratam o torcer como uma questão moral, entrando numa luta perdida contra um hábito brasileiro que constrói paixão e identidade. Só quem não sabe o que é brigar num campeonato, enfrentar rivalidade histórica, ser roubado pelo juiz, ser motivo de chacota uns dias e tirar uma onda em outras, comemorar gol na torcida, botar o time pra frente mesmo nos momentos improváveis, poderia pensar que boa parte dos brasileiros iria passar insensível a uma Copa aqui (convenhamos, dentro das 4 linhas, que Copa!).
Suspeito que quem opõe os que protestam contra a FIFA /CBF aos que torcem pela seleção são os mesmos que se “chatearam” com as milhões de pessoas que se somaram às manifestações de junho de 2013, que nunca haviam estado antes nas ruas - "chateados" por não terem capacidade de dirigir os novos sentimentos rebeldes que afloraram nas ruas. Ainda que eu "não estivesse dormindo" antes das multitudinárias passeatas, não vejo com maus olhos os jovens de 16, 17 anos que empolgados cantavam "O gigante acordou", e sim com esperança de que voltem nas próximas. Desse ciúme tenho alívio de não compartilhar.
Limpo o meio de campo, vou direto onde queria: eu nunca vi um jogo do Brasil com tantos lançamentos quanto este último das oitavas contra o Chile – lance a lance, a cena se repetiu inúmeras vezes, Júlio César, David Luiz ou Thiago Silva fazem um bom corte, dominam a bola e lançam para Neymar, Hulk ou Oscar. Invariavelmente este três – e o Fred – muito bem marcados pela zaga chilena. Ficou óbvio, evidente, ululante que não havia meio de campo – sim uma defesa reforçada com volantes recuando no contra-ataque, além de nosso ataque, à espera de um lance como quem espera iluminação divina. Todos esperando um lance impressionante, belo, maroto, à altura de um olé, um grito, um papitar de coração que faz a gente olhar pro vizinho com nada além de um palavrão de espanto na boca porque viu aquilo, provavelmente de autoria de Neymar, mas vai que aparece pelos pés de um outro (eu mesma, com essa escalação, teria enorme dificuldade de dizer quem).
Acontece que esse lance não veio. Não veio nenhum brilho em especial no jogo, além de Júlio César que calou muitas bocas (aqui me incluo) na prorrogação e nos pênaltis. Não veio entrosamento do time. Nosso capitão Thiago Silva, a quem considero um dos melhores zagueiros do mundo, se recusou a bater pênalti e se ajoelhou de fora do grupo. O time desentrosado, não parecia uma equipe. Veio um time sem meio de campo, sem brilho e sem união: até dois desses ainda dá pra driblar num jogo.
Na minha humilde opinião de comentarista amadora e virtual, tem tudo a ver com o estilo de técnico de Felipão: autoritário, de quem não admite ser questionado, e que mantém o time porque quer provar na marra que sua ideia é a melhor, mesmo ao custo de uma derrota (se não formal, definitivamente uma derrota moral, já que o silêncio profundo ao longo do jogo era prova inequívoca do sofrimento do torcedor brasileiro). É sintomático que não aposte no meio de campo – a falta de meio campo do Brasil reflete a falta de mediação do técnico. Bem diferente do time da Holanda, cuja preparação física e discussão coletiva da tática (são realizadas plenárias com toda a equipe para discuti-la), aliada ao sangue frio da experiência contra um México muito guerreiro munido de uma muralha de goleiro, conseguiram conquistar sua classificação.
Assitir um Brasil com toque de bola, trabalho coletivo em campo, explorar as melhores características individuais e coletivas da seleção seria algo bonito de ver. Poderia ser uma métafora para um Brasil que procura apostar no que tem de melhor: sua matéria humana. Esse sim seria um golaço.
| Assistindo jogo na Mangueira. Fonte: UOL |
terça-feira, 10 de junho de 2014
Por que tão pouco? Mulheres e negros(as) na Ciência
Recentemente um vídeo circulando na internet me chamou bastante atenção. Recebi de diversos cantos diferentes: algumas biólogas ou demais cientistas, outras feministas, um tanto de cada. O vídeo trata de uma pergunta aparentemente ingênua, cuja resposta presumida só contribui para reforçar estereótipos: Por que tão poucas mulheres na ciência?
Abrindo o vídeo, em que vale mais a pena a resposta vista do que descrita, me deparei com um rosto (e uma voz) bastante familiares. Fui tentando me lembrar de onde já havia visto e as lembranças começaram a me remeter a alguém familiar. É a voz das incríveis projeções do Planetário Hayden, que fica no American Museum of Natural History (aquele museu que sempre aparece no Scooby-Doo, em desenhos e demais filmes americanos que tem um esqueleto enorme de tiranossauro).
O dono da voz é Neil Degrasse Tyson, eminente cientista negro estadunidense, diretor do planetário e que dubla as sensacionais projeções do céu que assisti quando pude ir até lá. Depois que percebi já tê-lo visto em inúmeros programas de ciência, e até no Big Bang Theory:
Assistindo é que fui me dar conta de duas coisas divertidas. A primeira: ele é um dos responsáveis pela frustação de milhares de pessoas pelo mundo, principalmente de crianças (e eu acrescenteria as pessoas com signo de Escorpião) - o "rebaixamento" de plutão para "planeta-anão". E a segunda, mais engraçada ainda: ele é o "cara do ui". Se você não sabe o que é o cara do ui e quiser saber todo o contexto, veja esse vídeo em que o Neil DeGrasse Tyson diz porque acredita que Isaac Newton foi o maior físico de todos os tempos (vou ficar devendo a legenda) - se quiser ir direto à cena do ui, está entre o 1:32 e 1:36.
Sem dúvida, um cara pop, além de renomado na ciência. Entre outros feitos, Neil DeGrasse Tyson tem um nome de asteróide em sua homenagem (o 13123 Tyson), foi eleito por revistas distintas de o "astrofísico mais sexy do mundo" a "uma das 100 pessoas mais influentes", "um dos 50 afro-americanos mais importantes na pesquisa científica" e "um dos 100 alunos de Harvard mais influentes" (o que quer que isso queira dizer, sempre tenho minhas dúvidas).
Tyson remete às inúmeras dificuldades que teve sendo um garoto negro que queria ser um astrofísico. Tentando responder à questão que atribuía uma suposta inferioridade de mulheres à ciência, colocou um argumento que quase nunca aparece nos círculos acadêmicos, justamente porque é um espaço amplamente dominado por homens brancos. Quando olha para os lados e vê todos os outros como ele que ficaram para trás, porque, como ele, as professoras sugeriam que ao invés de estudar ciência fosse atleta, não pode ignorar as condições sociais em que isso se dá.
Ao pouco se falar da história das mulheres na ciência, com todo o reforço ao estereótipo de que "fazer conta é coisa de homem", e do ambiente por vezes violentamente misógino (simbólica ou fisicamente), atribuir as diferenças à genética é abrir mão de discutir privilégios sociais.
Tyson é homem, negro e estadunidense, com uma longa carreira na ciência, e é muito oportuno o ponto que coloca. Será que é preciso toda essa trajetória para ecoar a ideia de que essa diferença não é natural?
Em tempo: compartilho duas discussões interessantes em blogs sobre a misoginia de determinados espaços. Um deles da própria série Big Bang Theory (e a representação da mulher na ciência) e outro sobre mulheres e games. Não somos bibelôs: somos o que queremos ser, assim sendo cada vez mais.
Abrindo o vídeo, em que vale mais a pena a resposta vista do que descrita, me deparei com um rosto (e uma voz) bastante familiares. Fui tentando me lembrar de onde já havia visto e as lembranças começaram a me remeter a alguém familiar. É a voz das incríveis projeções do Planetário Hayden, que fica no American Museum of Natural History (aquele museu que sempre aparece no Scooby-Doo, em desenhos e demais filmes americanos que tem um esqueleto enorme de tiranossauro).
O dono da voz é Neil Degrasse Tyson, eminente cientista negro estadunidense, diretor do planetário e que dubla as sensacionais projeções do céu que assisti quando pude ir até lá. Depois que percebi já tê-lo visto em inúmeros programas de ciência, e até no Big Bang Theory:
Assistindo é que fui me dar conta de duas coisas divertidas. A primeira: ele é um dos responsáveis pela frustação de milhares de pessoas pelo mundo, principalmente de crianças (e eu acrescenteria as pessoas com signo de Escorpião) - o "rebaixamento" de plutão para "planeta-anão". E a segunda, mais engraçada ainda: ele é o "cara do ui". Se você não sabe o que é o cara do ui e quiser saber todo o contexto, veja esse vídeo em que o Neil DeGrasse Tyson diz porque acredita que Isaac Newton foi o maior físico de todos os tempos (vou ficar devendo a legenda) - se quiser ir direto à cena do ui, está entre o 1:32 e 1:36.
Sem dúvida, um cara pop, além de renomado na ciência. Entre outros feitos, Neil DeGrasse Tyson tem um nome de asteróide em sua homenagem (o 13123 Tyson), foi eleito por revistas distintas de o "astrofísico mais sexy do mundo" a "uma das 100 pessoas mais influentes", "um dos 50 afro-americanos mais importantes na pesquisa científica" e "um dos 100 alunos de Harvard mais influentes" (o que quer que isso queira dizer, sempre tenho minhas dúvidas).
Tyson remete às inúmeras dificuldades que teve sendo um garoto negro que queria ser um astrofísico. Tentando responder à questão que atribuía uma suposta inferioridade de mulheres à ciência, colocou um argumento que quase nunca aparece nos círculos acadêmicos, justamente porque é um espaço amplamente dominado por homens brancos. Quando olha para os lados e vê todos os outros como ele que ficaram para trás, porque, como ele, as professoras sugeriam que ao invés de estudar ciência fosse atleta, não pode ignorar as condições sociais em que isso se dá.
Ao pouco se falar da história das mulheres na ciência, com todo o reforço ao estereótipo de que "fazer conta é coisa de homem", e do ambiente por vezes violentamente misógino (simbólica ou fisicamente), atribuir as diferenças à genética é abrir mão de discutir privilégios sociais.
Tyson é homem, negro e estadunidense, com uma longa carreira na ciência, e é muito oportuno o ponto que coloca. Será que é preciso toda essa trajetória para ecoar a ideia de que essa diferença não é natural?
Em tempo: compartilho duas discussões interessantes em blogs sobre a misoginia de determinados espaços. Um deles da própria série Big Bang Theory (e a representação da mulher na ciência) e outro sobre mulheres e games. Não somos bibelôs: somos o que queremos ser, assim sendo cada vez mais.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Vamos usar a Copa para mudar o mundo? Só que não.
Lá vou eu para mais um
bate-volta Rio-São Paulo, coisa relâmpago bem à moda paulistana
(ou seria à moda carioca em São Paulo?). Numa destas, encontro com vários bons
amigos, naquele futebol-churrasco-cerveja, difícil dar errado.
Reunidos entre risadas, bolas-fora e goles, revejo um grupo de gente mais que boa, quase todos antigos moradores do CRUSP, trinta e poucos, negros, vários com seus filhos, tantos professores ou em alguma profissão relacionada à educação. Raras exceções, existe ali uma questão que é um tanto geracional: boa parte desses meus amigos vivem a memória de ser/estar próximo do PT da periferia de São Paulo dos anos 80. Viver essa memória de lutas e boas recordações, parece virar um salvo-conduto para esconder o amargo do real PT, Realpolitik, aquele da real cidade de São Paulo, sacudida nesta mesma semana pelas greves de motoristas e cobradores - taxada por Haddad de “ilegal” - e de professores - que juntaram mais de 15 mil na rua, um ano depois do descumprimento do acordo da greve de 2013.
Mesmo com essa divergência entre nós, a companhia sempre muito agradável faz com que a gente ria de nossas diferenças e siga convivendo naquela linha “daqui a um tempo vamos nos encontrar de novo, tomar mais cerveja e vamos continuar a nos provocar mutuamente”, uma versão bon vivant de "a história há de nos julgar". E numa dessas risadas aconteceu uma cena de alguns poucos minutos que definiu magistralmente o raciocínio deste partido que, 20 anos atrás, foi referência de esquerda no Brasil, e que enterra seu passado a cada dia.
Duas crianças de 30 anos brincando de bola, no frio, uma menina e um menino. Ela muito ligeira, mas em desvantagem de anos de construção de gênero, logo perde a bola para ele, que então alfineta perguntando se ela não vai roubar de volta. Ele rola a bola pra esquerda, para a direita, e ela tenta sem sucesso roubar na ponta do pé. Nada. Vira 180 graus, passa para cima, para baixo, com aquele barulhinho de sola de tênis travando no chão, ficam uns tantos minutos e nada dela conseguir. De repente ela para, bota as duas mãos na cintura, olha bem firme na cara dele, que segura um sorriso de sarcasmo na boca, e começa a sambar. Todos caem na gargalhada, ele, ela, as crianças de mais ou menos trinta anos, e claro que eu também. Ela, ainda embriagada das risadas, vira para ele e diz:
“A gente tinha era que gravar um comercial assim para a Copa!!!”
Eu, ainda rindo, pergunto se ela gravaria mesmo um comercial para o malfadado megaevento, pensando em todas as implicações e comprometimentos que isto traria. E ela, sem pestanejar:
“Mas é claro!!! Imagina só o quanto a gente não poderia mudar o mundo gravando um comercial para a Copa!!!”.
E eu, entendendo que não havia outra coisa a fazer, caí na gargalhada, assim como ela e os demais presentes. Esperta como era, completou com a cereja do bolo, na mais plena e mais sintética caracterização do PT:
“Ou então a gente podia abrir uma ONG!”.
Só rindo mesmo.
Reunidos entre risadas, bolas-fora e goles, revejo um grupo de gente mais que boa, quase todos antigos moradores do CRUSP, trinta e poucos, negros, vários com seus filhos, tantos professores ou em alguma profissão relacionada à educação. Raras exceções, existe ali uma questão que é um tanto geracional: boa parte desses meus amigos vivem a memória de ser/estar próximo do PT da periferia de São Paulo dos anos 80. Viver essa memória de lutas e boas recordações, parece virar um salvo-conduto para esconder o amargo do real PT, Realpolitik, aquele da real cidade de São Paulo, sacudida nesta mesma semana pelas greves de motoristas e cobradores - taxada por Haddad de “ilegal” - e de professores - que juntaram mais de 15 mil na rua, um ano depois do descumprimento do acordo da greve de 2013.
Mesmo com essa divergência entre nós, a companhia sempre muito agradável faz com que a gente ria de nossas diferenças e siga convivendo naquela linha “daqui a um tempo vamos nos encontrar de novo, tomar mais cerveja e vamos continuar a nos provocar mutuamente”, uma versão bon vivant de "a história há de nos julgar". E numa dessas risadas aconteceu uma cena de alguns poucos minutos que definiu magistralmente o raciocínio deste partido que, 20 anos atrás, foi referência de esquerda no Brasil, e que enterra seu passado a cada dia.
Duas crianças de 30 anos brincando de bola, no frio, uma menina e um menino. Ela muito ligeira, mas em desvantagem de anos de construção de gênero, logo perde a bola para ele, que então alfineta perguntando se ela não vai roubar de volta. Ele rola a bola pra esquerda, para a direita, e ela tenta sem sucesso roubar na ponta do pé. Nada. Vira 180 graus, passa para cima, para baixo, com aquele barulhinho de sola de tênis travando no chão, ficam uns tantos minutos e nada dela conseguir. De repente ela para, bota as duas mãos na cintura, olha bem firme na cara dele, que segura um sorriso de sarcasmo na boca, e começa a sambar. Todos caem na gargalhada, ele, ela, as crianças de mais ou menos trinta anos, e claro que eu também. Ela, ainda embriagada das risadas, vira para ele e diz:
“A gente tinha era que gravar um comercial assim para a Copa!!!”
Eu, ainda rindo, pergunto se ela gravaria mesmo um comercial para o malfadado megaevento, pensando em todas as implicações e comprometimentos que isto traria. E ela, sem pestanejar:
“Mas é claro!!! Imagina só o quanto a gente não poderia mudar o mundo gravando um comercial para a Copa!!!”.
E eu, entendendo que não havia outra coisa a fazer, caí na gargalhada, assim como ela e os demais presentes. Esperta como era, completou com a cereja do bolo, na mais plena e mais sintética caracterização do PT:
“Ou então a gente podia abrir uma ONG!”.
Só rindo mesmo.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Corrida maluca pela isenção do vestibular: a quem interessa?
Fiquei na dúvida se postava sobre essa história aqui no blog, afinal de contas é uma história sobre o Rio, onde eu moro. Mas dado que o blog é de viagens, e creio que o surrealismo da situação me permite a classificação, tá valendo.
É nosso primeiro ano da Rede Emancipa de Cursinhos Populares aqui no Rio de Janeiro, e, como de praxe, temos uma grande preocupação: que os alunos não deixem de se inscrever nas provas da universidade pública por conta das altas taxas cobradas. No caso da UERJ, por serem na prática 3 etapas (2 exames de qualificação e um exame discursivo), e cada um ter sua taxa, é possível chegar a desembolsar a bagatela de R$ 187. Por isso a importância da isenção da taxa de inscrição.
Vale lembrar que a isenção de taxas é condição mínima para garantir que o estudante pobre ao menos cogite se inscrever no processo seletivo, o que é por si só um passo importante, já que inúmeros fatores são desencorajantes: a alta concorrência, a facilidade de cursar faculdades privadas, a maratona de provas. Supondo que, apesar de tudo isso, o estudante fique sabendo que há a possibilidade de isenção (pouco divulgada!) e se disponha a tentar consegui-la, ele precisa enfrentar um enorme empecilho: uma burocracia de fazer inveja a Kafka.
É compreensível a preocupação com a coisa pública, a importância de haver meios para evitar ao máximo possíveis fraudes. Mas muito me estranha que para uma quantidade tão absurda de documentos não haja um prazo minimamente razoável. A solicitação de isenção foi aberta no dia 21/05 e encerra em 23/05!
A UERJ é uma universidade muito importante: além de ser bastante reconhecida em diversas áreas, há mais de 10 anos possui a importante conquista da reserva de vagas para negros e para a escola pública. Isso faz com que seja nítida a composição racial, em que, diferente de muitas universidades no país, estudantes negros são boa parte dos estudantes nos corredores e rampas.
É tão evidente ver um contraste menor entre quem anda nas ruas, nos ônibus e quem senta nos bancos da universidade ou transita pelos seus elevadores, que estudantes de Engenharia de outras universidades apelidaram, pensaram eles pejorativamente, a instituição de "Congo". O tiro saiu pela culatra: "o Congo" é título carregado com muito orgulho pelos seus estudantes (ou pelo menos pela parcela mais saudável deles). Mas até chegar no "Congo", há muita estrada a percorrer pelo estudante do ensino médio...
Imaginando que fosse diminuir a burocracia e facilitar a possibilidade de mais alunos tentarem a UERJ, cadastramos a Rede Emancipa como cursinho comunitário que pode pleitear isenção. Ledo engano. É apenas um código a mais a ser preenchido, mas pelo menos ganhamos um dia a mais para a entrega dos documentos. Os alunos ainda precisam entrar no sistema necessariamente entre 21 e 23/05, precisam preencher vários campos, e aí começa a farra das declarações.
Primeiro que estamos vivendo, por diversas razões, um verdadeira onda de (justas) greves na educação - algo que já compromete um dos principais documentos: comprovante de escolaridade emitido pela escola. Suponho que o estudante ou deve esperar que alguém fure greve para obter o documento, ou arrumar "o que der" para comprovar.
Depois as comprovações de renda, a começar pelo estudante: trabalha? quantas fontes de renda? comprovante de todas elas. Não trabalha? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.
Mora com quantas pessoas? Anexar documento de todas elas. Não trabalham? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.
Trabalha e é funcionário público? Contracheque. Trabalha e é aposentado/pensionista? Contracheque. Até aí tudo bem. Começa a complicar com o celetista: cópia do contraceque mais a folha de identificação da carteira de trabalho, mais a folha do contrato, mas todas as folhas de atualização deste contrato.
Além do mais, imagino que não apenas eu tive dificuldade de entender a diferença entre o trabalhador autônomo e o trabalhador do mercado informal. Para ambos os casos, a pessoa deve trazer uma cópia de comprovante de renda (que em se tratando de autônomo me parece meio complicado, que dirá no caso do "trabalhador do mercado informal"). Não esquecer a famigerada declaração de próprio punho indicando o que faz, quanto ganha por mês, datada e assinada pelo familiar, pelo solicitante, por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF. Ah, e não deixe de declarar programas sociais: Bolsa-família incluso (não seria suficiente presumir que o recebimento de Bolsa-família já justificaria a isenção???).
Detalhe básico: estas informações não constam do edital de isenção. A minúcia dos documentos só é descoberta depois de se acessar o sistema (ah, sempre o sistema...), aquele que só abre pelo período de 72 horas. E de que adianta um moderno sistema, se é preciso pegar uma fila na entrega dos documentos, que serão conferidos manualmente? Mistério.
Não basta ser pobre: tem que ralar pra provar. Ou fazer o que se espera dadas as bizarras condições desta foma de pedir isenção: desistir.
Ainda bem que aprendemos a ser teimosos: de tanta teima, a isenção de taxas de vestibular enfim passou a existir lá nos anos 1990. Teimaremos até que ela seja pensada para seres humanos, não para alienígenas que achem normal o mundo dos carimbadores malucos.
Pra encerrar, toca Raul.
É nosso primeiro ano da Rede Emancipa de Cursinhos Populares aqui no Rio de Janeiro, e, como de praxe, temos uma grande preocupação: que os alunos não deixem de se inscrever nas provas da universidade pública por conta das altas taxas cobradas. No caso da UERJ, por serem na prática 3 etapas (2 exames de qualificação e um exame discursivo), e cada um ter sua taxa, é possível chegar a desembolsar a bagatela de R$ 187. Por isso a importância da isenção da taxa de inscrição.
Vale lembrar que a isenção de taxas é condição mínima para garantir que o estudante pobre ao menos cogite se inscrever no processo seletivo, o que é por si só um passo importante, já que inúmeros fatores são desencorajantes: a alta concorrência, a facilidade de cursar faculdades privadas, a maratona de provas. Supondo que, apesar de tudo isso, o estudante fique sabendo que há a possibilidade de isenção (pouco divulgada!) e se disponha a tentar consegui-la, ele precisa enfrentar um enorme empecilho: uma burocracia de fazer inveja a Kafka.
É compreensível a preocupação com a coisa pública, a importância de haver meios para evitar ao máximo possíveis fraudes. Mas muito me estranha que para uma quantidade tão absurda de documentos não haja um prazo minimamente razoável. A solicitação de isenção foi aberta no dia 21/05 e encerra em 23/05!
A UERJ é uma universidade muito importante: além de ser bastante reconhecida em diversas áreas, há mais de 10 anos possui a importante conquista da reserva de vagas para negros e para a escola pública. Isso faz com que seja nítida a composição racial, em que, diferente de muitas universidades no país, estudantes negros são boa parte dos estudantes nos corredores e rampas.
É tão evidente ver um contraste menor entre quem anda nas ruas, nos ônibus e quem senta nos bancos da universidade ou transita pelos seus elevadores, que estudantes de Engenharia de outras universidades apelidaram, pensaram eles pejorativamente, a instituição de "Congo". O tiro saiu pela culatra: "o Congo" é título carregado com muito orgulho pelos seus estudantes (ou pelo menos pela parcela mais saudável deles). Mas até chegar no "Congo", há muita estrada a percorrer pelo estudante do ensino médio...
Imaginando que fosse diminuir a burocracia e facilitar a possibilidade de mais alunos tentarem a UERJ, cadastramos a Rede Emancipa como cursinho comunitário que pode pleitear isenção. Ledo engano. É apenas um código a mais a ser preenchido, mas pelo menos ganhamos um dia a mais para a entrega dos documentos. Os alunos ainda precisam entrar no sistema necessariamente entre 21 e 23/05, precisam preencher vários campos, e aí começa a farra das declarações.
Primeiro que estamos vivendo, por diversas razões, um verdadeira onda de (justas) greves na educação - algo que já compromete um dos principais documentos: comprovante de escolaridade emitido pela escola. Suponho que o estudante ou deve esperar que alguém fure greve para obter o documento, ou arrumar "o que der" para comprovar.
Depois as comprovações de renda, a começar pelo estudante: trabalha? quantas fontes de renda? comprovante de todas elas. Não trabalha? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.
Mora com quantas pessoas? Anexar documento de todas elas. Não trabalham? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.
Trabalha e é funcionário público? Contracheque. Trabalha e é aposentado/pensionista? Contracheque. Até aí tudo bem. Começa a complicar com o celetista: cópia do contraceque mais a folha de identificação da carteira de trabalho, mais a folha do contrato, mas todas as folhas de atualização deste contrato.
Além do mais, imagino que não apenas eu tive dificuldade de entender a diferença entre o trabalhador autônomo e o trabalhador do mercado informal. Para ambos os casos, a pessoa deve trazer uma cópia de comprovante de renda (que em se tratando de autônomo me parece meio complicado, que dirá no caso do "trabalhador do mercado informal"). Não esquecer a famigerada declaração de próprio punho indicando o que faz, quanto ganha por mês, datada e assinada pelo familiar, pelo solicitante, por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF. Ah, e não deixe de declarar programas sociais: Bolsa-família incluso (não seria suficiente presumir que o recebimento de Bolsa-família já justificaria a isenção???).
Detalhe básico: estas informações não constam do edital de isenção. A minúcia dos documentos só é descoberta depois de se acessar o sistema (ah, sempre o sistema...), aquele que só abre pelo período de 72 horas. E de que adianta um moderno sistema, se é preciso pegar uma fila na entrega dos documentos, que serão conferidos manualmente? Mistério.
Não basta ser pobre: tem que ralar pra provar. Ou fazer o que se espera dadas as bizarras condições desta foma de pedir isenção: desistir.
Ainda bem que aprendemos a ser teimosos: de tanta teima, a isenção de taxas de vestibular enfim passou a existir lá nos anos 1990. Teimaremos até que ela seja pensada para seres humanos, não para alienígenas que achem normal o mundo dos carimbadores malucos.
Pra encerrar, toca Raul.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Outra mulher silenciada: Nahui Olin, uma mexicana de vanguarda
Minha paixão pelo México começou com Frida Kahlo, mas em breve foi se estendendo aos mais múltiplos aspectos do país, tendo a arte e a revolução sempre um peso maior. Além de Frida, uma outra mulher revolucionária ligada à história mexicana foi Tina Modotti, que conheci pelo presente mais do que querido de um amigo: ele me deu a biografia Modotti em quadrinhos. E agora, depois de voltar do país que muito me encanta, mais uma mulher forte adicionada às paixões mexicanas: Nahui Olin.
| Quadro de Dr Atl retratando a artista Nahui Olin |
Seu nome ficou me martelando a memória. Um nome distinto, dono de uns olhos muito grandes em um mural de Rivera na Secretaría de la Educación Pública. Na verdade, foi um nome adotado, proposto por seu companheiro Dr Atl, e que significa em nahuatl (língua asteca) "perpétuo movimento" (como não amar?).
Quando cheguei de viagem tratei de procurar sobre essa mulher, que pelo que me contaram por lá, era considerada uma das mais lindas e ousadas de seu tempo, livre, artista de vanguarda, poeta e pintora: uma feminista. Nas buscas em português, não consegui encontrar quase nada sobre ela. E aí me deu aquela inquietude, angustiada com o silêncio sistemático às mulheres que ousaram fazer história.
| Nahui Olin fotografada por Edward Weston |
Nascida Carmén Mondragón numa família rica no México, bem cedo foi estudar na França. Já com dez anos tinha escritos muito lúcidos, retratando a angústia da submissão. É o caso do trecho, originalmente em francês:
"Não sou feliz porque a vida não tem sido feita para mim, porque sou uma chama devorada por si mesma e que não se pode apagar; porque não tenho vencido com liberdade a vida tendo o direito de gostar de prazeres, estando destinada a ser vendida como antigamente os escravos, a um marido..."
![]() |
| Fotografada por Antonio Garduño |
O erotismo é marca forte em sua estética. É o caso do poema "Em minhas meias":
Em minhas meias
há
uma coisa
que é minha carne
que se mira
sentindo
prazer
e são
meias
de seda
de cor
negra
que têm
uma coisa
dentro
que se
mira
de longe
de perto
com prazer
lá
—cá—
há
nas minhas
meias
uma coisa
que se mira
com gula
e
por mais que se diga
é minha carne
a que se vê
A TRAVÉS DA
seda
das minhas meias
CÁ
LÁ
Como muitas das mulheres fortes, se tornou um pouco mito, ao mesmo tempo que um tanto incômoda. É curioso como em alguns dos sites que tratam de seu trabalho, retratem traços de seus quadros como "infantis". Ou de tratarem da "louca" que teria se tornado no fim da vida, por perambular pelas ruas falando sozinha. Por outro lado, é bem difícil encontrar escritos seus, já em espanhol ou francês, que dirá em português. Nahuí Olin parece estar sendo mais falada pelo olhar da sociedade de sua época (revivido pelo conservadorismo contemporâneo) do que por sua própria expressão. Não seria a primeira mulher a ser silenciada por conta de uma estética e uma política de vanguarda.
| Quadros pintados por Nahui Olin, em que retrata o próprio corpo |
No México parece haver atualmente um novo interesse sobre sua vida e obra. Que saibamos mais sobre ela sobre novas óticas, para evitar o simplismo dos rótulos, e para compreender melhor as mulheres de hoje ao olhar para as de ontem. A liberdade ainda parece machucar aqueles acostumados a submeter.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
A história do contador de histórias
Todo Carnaval tem seu fim, ainda que levemos conosco a memória da festa. Com a boca mordiscada de pimenta e o peito cheio de saudade, ontem me despedi do México, como bem disse John Reed, rebelde. Queria contar tantas coisas, mas por incapacidade/impossibilidade e para poupar a paciência de quem lê, a despedida vai ser relatando um personagem conhecido no centro histórico da Cidade do México.
Uma amiga me contou que havia lindíssimos murais do Rivera na Secretaria de Educación Pública (SEP), e lá fui eu conhecê-los. O lugar estava bastante vazio, só eu, uma meia dúzia de funcionários circulantes, até a hora que chegou um grupo de três argentinos com cara de turista e um senhor baixinho, menor que eu, cabelos brancos, rosto queimado de sol, por volta de uns 60 anos, com uns 3 ou 4 dentes na boca, e postura napoleônica. Narrava apaixonado a história épica de um Rivera comunista e provocador. Como não sabia lá a recepção que teria se chegasse ao lado do grupo, fui passo a passo me aproximando para tentar "pescar" a explicação. Até que fui notada rapidamente e convidada a ouvir a história.
Contava que Diego Rivera havia sido convidado para pintar os murais da SEP no México pós-revolução, e descrevia com uma riqueza de detalhes cada um dos murais. Contou de quando o ministro lhe censurou o poema que falava em transformar moedas em punhais para o povo; de quando entrou em disputas com o crítico de arte Salvador Novo; dos inúmeros casos de Rivera com mulheres; da assinatura de foice e martelo, comunista convicto que era; da representação de elementos tradicionais da cultura mexicana, como os povos pré-hispânicos, o dia dos mortos; de como os elementos industriais representavam a fundição de uma nação e de um povo; do desprezo profundo de Rivera pelo soldado, pelo padre e pelo capitalista.
Em dado momento lhe fotografei, e risonho, disse que por favor contactasse seu advogado, pois ele, Señor Arturo Aguilar González, tinha um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, e que caso fosse publicada, eu terei que lhe indenizar pesadamente. Disse que não mais trabalhava, porque já fez muito isso. Contava de seus amigos alemães, ou das italianas que vieram conhecer Rivera com ele. Dava detalhes sobre a vida de Tina Modotti, de Nahui Olli, Siqueiros, Zapata e tantos outros personagens de seu país. Dizia que o povo mexicano é muito briguento, e que não aceita assim qualquer coisa que lhes impunha. Contava com desprezo das mulheres que tingem cabelos para esconder sua origem indígena e dos turistas que vem ao México para conhecer Acapulco sem mergulhar no vasto mar cultural de muitas civilizações desse país encantador.
Enquanto contava suas histórias em frente a cada mural tirei muitas fotos tentando registrar um pouco da história que nos foi contada. A arte muralista é tão rica de detalhes, monumental e imponente, que uma fotografia lhe empobrece e impede a contemplação que lhe é intrínseca. Como coisa de bruxo, nem o Señor Arturo e nenhum mural que fotografei na SEP foi registrada na minha câmera. De contador de história a personagem, o senhor Arturo fica na minha memória como síntese desse México, rebelde, indignado, colorido, alegre e orgulhoso. Hasta luego!
Uma amiga me contou que havia lindíssimos murais do Rivera na Secretaria de Educación Pública (SEP), e lá fui eu conhecê-los. O lugar estava bastante vazio, só eu, uma meia dúzia de funcionários circulantes, até a hora que chegou um grupo de três argentinos com cara de turista e um senhor baixinho, menor que eu, cabelos brancos, rosto queimado de sol, por volta de uns 60 anos, com uns 3 ou 4 dentes na boca, e postura napoleônica. Narrava apaixonado a história épica de um Rivera comunista e provocador. Como não sabia lá a recepção que teria se chegasse ao lado do grupo, fui passo a passo me aproximando para tentar "pescar" a explicação. Até que fui notada rapidamente e convidada a ouvir a história.
Contava que Diego Rivera havia sido convidado para pintar os murais da SEP no México pós-revolução, e descrevia com uma riqueza de detalhes cada um dos murais. Contou de quando o ministro lhe censurou o poema que falava em transformar moedas em punhais para o povo; de quando entrou em disputas com o crítico de arte Salvador Novo; dos inúmeros casos de Rivera com mulheres; da assinatura de foice e martelo, comunista convicto que era; da representação de elementos tradicionais da cultura mexicana, como os povos pré-hispânicos, o dia dos mortos; de como os elementos industriais representavam a fundição de uma nação e de um povo; do desprezo profundo de Rivera pelo soldado, pelo padre e pelo capitalista.
Em dado momento lhe fotografei, e risonho, disse que por favor contactasse seu advogado, pois ele, Señor Arturo Aguilar González, tinha um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, e que caso fosse publicada, eu terei que lhe indenizar pesadamente. Disse que não mais trabalhava, porque já fez muito isso. Contava de seus amigos alemães, ou das italianas que vieram conhecer Rivera com ele. Dava detalhes sobre a vida de Tina Modotti, de Nahui Olli, Siqueiros, Zapata e tantos outros personagens de seu país. Dizia que o povo mexicano é muito briguento, e que não aceita assim qualquer coisa que lhes impunha. Contava com desprezo das mulheres que tingem cabelos para esconder sua origem indígena e dos turistas que vem ao México para conhecer Acapulco sem mergulhar no vasto mar cultural de muitas civilizações desse país encantador.
Enquanto contava suas histórias em frente a cada mural tirei muitas fotos tentando registrar um pouco da história que nos foi contada. A arte muralista é tão rica de detalhes, monumental e imponente, que uma fotografia lhe empobrece e impede a contemplação que lhe é intrínseca. Como coisa de bruxo, nem o Señor Arturo e nenhum mural que fotografei na SEP foi registrada na minha câmera. De contador de história a personagem, o senhor Arturo fica na minha memória como síntese desse México, rebelde, indignado, colorido, alegre e orgulhoso. Hasta luego!
sexta-feira, 9 de maio de 2014
As greves são o terremoto do Brasil
Desde que cheguei aqui no México senti de cara a mudança do clima. A sensação que tinha era do inverno paulistano, tudo muito seco, a ponto de sangrar o nariz e rachar os lábios. No DF parece que tem a hora da chuva: faz calor durante o dia e água no fim da tarde. Como não amenizava a secura, presumi que era a poluição.
Aí cheguei em Toluca e veio o frio de verdade, 5 graus. E mais seco ainda! Foi quando descobri que estava a 2600 metros de altitude. Nunca fui tão alto, pelo menos não fisicamente... Chega a fazer negativo no inverno, e a neve que cai dá nome ao vulcão daqui: Nevado.
Não foi essa a maior surpresa: estava sentadinha quando de repente me deu uma tontura. Pensei que era pressão baixa (vai que era efeito retardado do mezcal de ontem?), mas tudo continuou a mexer. Quando olhei para os lados e vi gente correndo e indo pra fora do prédio, é que entendi que estava presenciando meu primeiro terremoto...
Passado o choque inicial, conversei com meninas do DF, que se assustaram com meu espanto. Lembraram do terremoto grande ocorrido nos anos 1980, e também contaram que lá na Cidade do México é um pouco pior. A cidade dos astecas era toda banhada por uma lagoa que foi aterrada, para a construção dos vários monumentos. Resultado: vários prédios caindo para o lado, inclusive a Catedral que fica no Centro Histórico. Quem mandou mexer com os astecas?
Curioso é um terremoto justo no dia em que chegam notícias do Rio que dão conta de uma forte greve de professores do estado e do município, além da greve dos rodoviários. Isso para não falar da greve dos garis de BH, das ocupações em Porto Alegre e Natal, ato em São Paulo... A terra tremeu até aqui...
Aí cheguei em Toluca e veio o frio de verdade, 5 graus. E mais seco ainda! Foi quando descobri que estava a 2600 metros de altitude. Nunca fui tão alto, pelo menos não fisicamente... Chega a fazer negativo no inverno, e a neve que cai dá nome ao vulcão daqui: Nevado.
Não foi essa a maior surpresa: estava sentadinha quando de repente me deu uma tontura. Pensei que era pressão baixa (vai que era efeito retardado do mezcal de ontem?), mas tudo continuou a mexer. Quando olhei para os lados e vi gente correndo e indo pra fora do prédio, é que entendi que estava presenciando meu primeiro terremoto...
Passado o choque inicial, conversei com meninas do DF, que se assustaram com meu espanto. Lembraram do terremoto grande ocorrido nos anos 1980, e também contaram que lá na Cidade do México é um pouco pior. A cidade dos astecas era toda banhada por uma lagoa que foi aterrada, para a construção dos vários monumentos. Resultado: vários prédios caindo para o lado, inclusive a Catedral que fica no Centro Histórico. Quem mandou mexer com os astecas?
| Catedral Metropolitana, já meio tortinha, dá pra perceber? |
Curioso é um terremoto justo no dia em que chegam notícias do Rio que dão conta de uma forte greve de professores do estado e do município, além da greve dos rodoviários. Isso para não falar da greve dos garis de BH, das ocupações em Porto Alegre e Natal, ato em São Paulo... A terra tremeu até aqui...
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Em busca do horizonte perdido
Não nasci pros ambientes fechados. Quando o infinito do horizonte (o encontro do céu e do mar) é seu ponto de partida, não ver a luz do sol e o passar do tempo é castigo. É o caso de
ficar o dia todo num hotel que se pretende imperial, ar condicionado, trabalhadores engravatados prontos para servir especialmente àqueles que só conhecem os lugares quando vão de táxi.
Muito diferente dos dias intensos no DF, com suas inúmeras praças arborizadas, prédio oitocentistas, cores vivas. No caminho pro hotel onde foi a sede do Congresso, viadutos e vias expressas cinzentas. Nada parecido com o louco vaivém das centenas de pessoas pelo centro em cada cruzamento que vi na Cidade do México. Não vi por aqui crianças sorridentes e bochechudas brincando, nem camelôs cantando suas mercadorias nos transportes.
Mas sim conversei bastante por aqui. Me interessou especialmente o movimento Yo Soy 132. Foi um marco de mobilização como não se viu desde 1968, protagonizado por estudantes de uma universidade particular, a Universidade Iberoamericana da Cidade do México. Durante a campanha presidência, Peña Nieto foi a esta universidade e foi recebido com um escracho tão potente que se escondeu no banheiro. O escracho, organizado por 131 estudantes, colocou em xeque um massacre ocorrido meses antes, e para variar escondido pela mídia. O nome Yo Soy 132 se refere a “ser mais um“ (algo que me remete à ideia de “camisa 12“), pois muitos passaram a ser perseguidos, e o que defendiam foi amplamente apoiado por vários setores, inclusive internacionalmente.
Mas como sempre se colocam os desafios ao movimento: ao mesmo tempo que é preciso evitar os personalismos, também é preciso ter um mínimo de unidade de ação. Ser contra Peña Nieto unificou milhares de estudantes, mas e depois? Até onde se vai a unidade? Até onde se decide coletivamente mantendo a unidade na diversidade?
Fico muito feliz de saber que estou na construção de duas experiências que apresentam algumas possibilidades para estas questões. Uma é a Rede Emancipa de cursinhos populares, e a outra é o Juntos. Colocando novas questões e fazendo experiências, vamos avançando. Melhor do que colocar questões pelo simples prazer da abstração, tão ao gosto da academia sem compromisso com transformar o mundo.
Muito diferente dos dias intensos no DF, com suas inúmeras praças arborizadas, prédio oitocentistas, cores vivas. No caminho pro hotel onde foi a sede do Congresso, viadutos e vias expressas cinzentas. Nada parecido com o louco vaivém das centenas de pessoas pelo centro em cada cruzamento que vi na Cidade do México. Não vi por aqui crianças sorridentes e bochechudas brincando, nem camelôs cantando suas mercadorias nos transportes.
Mas sim conversei bastante por aqui. Me interessou especialmente o movimento Yo Soy 132. Foi um marco de mobilização como não se viu desde 1968, protagonizado por estudantes de uma universidade particular, a Universidade Iberoamericana da Cidade do México. Durante a campanha presidência, Peña Nieto foi a esta universidade e foi recebido com um escracho tão potente que se escondeu no banheiro. O escracho, organizado por 131 estudantes, colocou em xeque um massacre ocorrido meses antes, e para variar escondido pela mídia. O nome Yo Soy 132 se refere a “ser mais um“ (algo que me remete à ideia de “camisa 12“), pois muitos passaram a ser perseguidos, e o que defendiam foi amplamente apoiado por vários setores, inclusive internacionalmente.
Mas como sempre se colocam os desafios ao movimento: ao mesmo tempo que é preciso evitar os personalismos, também é preciso ter um mínimo de unidade de ação. Ser contra Peña Nieto unificou milhares de estudantes, mas e depois? Até onde se vai a unidade? Até onde se decide coletivamente mantendo a unidade na diversidade?
Fico muito feliz de saber que estou na construção de duas experiências que apresentam algumas possibilidades para estas questões. Uma é a Rede Emancipa de cursinhos populares, e a outra é o Juntos. Colocando novas questões e fazendo experiências, vamos avançando. Melhor do que colocar questões pelo simples prazer da abstração, tão ao gosto da academia sem compromisso com transformar o mundo.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Cores, sabores e fogueira de vaidades
Se antes já me parecia, agora se confirma a ideia que tinha do México como um lugar colorido: não só as roupas, mas as casas, a comida, as luzes da cidade do México nos monumentos (dignos do nome). Estou completamente encantada com o DF (como chamam a capital que se conurba com outras várias cidades da zona metropolitana).
![]() |
| Monumento à Revolução (com as amigas do DF) |
| Zócalo, o principal ponto do centro histórico |
| Quesadillas "grasentas" (fritas como pastel) |
| O novo e o velho estão sempre convivendo |
| Close up nas quesadillas à prova de gente fresca |
| A Lupita (Virgem de Guadalupe) está em todos os lugares |
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Frida, Rivera e os povos originários
Intenso. O dia e o México bem definidos em uma palavra. Poderia ficar muitas horas descrevendo cada passo do longo dia, mas acho que dentre as múltiplas cores, palavras que ainda dançam na boca procurando os fonemas que me faltam, pedacinhos da linda Coyocán, sabores que queimam a boca, simpatia de cada um que conheci, a breve experiência que passei aqui (como tudo na vida) é inesgotável na recriação pelas palavras.
| Uma das esquinas de Coyocán, senhora vendendo adelas, bonecas que representam as revolucionárias mexicanas. |
Conheci algumas meninas muito legais que se dispuseram a mostrar um pouco da cidade e outra que me recebeu na casa de sua mãe em Coyocán. Coyocán é um bairro muito peculiar: ainda que muito turístico, ainda tem cara de uma cidade do interior, e era de fato um pueblo antes de ser incorporado ao Distrito Federal. Um bairro com casas muito típicas, reduto da boemia, dos artistas, em especial da que mais me encanta: Frida Kahlo.
Minha prioridade desde o momento em que sonhava em vir até o México foi visitar a Casa Azul, onde morou Frida quando pequena, e mais tarde com Diego Rivera. Chegamos antes de abrir e já tinha fila – aí começa a parte de incômodo, porque quando a expectativa é alta, no nível do sonho, não precisa muito para falta correspondência. Mas apesar da fila, da cara de coisa para turista ver, do ingresso caro (100 pesos, algo como 17 reais), de cobrarem taxa para tirar foto (me pergunto se agradaria os donos da casa...), apesar de tudo isso, o lugar é incrível.
Dá para entender um pouco mais da arte de Frida depois de ver como organizou o espaço ao seu redor, tudo parecia milimetricamente pensado na imensa casa colorida. O acervo de quadros não é tão grande (devem estar por aí passeando os museus do mundo) mas muitos esboços bastante significativos e fotografias raras estavam na exposição. A cama com espelho a paleta de tintas com trechos do diário, a cozinha organizada à moda tradicional, muitas e muitas e muitas referências às culturas pré-hispânicas, de peças arqueológicas, máscaras, às conhecidas peças de roupa que Frida sempre fez questão de usar.
Também me interessou muito os documentos, fotos e vídeos de Frida e Diego com Trotsky e Natália, que foram acolhidos por eles na sua chegada ao México antes do lamentável assassinato na esteira dos expurgos stalinistas. Muitos elementos da obra de Frida e Diego referem-se explicitamente ao marxismo – algo claramente incomôdo para muitos abstratos críticos de arte.
Depois fomos à casa (casa é pouco: era um sítio de 4 hectares com um verdadeiro palácio monumental) construído por Rivera, com mais de 2 mil peças arqueológicas (ele chegou a ter quase 60 mil peças arqueológicas, o que nos deixou um pouco entalado na garganta – afinal é um acervo particular, não é de todos os mexicanos e muito menos dos povos de onde as peças foram retiradas). Mas o lugar é incrível, havia alguns esboços como o do mural projetado para o Rockefeller Center que foi destruido porque tinha um operário com o rosto de Lenin. Inúmeras referências aos povos indígenas daqui, desde as referências arquitetônicas (as meninas falaram que era como um pequeno resumo do que eu veria nas pirâmides, que não vai dar pra ver dessa vez), pinturas no teto, as próprias peças digamos que... “tomadas emprestadas” para não dizer outra coisa..., e mesmo a forma como se integra a construção com a vegetação local.
De repente me tomou uma tristeza, quando pensei o quanto sou ignorante de minha própria história, o quanto não sei sobre os povos indígenas, o quanto nos sonegam de nós mesmos. O movimento negro conseguiu conquistas importantes quanto ao ensino da história da África e dos africanos no Brasil, ainda que se necessite avançar e muito. Mas a história indígena é tão marginalizada, que só conhecemos uma ou outra história contada do ponto de vista do pitoresco, do bizarro, quase uma alegoria. Não conhecemos as resistências, as lutas, o que passou aqui a não ser pelo ponto de vista europeu. O indígena é até hoje visto como alguém que falta algo, não pleno. Algumas vezes me disseram que parte dos povos originários do Brasil era bastante dócil, não muito afeita a guerras. Mas isso não me convence muito. Acho que essa sonegação é parte do processo de negar aquilo que nos é fundante, e que pode estar aflorando naquilo que às vezes sequer percebemos, porque estamos imersos demais, contaminados demais pelo olhar colonizado.
sábado, 3 de maio de 2014
Primeiros passos: de aeroportos e colonizações
O dia começou cedo, pegando o vôo de madrugada. Vi pela primeira vez a Cordilheira dos Andes lá do alto, que coisa mais linda! Depois de uma breve escala em Lima, eu e o Alexandre Vannuchi Leme (estampado na minha camiseta comemorativa de 30 anos do DCE Livre da USP) pegamos o vôo rumo à Cidade do México.
Nenhuma novidade no ambiente insuportavelmente asséptico de aeroporto: a sensação de que, à exceção do idioma, poderia ser qualquer outro aeroporto do planeta. Essa regularidade aos olhos e ao corpo (entrega papel, mostra documento, passa a mala no bloqueio, pega a fila, entra no avião, senta na poltrona, escuta procedimentos de segurança, serve a comida de bordo, fila de novo, mostra papel e etc etc etc) me deixa um tanto entediada. Ainda mais quando não tem companhia. Nesse vôo ainda tinha um grupo de senhoras gaúchas extremamente emperuadas que contribuiram para a minha impaciência. Mas nada que sonecas não resolvam.
Aí o piloto avisa que falta pouco pra chegar. E eu nas nuvens, literalmente, daquelas brancas tipo barba de Deus de história em quadrinho, fui olhando pela janelinha do avião a terra ficar mais perto: e de repente começa a escorrer água pela janela. A emoção escorreu por fora de mim, deixando meu rosto seco. A cidade me pareceu bastante plana, até o ponto lá ao longe onde dava para ver umas montanhas que me pareceram enormes. E a mancha urbana era de perder de vista. Foi a primeira coisa que me deu a sensação de semelhança com São Paulo.
Quando eu saí do aeroporto, essa sensação foi aumentando cada vez mais: o metrô lembra os trens da CPTM, um pouco mais acabadinhos (ou seja, um pouco melhor do que os trens da Supervia), mas com uma malha enorme, muitas estações e linhas. E a cada estação, a cada passagem, a cena familiar dos marreteiros vendendo bala, doce, gilete, fone de ouvido, brinquedo de criança, meia calça, creme para varizes, CDs, geladinho (sacolé/chup-chup), roupa, tudo isso em cada esquina. Mas aqui no México eles não são negros ou nordestinos como em São Paulo ou no Rio: a cara dos explorados aqui é a cara da América, dos povos que por anos foram subjugados pelos europeus e aqui principalmente pelo Tio Sam, vizinho rico do norte.
E assim, geração a geração, fomos aprendendo mais ou menos explicitamente, que a nossa cara não é bonita porque não é a cara do colonizador, fomos aprendendo a tentar deixar de ser nós mesmos para ser o que nunca seremos.
Nenhuma novidade no ambiente insuportavelmente asséptico de aeroporto: a sensação de que, à exceção do idioma, poderia ser qualquer outro aeroporto do planeta. Essa regularidade aos olhos e ao corpo (entrega papel, mostra documento, passa a mala no bloqueio, pega a fila, entra no avião, senta na poltrona, escuta procedimentos de segurança, serve a comida de bordo, fila de novo, mostra papel e etc etc etc) me deixa um tanto entediada. Ainda mais quando não tem companhia. Nesse vôo ainda tinha um grupo de senhoras gaúchas extremamente emperuadas que contribuiram para a minha impaciência. Mas nada que sonecas não resolvam.
Aí o piloto avisa que falta pouco pra chegar. E eu nas nuvens, literalmente, daquelas brancas tipo barba de Deus de história em quadrinho, fui olhando pela janelinha do avião a terra ficar mais perto: e de repente começa a escorrer água pela janela. A emoção escorreu por fora de mim, deixando meu rosto seco. A cidade me pareceu bastante plana, até o ponto lá ao longe onde dava para ver umas montanhas que me pareceram enormes. E a mancha urbana era de perder de vista. Foi a primeira coisa que me deu a sensação de semelhança com São Paulo.
Quando eu saí do aeroporto, essa sensação foi aumentando cada vez mais: o metrô lembra os trens da CPTM, um pouco mais acabadinhos (ou seja, um pouco melhor do que os trens da Supervia), mas com uma malha enorme, muitas estações e linhas. E a cada estação, a cada passagem, a cena familiar dos marreteiros vendendo bala, doce, gilete, fone de ouvido, brinquedo de criança, meia calça, creme para varizes, CDs, geladinho (sacolé/chup-chup), roupa, tudo isso em cada esquina. Mas aqui no México eles não são negros ou nordestinos como em São Paulo ou no Rio: a cara dos explorados aqui é a cara da América, dos povos que por anos foram subjugados pelos europeus e aqui principalmente pelo Tio Sam, vizinho rico do norte.
![]() |
| El Pueblo Mexicano: Foto de Tina Modotti. |
E assim, geração a geração, fomos aprendendo mais ou menos explicitamente, que a nossa cara não é bonita porque não é a cara do colonizador, fomos aprendendo a tentar deixar de ser nós mesmos para ser o que nunca seremos.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho
Estou virando campeã de postagens inaugurais de blogs, e não vou prometer que com este será diferente. Vai que não prometendo enfim consigo cumprir?
Já que sempre que posto algo num blog fico tempos sem escrever novamente, desta vez resolvi criar um blog propositalmente passageiro: um blog de viagem. E a inauguração dessa vez tem pitada de uma ansiedade muito grande, mariposas voando no estômago, escapulindo pela boca quase. Vou pra um lugar sempre sonhei conhecer: MÉXICO!
Uma vez um amigo me falou que eu gostaria muito de lá porque parece com a minha Bahia: as pessoas são felizes, usam roupas coloridas e adoram pimenta. Resolvi tirar a prova, já planejo ir há mais de 10 anos e dessa vez apareceu a oportunidade.
Eu odeio arrumar mala, mas dessa vez eu até gostei - me fez pensar no que estarei carregando na volta... Lembrança se apaga, se guarda e se reinventa, o blog é um jeito de recontar uns dias de jornada.
E agora me voy pra terra de Zapata. Na companhia de Lila Downs, devidamente adicionada à lista de divas preferidas... Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho = Caminale despacito!
Já que sempre que posto algo num blog fico tempos sem escrever novamente, desta vez resolvi criar um blog propositalmente passageiro: um blog de viagem. E a inauguração dessa vez tem pitada de uma ansiedade muito grande, mariposas voando no estômago, escapulindo pela boca quase. Vou pra um lugar sempre sonhei conhecer: MÉXICO!
Uma vez um amigo me falou que eu gostaria muito de lá porque parece com a minha Bahia: as pessoas são felizes, usam roupas coloridas e adoram pimenta. Resolvi tirar a prova, já planejo ir há mais de 10 anos e dessa vez apareceu a oportunidade.
Eu odeio arrumar mala, mas dessa vez eu até gostei - me fez pensar no que estarei carregando na volta... Lembrança se apaga, se guarda e se reinventa, o blog é um jeito de recontar uns dias de jornada.
E agora me voy pra terra de Zapata. Na companhia de Lila Downs, devidamente adicionada à lista de divas preferidas... Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho = Caminale despacito!
Zapata se queda (Lila Downs)
Son las 3 de la mañana,
dicen que pena un santito,
Bajito yo oigo que dice:
Caminale despacito ay mamá,
Caminale despacito
mi sueño me dice no vallas,
mis piernas me dicen tantito,
y cuando ya me doy cuenta caramba,
me muevo poco a poquito ay mamá,
me muevo poco a poquito.
Seras tu Zapata,
el que escucho aquí,
con tu luz perpetua,
que en tus ojos ví.
En mi mente se oye,
que me dice así,
En mi mente se oye
que me dice así
Por la sombra de la selva,
se escucho un disparo,
y cayo un gallo negro,
por la calle de milagro.
Si tu dices que me quieres
con el todo al todo,
y te vas tu, conmigo,
levantamos polvo.
Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
se dibuja el sereno,
por todo mi camino
Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
no hay ni miedo ni ruda,
sobre mi destino.
Son las 3 de la mañana,
dicen que pena un santito,
Bajito yo oigo que dice:
Caminale despacito ay mamá,
Caminale despacito
mi sueño me dice no vallas,
mis piernas me dicen tantito,
y cuando ya me doy cuenta caramba,
me muevo poco a poquito ay mamá,
me muevo poco a poquito.
Seras tu Zapata,
el que escucho aquí,
con tu luz perpetua,
que en tus ojos ví.
En mi mente se oye,
que me dice así,
Que en mi mente se oye
que me dice así
Por la sombra de la selva,
se escucha un disparo,
y cayo un gallo negro,
por la calle de milagro.
Si tu dices que me quieres
con el todo al todo,
y te vas tu, conmigo,
levantamos polvo.
Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
se dibuja el sereno,
por todo mi camino
Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
no hay ni miedo ni ruda,
sobre mi destino.
Assinar:
Comentários (Atom)









.jpg)

