Paulo Freire é uma daquelas pessoas que ninguém tem coragem de invocar para falar mal. Ainda que a máxima da estupidez da unanimidade costume não ter falhas, até mesmo os seus maiores detratores de alguns anos atrás (lembremos de seu exílio) hoje lhe tecem as maiores loas de sorrisos amarelos. O coitado deve estrebuchar no caixão com usos como o da Prefeitura do Rio de Janeiro, com seus programas mais do que questionáveis, ou de projetos vinculados a bancos multibilionários e afins.
Por outro lado, vale lembrar que essas personalidades unânimes muitas vezes o são mais por reconhecimento do que por conhecimento da obra. Quem acompanhou sua produção (e tive muito gosto de fazê-lo no mestrado) sabe que ideias freireanas não cabem em qualquer contexto. Sobretudo nos autoritários - ainda que possamos discutir fases em sua vasta obra, em nenhuma pode servir de desculpa para relações autoritárias.
Nesta semana ocorreu uma situação daquelas em que você se pega pensando sobre as voltas que a vida dá. Não tive bolsa de mestrado e no segundo ano precisei concluí-lo trabalhando como professora na prefeitura de São Paulo. Cheguei a trabalhar durante três meses em duas escolas simultaneamente: no Euclydes Figueiredo (Vila São Francisco, pertinho de Osasco), dando aula para o Ensino Fundamental, e no Derville Allegretti (Santana), dando aula para o Ensino Médio e Curso Normal. Era uma loucura: trabalhar 60 horas por semana e ainda ter pique para estudar e produzir uma dissertação não foi fácil. Mas foi muito importante para minha formação. Infelizmente tive que fazer a difícil opção de me vincular de uma das escolas ou não teria conseguido concluir o curso, ficando somente no Derville até 2012.
Eis que chega no meu email um link com várias fotos de Paulo Freire, num auditório que me pareceu familiar. Era um planejamento escolar em que o famoso educador sentava à mesa num conhecido tablado. O mesmo tablado em que dei tantas aulas. Essa sensação de voltas do mundo me pareceu muito engraçada. Não conheci Paulo Freire, ele não me conheceu. Isso nunca alterou em nada a minha vida, mas só de saber que pisamos no mesmo local, é como se ele, que habita minha estante e meus sonhos, estivesse um passo mais próximo.
De repente me peguei lembrando de todas as coisas que já passei nesse auditório. Foram muitas reuniões pedagógicas, a maioria sem sentido, feitas porque "a gestão" disse que teria que fazer. Os problemas da escola iam para baixo do tapete, porque urgiam seguir as metas. Foram várias reuniões do Conselho de Escola, algumas vezes como presidenta: umas guardo boas recordações, outras nem tanto: como no dia em que aprovaram o programa de trainee Junior Achievement para "formar jovens empreededores", ou no dia em que um professor reconhecidamente autoritário veio me agredir por eu "estar fazendo política" (e ele não?).
Gostava muito do auditório por poder trazer vídeos, preparar slides e usar o datashow para fugir um pouco dos livros, mas também por sair um pouco da sala de aula. Lembro de algumas aulas sobre biotecnologia, lembro de debates organizados por outros professores, e lembro do momento que talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que fiz como professora do noturno que foi brigar para que tivessem, como nas turmas diurnas, um show de calouros (um sucesso, por sinal!).
De repente todas essas coisas que fiz, é possível que pela distância do espaço e do tempo, ficaram mais especiais, pelo fato de Paulo Freire ter passado ali. Então fiquei pensando nas coisas que fazemos por acharmos importante, e não por ninguém nos dizer que é preciso fazê-las. Tantas colegas fazem coisas muito especiais nas salas de aula por aí, que vão ser tão somente coisas que irão lembrar como as melhores coisas que fizeram. Às vezes farão à revelia de diretoras, às vezes desistirão de fazer pela mesma razão. Mas o fato é que fazem, porque não desistem, a despeito de toda a desvalorização que passam, de ser o que são: educadoras. E para sê-lo, têm que lutar todos os dias, porque acreditar não paga aluguel, nem faz compras do mês, nem cria autonomia pedagógica: o conflito, o debate, a tomada de posição podem fazer com que venham novas conquistas (econômicas e políticas).
E então fiquei feliz por encontrar de novo, depois de tantas voltas, o querido mestre com quem tanto aprendi. Ele está um pouco em mim, como está um pouco em todas as que lutam.
P.S. Para quem sentiu curiosidade, o link das fotos: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/3410

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