Dois anos atrás, no dia 16 de agosto de 2012, tive a felicidade de comemorar de uma forma única meu aniversário. Mas antes de contar essa parte da história, vou fazer um breve flashback para explicar o porquê.
Fui adolescente nos anos 1990 e a grande sensação da música brasileira na época era a banda O Rappa. As letras denunciando a desigualdade, numa mistura de rock, rap, reggae e samba, mas sem se reduzir a nada disso era a síntese do novo. Marcelo Yuka se tornou um grande ídolo de toda uma geração por sua sensibilidade nas letras. E ainda mais depois de, mesmo depois de levar um tiro durante um assalto, ficando paraplégico, não fez coro ao discurso de ódio contra os pobres, rechaçando a envenenada linha, "bandido bom é bandido morto", assumida por alguns que se dizem "justiceiros" e replicada por figuras torpes como Rachel Sheherazade. Preferiu dizer que "é uma cilada confundir justiça com vingança".
(O que Sobrou do Céu, um dos clipes preferidos)
Em 2012, Yuka ainda aceitou o desafio de uma candidatura a vice-prefeito de ninguém menos do que Marcelo Freixo, figura nacionalmente conhecida pelo combate ao reacionarismo de direita e ao pragmatismo utilitário governista, ao ser o principal porta-voz da luta por direitos humanos no Rio de Janeiro. Esta dupla de Marcelos inspirou centenas de ativistas, principalmente jovens, a construir uma campanha parca de recursos mas rica de sonhos, que ficou conhecida como Primavera Carioca.
E no meio do turbilhão de atividades dessa campanha, voltando pra casa cansada de corpo e renovada de espírito, encontrei com meu namorado e os companheiros de casa num bar próximo à minha casa. Era um bar muito particular: havia vários livros pelas mesas para serem folheados, muitas imagens pelas paredes, garçons falantes e simpáticos, e apresentações de música ao vivo. As terças-feiras era especialmente interessante, porque era o dia da seresta: senhores septuagenários cantando Reginaldo Rossi, Wando, Amado Batista, e de quebra interagindo com a plateia.
Naquela terça quando cheguei para encontrar com o pessoal, estavam todos eufóricos. Diziam que eu tinha que ter estado lá, tinha que ter! Um dos senhores, aparentemente o mais animado, depois de cantar, interagir, dedicar a música e fazer casais dançarem, sentou para tomar uma cerveja naquela mesa. Olhou para um dos presentes e atirou:
- Você não me conhece, mas aposto que conhece meu filho.
Meu companheiro, surpreso, pergunta com curiosidade quem seria o ilustre.
E então o pai de Marcelo Yuka começa contando histórias e mais histórias do filho, divide cervejas e risadas, canta mais uma música e vai embora. Minutos antes de eu chegar, para meu desconsolo.
Algumas semanas depois, eis que acontece uma das atividades mais impressionantes que tenha participado: era uma assembleia de jovens com o Freixo e o Yuka, para discutir a campanha. Seria no auditório da Associação Brasileira de Imprensa, às 18h. Era 18h10 e o local já era absolutamente intransitável. A solução, sem querer, virou um símbolo do que seria a própria campanha: fomos pra rua. E fizemos uma atividade com mais de 3 mil jovens na Cinelândia. Um dia inesquecível: fitas amarelas, flores, palavras de ordem, e muitos sorridos. Um dia que marcou a história.
Lá no finalzinho da atividade, emocionada com tudo aquilo que aconteceu, ainda tive a oportunidade de chegar perto do Yuka, através de uma amiga em comum. Tímida, mas também animada, com o estômago revirando de nervoso, mas resoluta a sair de lá ao menos depois de conversarmos, consegui vencer a vergonha e contar toda essa história pra ele. Ele, a simpatia em pessoa, ria, achava muita graça, e quando eu contei que era meu aniversário, me deu o segundo melhor presente: "Feliz parabéns".

O primeiro, ele ajudou a construir já há alguns anos: a utopia.
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