Mesmo garantido o telão para quem não pudesse acompanhar a atividade, uma multidão de jovens esperançosos usou daquilo que Galeano tanto louvou em seus textos: da persistência. E foi necessário mudar de espaço para que todos pudessem acompanhar as palavras inspiradoras de um incurável militante. Depois de junho, nada mais foi o mesmo.
E eis que uma rápida articulação de dois mandatos do PSOL conseguiu garantir uma outra atividade com o uruguaio que tão bem descreveu os brasileiros, amante que era do futebol e da luta. Marcelo Freixo e Eliomar Coelho articularam uma cerimônia de outorga a Eduardo Galeano de cidadão honorário do Rio de Janeiro. Com diploma e tudo.
Sendo impossível ir na atividade da PUC, fiquei eufórica com a possibilidade de ver o autor de As Veias Abertas da América Latina de perto. O livro que mudou minha vida: o que li pela primeira vez, uma edição de sebo, tinha algumas dezenas de marcações de etiquetas coloridas com anotações, porque tudo ali era para ser lembrado. O socialismo das ideias me levou meu pequeno tesouro (que esteja sendo bem utilizado). Quantas lágrimas não me arrancou, quantas certezas derrubadas, exceto a de não desistir, jamais?
E lá estava eu, 3 horas antes do começo da atividade, na primeira fila, esperando. Já havia 6 pessoas quando cheguei, todas aparentando a minha mesma euforia. Enquanto o auditório enchia, as pessoas pareciam preencher não as cadeiras, mas o próprio futuro: eram jovens, em sua maioria. Talvez filhos dos filhos dos contemporâneos de Galeano. E ali estavam, latinoamericando no idioma dos filhos da terra.
Depois de muito tempo de atraso (atribuído justamente às desfortunadas e superfaturadas obras do prefeito do Rio), eis que chega, meio trôpego e num paletó azul marinho, um velhinho um pouco sisudo. Ovacionado de pé, ouvia as falas dos combativos parlamentares e dos demais homenageadores como uma criança que estivesse na missa. Recebido o diploma, abriu, tirou do canudo e, ao invés de olhar o título que recém ganhava, colocou o canudo nos olhos, feito uma luneta. Alguém assim realmente deve ver as coisas por outro ângulo.
E eu, ainda palpitando com a proximidade de alguém que nunca me viu, mas que me era tão íntimo, terminada a atividade, pulei de um pinote correndo atrás dele, como se fosse a minha última chance de vê-lo (e era). O sempre simpático Eliomar ainda me segurou para ajudar a subir no tablado do palco, enquanto já nos bastidores, Galeano se distanciava. Corri atrás dele, e Marcelo Freixo, preocupado com o cansaço de um senhor de idade, educadamente me pediu para poupá-lo. Foi quando ele se virou e me olhou com seus enormes olhos azuis:
- Como é seu nome?
Ainda em choque, não consegui acreditar que estava falando com ele. Pensei no que falar, no que perguntar, mas estava catatônica. O coração pulava pela boca, ainda meio balbuciando e segurando nas mãos meu livro preferido (Mulheres), respondi:
- Maíra. Sei que você deve ouvir isso milhões de vezes, mas seu livro mudou minha vida.
- Maíra. Que nome bonito! E você também é muito bonita.
E pegou de minhas mãos o livro, assinou e me devolveu. Segurou a minha mão, e me deu um beijo no rosto, se despedindo.
E voltei para casa, com um livro autografado, uma cantada de um senhor de idade, e a certeza renovada de que desistir não pode ser uma possibilidade.
Galeano morreu hoje. Mas o que deixou renasceu gerações: ainda mais depois de junho, quando nada mais foi o mesmo.

