segunda-feira, 13 de abril de 2015

Meu encontro com Galeano

Depois de junho de 2013, nada mais foi o mesmo. Quando se divulgou nas redes sociais que Galeano viria para um debate na PUC Rio, foi um alvoroço. Ainda mais ao descobrir, logo depois, que seria para apenas 200 pessoas.

Mesmo garantido o telão para quem não pudesse acompanhar a atividade, uma multidão de jovens esperançosos usou daquilo que Galeano tanto louvou em seus textos: da persistência. E foi necessário mudar de espaço para que todos pudessem acompanhar as palavras inspiradoras de um incurável militante. Depois de junho, nada mais foi o mesmo.

E eis que uma rápida articulação de dois mandatos do PSOL conseguiu garantir uma outra atividade com o uruguaio que tão bem descreveu os brasileiros, amante que era do futebol e da luta. Marcelo Freixo e Eliomar Coelho articularam uma cerimônia de outorga a Eduardo Galeano de cidadão honorário do Rio de Janeiro. Com diploma e tudo.

Sendo impossível ir na atividade da PUC, fiquei eufórica com a possibilidade de ver o autor de As Veias Abertas da América Latina de perto. O livro que mudou minha vida: o que li pela primeira vez, uma edição de sebo, tinha algumas dezenas de marcações de etiquetas coloridas com anotações, porque tudo ali era para ser lembrado. O socialismo das ideias me levou meu pequeno tesouro (que esteja sendo bem utilizado). Quantas lágrimas não me arrancou, quantas certezas derrubadas, exceto a de não desistir, jamais?

E lá estava eu, 3 horas antes do começo da atividade, na primeira fila, esperando. Já havia 6 pessoas quando cheguei, todas aparentando a minha mesma euforia. Enquanto o auditório enchia, as pessoas pareciam preencher não as cadeiras, mas o próprio futuro: eram jovens, em sua maioria. Talvez filhos dos filhos dos contemporâneos de Galeano. E ali estavam, latinoamericando no idioma dos filhos da terra.

Depois de muito tempo de atraso (atribuído justamente às desfortunadas e superfaturadas obras do prefeito do Rio), eis que chega, meio trôpego e num paletó azul marinho, um velhinho um pouco sisudo. Ovacionado de pé, ouvia as falas dos combativos parlamentares e dos demais homenageadores como uma criança que estivesse na missa. Recebido o diploma, abriu, tirou do canudo e, ao invés de olhar o título que recém ganhava, colocou o canudo nos olhos, feito uma luneta. Alguém assim realmente deve ver as coisas por outro ângulo.

E eu, ainda palpitando com a proximidade de alguém que nunca me viu, mas que me era tão íntimo, terminada a atividade, pulei de um pinote correndo atrás dele, como se fosse a minha última chance de vê-lo (e era). O sempre simpático Eliomar ainda me segurou para ajudar a subir no tablado do palco, enquanto já nos bastidores, Galeano se distanciava. Corri atrás dele, e Marcelo Freixo, preocupado com o cansaço de um senhor de idade, educadamente me pediu para poupá-lo. Foi quando ele se virou e me olhou com seus enormes olhos azuis:

- Como é seu nome?

Ainda em choque, não consegui acreditar que estava falando com ele. Pensei no que falar, no que perguntar, mas estava catatônica. O coração pulava pela boca, ainda meio balbuciando e segurando nas mãos meu livro preferido (Mulheres), respondi:

- Maíra. Sei que você deve ouvir isso milhões de vezes, mas seu livro mudou minha vida.

- Maíra. Que nome bonito! E você também é muito bonita.

E pegou de minhas mãos o livro, assinou e me devolveu. Segurou a minha mão, e me deu um beijo no rosto, se despedindo.

E voltei para casa, com um livro autografado, uma cantada de um senhor de idade, e a certeza renovada de que desistir não pode ser uma possibilidade.

Galeano morreu hoje. Mas o que deixou renasceu gerações: ainda mais depois de junho, quando nada mais foi o mesmo.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O cuidado é político

Há um tempo tenho lido alguns textos sobre autocuidado que me tocaram muito, porque ser professora, estudante e militante é para uma mulher uma jornada quádrupla de trabalho (e quando falo trabalho estou pensando em tempo do dia/da vida de uma pessoa). É como se nós estivéssemos o tempo todo deixando de fazer alguma coisa direito de nossas vidas – e, na condição de mulher, como se tivéssemos o tempo todo que afirmar essa condição (e isto porque sou mulher e branca, certamente para uma mulher negra o cruzamente de preconceitos é ainda mais violento).

Como educadora, me sinto na obrigação de dar o melhor de mim: de procurar estudar antes de preparar todas as aulas, de corrigir os exercícios no prazo e colocar apontamentos que favoreçam o desenvolvimento autônomo de cada aluno, disponibilizar com antecedência os planejamentos das disciplinas, deixar espaço na aula para que os alunos manifestem suas opiniões ainda que sejam distintas da minha, procurar dar subsídios para que eles depois pesquisem mais sobre o que discutimos caso queiram, planejar avaliações que reflitam as finalidades dos cursos. Já foi bem mais difícil fazer isso: na época de professora na prefeitura de São Paulo, a quantidade de alunos, de turmas, e de autonomia deixava pouco espaço para isso acontecer a contento. E isso gera uma angústia para tentar “diminuir a distância entre o que se pensa e o que se pratica”.

Como estudante, é preciso dar conta dos prazos e pressões da academia, que tem alguns critérios bem menos objetivos do que parece: favorecimentos de determinados grupos de pesquisas, centralidade de algumas universidades principalmente no eixo sul-sudeste, relações de poder em que não é raro se entrecuzarem critérios do mais abjeto racismo, machismo e homofobia não são incomuns – vale lembrar da recente recusa de financiamento do Prof. Kabengele Munanga na UFRB, único dentre 59 selecionados que era negro e teve sua bolsa negada por critérios insustentáveis ou o caso de Idelber Avelar. Porém ainda que as formas mais violentas das intrincadas relações de poder da academia não inviabilizem importantes pesquisas que contribuem para que novos conhecimentos possam ser compartilhados com a sociedade, ser estudante de uma universidade exige tempo, sempre mais do que você pode dar, tendo em vista tantos séculos passados de produção de conhecimento.

Como militante que consegue equilibrar o pouco tempo que sobra entre educadora e estudante, há tanto o que fazer! Há que se lutar para marcar o espaço como mulher, e todo dia enfrentar um oceano de lixo misógino que temos que atravessar todo dia. Tem que brigar muito para garantir que nossos direitos não retrocedam. Tem que aguentar muitas vezes um jeito rasteiro de fazer política, bem típico do patriarcado, de bater na mesa, falar mais alto, espalhar boatos, tudo no implícito do “você sabe quem está falando?” bem ao gosto do coronelismo.

Mas não preciso aguentar calada.

Precisamos de espaços em que isto seja repudiado tanto quanto ao sistema que nos explora, aos políticos que nos esmagam, às corporações que dispõe de nossas vidas como se fôssemos só mais um número no banco de metadados infinitamente armazenado pela Google. Espaços em que o cuidado com o outro – e principalmente com a outra - não seja questão menor.

Não se pode ficar calada quando sapateiam sobre a memória de quem dedicou a vida à liberdade, a ainda que restrita, em que vivemos, clamando pela volto do horror – sim a ditadura é o horror, é a total falta de respeito pelas possibilidades democráticas mínimas, e qualquer forma  de endosso é cumplicidade com o horror. Não se pode ficar calada vendo o extermínio na juventude negra, porque a maioridade penal já é reduzida e se mostra no assassinato DIÁRIO de jovens e adolescentes negrxs na guerra contra as drogas. Não se pode ficar calada com as milhares de mulheres, a grande maioria negras, que morrem por abortos clandestinos diariamente. Não se pode ficar calada com a execução de LGBTs pelo simples fato de não corresponderem à heteronormatividade. Não se pode ficar calada com os vergonhosos cortes para verbas públicas na educação empreendidos pelos governos, pois aqueles que engrossam o coro do imobilismo neste momento também são responsáveis pelo caos que vivemos.

Quando bate aquele desespero, de pensar que não estou dando conta nem do começo de cada uma das necessidades, é que os espaços coletivos são mais necessários. Pensar coletivamente, criar redes de apoio, porque política se faz nos mínimos espaços. Então eu respiro fundo, e me tranquilizo quando penso que felizmente fiz parte da construção de organizações que viabilizam estes espaços.

E fico muito orgulhosa de ser militante do Movimento Esquerda Socialista do PSOL, do movimento Juntos! e da Rede Emancipa de Cursinhos Populares. Sei que batalhamos para que estes espaços sejam garantidos. Um salve especial para cada uma de minhas companheiras que constroem estes espaços. Cuidando umas das outras a gente aprende a cuidar de si.