domingo, 29 de junho de 2014

Meio de campo no Brasil: uma falta histórica

A primeira Copa que eu acompanhei foi a de 1994, há exatos 20 anos. Estava na 3a série, tinha recém mudado para São Paulo, e acompanhei em casa da nossa TV véinha, com meus pais e tios. Lembro com clareza da tabela em que eu marcava o resultado dos jogos (algumas já vinham com o nome do Brasil preenchido até a final), lembro do frio e do cheiro de quentão, é sempre na época da festa junina. Lembro da cotovelada do Leonardo no jogo contra os Estados Unidos - doloroso cartão vermelho, lembro do chute de trivela do Branco, das tabelas de Romário e Bebeto, das inúmeras vezes que tive que segurar o xixi pra não sair antes dos lances mais marcantes.

E claro, do Galvão Bueno, já irritante à época. Às vezes conseguia convencer a mudar pro SBT, que às transmitia o jogo com um mascote que era uma bolinha amarela meio tosca que ficava fazendo movimentos engraçados. E apesar de não conseguir ouvir a voz do mala do Galvão por mais de 5 segundos, não tem como esquecer a cena cômica dele dando uma gravata no Pelé e gritando descontroladamente “É TETRA!!!!!”.

Desde então, de 4 em 4 anos tem um quê especial assistir à copa do mundo, esperar a escalação pra palpitar, acompanhar a tabela pra escrever no papelzinho (ou na tabela do Excel, atualmente) os resultados dos jogos, não só torcer para o Brasil, mas ter uma síntese do que acontece em 32 seleções pelo mundo, ver golaços históricos, novos clássicos se construindo, torcer para os hermanos e para os africanos. Tudo isso vai virando uma tradição que hoje faz parte indissociável do que eu sou.

Eu não escolhi a Copa vir para cá. E certamente não escolheria se soubesse quantos absurdos se faria em nome dela: remoções, superfaturamentos, repressão policial, violência sexual, aprofundamento dos problemas urbanos nas cidades-sede, só pra citar alguns. Também não engrosso o coro falido daqueles que dizem “agora não adianta protestar”: estive em boa parte das manifestações contrárias às injustiças promovidas pela realização da Copa no Brasil. Por outro lado respeito profundamente a dor dos que perderam os operários mortos nas aceleradas obras, respeito o indignação daqueles que não conseguem mais torcer como antes ao botar na balança as graves injustiças cometidas em nome da Copa.

Agora me recuso a engrossar um outro coro, esse mais diminuto, é verdade, que tentar colocar em dois lados distintos os torcedores x os “conscientes”, como se torcer para o Brasil fosse uma alienação que fizesse com que as pessoas esquecessem os absurdos ocorridos. Tratam o torcer como uma questão moral, entrando numa luta perdida contra um hábito brasileiro que constrói paixão e identidade. Só quem não sabe o que é brigar num campeonato, enfrentar rivalidade histórica, ser roubado pelo juiz, ser motivo de chacota uns dias e tirar uma onda em outras, comemorar gol na torcida, botar o time pra frente mesmo nos momentos improváveis, poderia pensar que boa parte dos brasileiros iria passar insensível a uma Copa aqui (convenhamos, dentro das 4 linhas, que Copa!).

Suspeito que quem opõe os que protestam contra a FIFA /CBF aos que torcem pela seleção são os mesmos que se “chatearam” com as milhões de pessoas que se somaram às manifestações de junho de 2013, que nunca haviam estado antes nas ruas - "chateados" por não terem capacidade de dirigir os novos sentimentos rebeldes que afloraram nas ruas. Ainda que eu "não estivesse dormindo" antes das multitudinárias passeatas, não vejo com maus olhos os jovens de 16, 17 anos que empolgados cantavam "O gigante acordou", e sim com esperança de que voltem nas próximas. Desse ciúme tenho alívio de não compartilhar.

Limpo o meio de campo, vou direto onde queria: eu nunca vi um jogo do Brasil com tantos lançamentos quanto este último das oitavas contra o Chile – lance a lance, a cena se repetiu inúmeras vezes, Júlio César, David Luiz ou Thiago Silva fazem um bom corte, dominam a bola e lançam para Neymar, Hulk ou Oscar. Invariavelmente este três – e o Fred – muito bem marcados pela zaga chilena. Ficou óbvio, evidente, ululante que não havia meio de campo – sim uma defesa reforçada com volantes recuando no contra-ataque, além de nosso ataque, à espera de um lance como quem espera iluminação divina. Todos esperando um lance impressionante, belo, maroto, à altura de um olé, um grito, um papitar de coração que faz a gente olhar pro vizinho com nada além de um palavrão de espanto na boca porque viu aquilo, provavelmente de autoria de Neymar, mas vai que aparece pelos pés de um outro (eu mesma, com essa escalação, teria enorme dificuldade de dizer quem).

Acontece que esse lance não veio. Não veio nenhum brilho em especial no jogo, além de Júlio César que calou muitas bocas (aqui me incluo) na prorrogação e nos pênaltis. Não veio entrosamento do time. Nosso capitão Thiago Silva, a quem considero um dos melhores zagueiros do mundo, se recusou a bater pênalti e se ajoelhou de fora do grupo. O time desentrosado, não parecia uma equipe. Veio um time sem meio de campo, sem brilho e sem união: até dois desses ainda dá pra driblar num jogo.

Na minha humilde opinião de comentarista amadora e virtual, tem tudo a ver com o estilo de técnico de Felipão: autoritário, de quem não admite ser questionado, e que mantém o time porque quer provar na marra que sua ideia é a melhor, mesmo ao custo de uma derrota (se não formal, definitivamente uma derrota moral, já que o silêncio profundo ao longo do jogo era prova inequívoca do sofrimento do torcedor brasileiro). É sintomático que não aposte no meio de campo – a falta de meio campo do Brasil reflete a falta de mediação do técnico. Bem diferente do time da Holanda, cuja preparação física e discussão coletiva da tática (são realizadas plenárias com toda a equipe para discuti-la), aliada ao sangue frio da experiência contra um México muito guerreiro munido de uma muralha de goleiro, conseguiram conquistar sua classificação.

Assitir um Brasil com toque de bola, trabalho coletivo em campo, explorar as melhores características individuais e coletivas da seleção seria algo bonito de ver. Poderia ser uma métafora para um Brasil que procura apostar no que tem de melhor: sua matéria humana. Esse sim seria um golaço.




Assistindo jogo na Mangueira. Fonte: UOL

terça-feira, 10 de junho de 2014

Por que tão pouco? Mulheres e negros(as) na Ciência

Recentemente um vídeo circulando na internet me chamou bastante atenção. Recebi de diversos cantos diferentes: algumas biólogas ou demais cientistas, outras feministas, um tanto de cada. O vídeo trata de uma pergunta aparentemente ingênua, cuja resposta presumida só contribui para reforçar estereótipos: Por que tão poucas mulheres na ciência?




Abrindo o vídeo, em que vale mais a pena a resposta vista do que descrita, me deparei com um rosto (e uma voz) bastante familiares. Fui tentando me lembrar de onde já havia visto e as lembranças começaram a me remeter a alguém familiar. É a voz das incríveis projeções do Planetário Hayden, que fica no American Museum of Natural History (aquele museu que sempre aparece no Scooby-Doo, em desenhos e demais filmes americanos que tem um esqueleto enorme de tiranossauro).

O dono da voz é Neil Degrasse Tyson, eminente cientista negro estadunidense, diretor do planetário e que dubla as sensacionais projeções do céu que assisti quando pude ir até lá. Depois que percebi já tê-lo visto em inúmeros programas de ciência, e até no Big Bang Theory:





Assistindo é que fui me dar conta de duas coisas divertidas. A primeira: ele é um dos responsáveis pela frustação de milhares de pessoas pelo mundo, principalmente de crianças (e eu acrescenteria as pessoas com signo de Escorpião) - o "rebaixamento" de plutão para "planeta-anão". E a segunda, mais engraçada ainda: ele é o "cara do ui". Se você não sabe o que é o cara do ui e quiser saber todo o contexto, veja esse vídeo em que o Neil DeGrasse Tyson diz porque acredita que Isaac Newton foi o maior físico de todos os tempos (vou ficar devendo a legenda) - se quiser ir direto à cena do ui, está entre o 1:32 e 1:36.



Sem dúvida, um cara pop, além de renomado na ciência. Entre outros feitos, Neil DeGrasse Tyson tem um nome de asteróide em sua homenagem (o 13123 Tyson), foi eleito por revistas distintas de o "astrofísico mais sexy do mundo" a "uma das 100 pessoas mais influentes", "um dos 50 afro-americanos mais importantes na pesquisa científica" e "um dos 100 alunos de Harvard mais influentes" (o que quer que isso queira dizer, sempre tenho minhas dúvidas).

Tyson remete às inúmeras dificuldades que teve sendo um garoto negro que queria ser um astrofísico. Tentando responder à questão que atribuía uma suposta inferioridade de mulheres à ciência, colocou um argumento que quase nunca aparece nos círculos acadêmicos, justamente porque é um espaço amplamente dominado por homens brancos. Quando olha para os lados e vê todos os outros como ele que ficaram para trás, porque, como ele, as professoras sugeriam que ao invés de estudar ciência fosse atleta, não pode ignorar as condições sociais em que isso se dá.

Ao pouco se falar da história das mulheres na ciência, com todo o reforço ao estereótipo de que "fazer conta é coisa de homem", e do ambiente por vezes violentamente misógino (simbólica ou fisicamente), atribuir as diferenças à genética é abrir mão de discutir privilégios sociais.


Tyson é homem, negro e estadunidense, com uma longa carreira na ciência, e é muito oportuno o ponto que coloca. Será que é preciso toda essa trajetória para ecoar a ideia de que essa diferença não é natural?

Em tempo: compartilho duas discussões interessantes em blogs sobre a misoginia de determinados espaços. Um deles da própria série Big Bang Theory  (e a representação da mulher na ciência) e outro sobre mulheres e games. Não somos bibelôs: somos o que queremos ser, assim sendo cada vez mais.