E claro, do Galvão Bueno, já irritante à época. Às vezes conseguia convencer a mudar pro SBT, que às transmitia o jogo com um mascote que era uma bolinha amarela meio tosca que ficava fazendo movimentos engraçados. E apesar de não conseguir ouvir a voz do mala do Galvão por mais de 5 segundos, não tem como esquecer a cena cômica dele dando uma gravata no Pelé e gritando descontroladamente “É TETRA!!!!!”.
Desde então, de 4 em 4 anos tem um quê especial assistir à copa do mundo, esperar a escalação pra palpitar, acompanhar a tabela pra escrever no papelzinho (ou na tabela do Excel, atualmente) os resultados dos jogos, não só torcer para o Brasil, mas ter uma síntese do que acontece em 32 seleções pelo mundo, ver golaços históricos, novos clássicos se construindo, torcer para os hermanos e para os africanos. Tudo isso vai virando uma tradição que hoje faz parte indissociável do que eu sou.
Eu não escolhi a Copa vir para cá. E certamente não escolheria se soubesse quantos absurdos se faria em nome dela: remoções, superfaturamentos, repressão policial, violência sexual, aprofundamento dos problemas urbanos nas cidades-sede, só pra citar alguns. Também não engrosso o coro falido daqueles que dizem “agora não adianta protestar”: estive em boa parte das manifestações contrárias às injustiças promovidas pela realização da Copa no Brasil. Por outro lado respeito profundamente a dor dos que perderam os operários mortos nas aceleradas obras, respeito o indignação daqueles que não conseguem mais torcer como antes ao botar na balança as graves injustiças cometidas em nome da Copa.
Agora me recuso a engrossar um outro coro, esse mais diminuto, é verdade, que tentar colocar em dois lados distintos os torcedores x os “conscientes”, como se torcer para o Brasil fosse uma alienação que fizesse com que as pessoas esquecessem os absurdos ocorridos. Tratam o torcer como uma questão moral, entrando numa luta perdida contra um hábito brasileiro que constrói paixão e identidade. Só quem não sabe o que é brigar num campeonato, enfrentar rivalidade histórica, ser roubado pelo juiz, ser motivo de chacota uns dias e tirar uma onda em outras, comemorar gol na torcida, botar o time pra frente mesmo nos momentos improváveis, poderia pensar que boa parte dos brasileiros iria passar insensível a uma Copa aqui (convenhamos, dentro das 4 linhas, que Copa!).
Suspeito que quem opõe os que protestam contra a FIFA /CBF aos que torcem pela seleção são os mesmos que se “chatearam” com as milhões de pessoas que se somaram às manifestações de junho de 2013, que nunca haviam estado antes nas ruas - "chateados" por não terem capacidade de dirigir os novos sentimentos rebeldes que afloraram nas ruas. Ainda que eu "não estivesse dormindo" antes das multitudinárias passeatas, não vejo com maus olhos os jovens de 16, 17 anos que empolgados cantavam "O gigante acordou", e sim com esperança de que voltem nas próximas. Desse ciúme tenho alívio de não compartilhar.
Limpo o meio de campo, vou direto onde queria: eu nunca vi um jogo do Brasil com tantos lançamentos quanto este último das oitavas contra o Chile – lance a lance, a cena se repetiu inúmeras vezes, Júlio César, David Luiz ou Thiago Silva fazem um bom corte, dominam a bola e lançam para Neymar, Hulk ou Oscar. Invariavelmente este três – e o Fred – muito bem marcados pela zaga chilena. Ficou óbvio, evidente, ululante que não havia meio de campo – sim uma defesa reforçada com volantes recuando no contra-ataque, além de nosso ataque, à espera de um lance como quem espera iluminação divina. Todos esperando um lance impressionante, belo, maroto, à altura de um olé, um grito, um papitar de coração que faz a gente olhar pro vizinho com nada além de um palavrão de espanto na boca porque viu aquilo, provavelmente de autoria de Neymar, mas vai que aparece pelos pés de um outro (eu mesma, com essa escalação, teria enorme dificuldade de dizer quem).
Acontece que esse lance não veio. Não veio nenhum brilho em especial no jogo, além de Júlio César que calou muitas bocas (aqui me incluo) na prorrogação e nos pênaltis. Não veio entrosamento do time. Nosso capitão Thiago Silva, a quem considero um dos melhores zagueiros do mundo, se recusou a bater pênalti e se ajoelhou de fora do grupo. O time desentrosado, não parecia uma equipe. Veio um time sem meio de campo, sem brilho e sem união: até dois desses ainda dá pra driblar num jogo.
Na minha humilde opinião de comentarista amadora e virtual, tem tudo a ver com o estilo de técnico de Felipão: autoritário, de quem não admite ser questionado, e que mantém o time porque quer provar na marra que sua ideia é a melhor, mesmo ao custo de uma derrota (se não formal, definitivamente uma derrota moral, já que o silêncio profundo ao longo do jogo era prova inequívoca do sofrimento do torcedor brasileiro). É sintomático que não aposte no meio de campo – a falta de meio campo do Brasil reflete a falta de mediação do técnico. Bem diferente do time da Holanda, cuja preparação física e discussão coletiva da tática (são realizadas plenárias com toda a equipe para discuti-la), aliada ao sangue frio da experiência contra um México muito guerreiro munido de uma muralha de goleiro, conseguiram conquistar sua classificação.
Assitir um Brasil com toque de bola, trabalho coletivo em campo, explorar as melhores características individuais e coletivas da seleção seria algo bonito de ver. Poderia ser uma métafora para um Brasil que procura apostar no que tem de melhor: sua matéria humana. Esse sim seria um golaço.
| Assistindo jogo na Mangueira. Fonte: UOL |