domingo, 21 de setembro de 2014

Meditação de ônibus

Existem algumas ações cotidianas que comportam pequenas meditações. Uma delas é escovar os dentes. São 5 minutos em que uma pequena lembrança de algo que passou ou a continuidade de algum raciocínio cabem perfeitamente. Mas nada muito longo. Digamos que uma unidade de epifania.

Outra delas é tomar banho (coisas que fazemos no banheiro parecem propícias à reflexão). Quem nunca tomou uma decisão importante enxaguando a cabeça? Para mim tomar banho é acordar pra vida ou pensar sobre o dia. Até eu lembrar da água acabando no mundo e da conta de eletricidade e ficar um pouco mais pragmática com as meditações.

Mas para mim a meditação cotidiana mais importante do dia costuma ser a do transporte público. Acostumados que estamos a gastar nossa existência no deslocamento para nossos afazeres do dia-a-dia, que este tempo deixe de ser um tempo perdido para ser um tempo ganho. Se a paisagem é bonita, melhor ainda. Mesmo a paisagem feia, cotidiana, é uma sequência à qual nos acostumamos.

Quadrinho da Crocomila, veja mais em: http://crocomila.blogspot.com.br/

A meditação de ônibus cabe em mais de um parágrafo. Ela contém lições de vida, momentos de instrospecção profundos. Não é igual à brevidade da meditação do metrô com as suas rápidas passagens pelas estações (e impossíveis nos horários de pico).

É um tipo de meditação que tem várias condições. Ela se torna um martírio no ônibus lotado, em que é impossível não se lembrar de como esse descaso é revoltante. Mas algumas vezes damos aquela sorte de estar em pé de frente para aquele lugar que vaga naquela hora e não tem nenhuma senhorinha/senhorzinho, grávida ou alguém com criança para quem cederíamos o lugar. É a glória!

A depender da condição física, a meditação vira sono, bem dormido, quando o corpo até já sabe a hora de acordar sem perder o ponto (algo que condições alcoólicas podem alterar). Pode valer uma leitura, escutar música, mexer no celular. Ou só olhar pra janela e pensar na vida.

Depois que mudei pro Rio, acabou minha meditação de ônibus: motoristas tresloucados, ambulantes interativos, figuras expansivas e assobios da lataria desperdiçaram um futuro filosófico promissor.
Quadrinho da Crocomila, veja mais em: http://crocomila.blogspot.com.br/