Lá vou eu para mais um
bate-volta Rio-São Paulo, coisa relâmpago bem à moda paulistana
(ou seria à moda carioca em São Paulo?). Numa destas, encontro com vários bons
amigos, naquele futebol-churrasco-cerveja, difícil dar errado.
Reunidos entre risadas, bolas-fora e goles, revejo um grupo de gente mais que boa, quase todos antigos moradores do CRUSP, trinta e poucos, negros, vários com seus filhos, tantos professores ou em alguma profissão relacionada à educação. Raras exceções, existe ali uma questão que é um tanto geracional: boa parte desses meus amigos vivem a memória de ser/estar próximo do PT da periferia de São Paulo dos anos 80. Viver essa memória de lutas e boas recordações, parece virar um salvo-conduto para esconder o amargo do real PT, Realpolitik, aquele da real cidade de São Paulo, sacudida nesta mesma semana pelas greves de motoristas e cobradores - taxada por Haddad de “ilegal” - e de professores - que juntaram mais de 15 mil na rua, um ano depois do descumprimento do acordo da greve de 2013.
Mesmo com essa divergência entre nós, a companhia sempre muito agradável faz com que a gente ria de nossas diferenças e siga convivendo naquela linha “daqui a um tempo vamos nos encontrar de novo, tomar mais cerveja e vamos continuar a nos provocar mutuamente”, uma versão bon vivant de "a história há de nos julgar". E numa dessas risadas aconteceu uma cena de alguns poucos minutos que definiu magistralmente o raciocínio deste partido que, 20 anos atrás, foi referência de esquerda no Brasil, e que enterra seu passado a cada dia.
Duas crianças de 30 anos brincando de bola, no frio, uma menina e um menino. Ela muito ligeira, mas em desvantagem de anos de construção de gênero, logo perde a bola para ele, que então alfineta perguntando se ela não vai roubar de volta. Ele rola a bola pra esquerda, para a direita, e ela tenta sem sucesso roubar na ponta do pé. Nada. Vira 180 graus, passa para cima, para baixo, com aquele barulhinho de sola de tênis travando no chão, ficam uns tantos minutos e nada dela conseguir. De repente ela para, bota as duas mãos na cintura, olha bem firme na cara dele, que segura um sorriso de sarcasmo na boca, e começa a sambar. Todos caem na gargalhada, ele, ela, as crianças de mais ou menos trinta anos, e claro que eu também. Ela, ainda embriagada das risadas, vira para ele e diz:
“A gente tinha era que gravar um comercial assim para a Copa!!!”
Eu, ainda rindo, pergunto se ela gravaria mesmo um comercial para o malfadado megaevento, pensando em todas as implicações e comprometimentos que isto traria. E ela, sem pestanejar:
“Mas é claro!!! Imagina só o quanto a gente não poderia mudar o mundo gravando um comercial para a Copa!!!”.
E eu, entendendo que não havia outra coisa a fazer, caí na gargalhada, assim como ela e os demais presentes. Esperta como era, completou com a cereja do bolo, na mais plena e mais sintética caracterização do PT:
“Ou então a gente podia abrir uma ONG!”.
Só rindo mesmo.
Reunidos entre risadas, bolas-fora e goles, revejo um grupo de gente mais que boa, quase todos antigos moradores do CRUSP, trinta e poucos, negros, vários com seus filhos, tantos professores ou em alguma profissão relacionada à educação. Raras exceções, existe ali uma questão que é um tanto geracional: boa parte desses meus amigos vivem a memória de ser/estar próximo do PT da periferia de São Paulo dos anos 80. Viver essa memória de lutas e boas recordações, parece virar um salvo-conduto para esconder o amargo do real PT, Realpolitik, aquele da real cidade de São Paulo, sacudida nesta mesma semana pelas greves de motoristas e cobradores - taxada por Haddad de “ilegal” - e de professores - que juntaram mais de 15 mil na rua, um ano depois do descumprimento do acordo da greve de 2013.
Mesmo com essa divergência entre nós, a companhia sempre muito agradável faz com que a gente ria de nossas diferenças e siga convivendo naquela linha “daqui a um tempo vamos nos encontrar de novo, tomar mais cerveja e vamos continuar a nos provocar mutuamente”, uma versão bon vivant de "a história há de nos julgar". E numa dessas risadas aconteceu uma cena de alguns poucos minutos que definiu magistralmente o raciocínio deste partido que, 20 anos atrás, foi referência de esquerda no Brasil, e que enterra seu passado a cada dia.
Duas crianças de 30 anos brincando de bola, no frio, uma menina e um menino. Ela muito ligeira, mas em desvantagem de anos de construção de gênero, logo perde a bola para ele, que então alfineta perguntando se ela não vai roubar de volta. Ele rola a bola pra esquerda, para a direita, e ela tenta sem sucesso roubar na ponta do pé. Nada. Vira 180 graus, passa para cima, para baixo, com aquele barulhinho de sola de tênis travando no chão, ficam uns tantos minutos e nada dela conseguir. De repente ela para, bota as duas mãos na cintura, olha bem firme na cara dele, que segura um sorriso de sarcasmo na boca, e começa a sambar. Todos caem na gargalhada, ele, ela, as crianças de mais ou menos trinta anos, e claro que eu também. Ela, ainda embriagada das risadas, vira para ele e diz:
“A gente tinha era que gravar um comercial assim para a Copa!!!”
Eu, ainda rindo, pergunto se ela gravaria mesmo um comercial para o malfadado megaevento, pensando em todas as implicações e comprometimentos que isto traria. E ela, sem pestanejar:
“Mas é claro!!! Imagina só o quanto a gente não poderia mudar o mundo gravando um comercial para a Copa!!!”.
E eu, entendendo que não havia outra coisa a fazer, caí na gargalhada, assim como ela e os demais presentes. Esperta como era, completou com a cereja do bolo, na mais plena e mais sintética caracterização do PT:
“Ou então a gente podia abrir uma ONG!”.
Só rindo mesmo.



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