segunda-feira, 26 de maio de 2014

Vamos usar a Copa para mudar o mundo? Só que não.


Lá vou eu para mais um bate-volta Rio-São Paulo, coisa relâmpago bem à moda paulistana (ou seria à moda carioca em São Paulo?). Numa destas, encontro com vários bons amigos, naquele futebol-churrasco-cerveja, difícil dar errado.

Reunidos entre risadas, bolas-fora e goles, revejo um grupo de gente mais que boa, quase todos antigos moradores do CRUSP, trinta e poucos, negros, vários com seus filhos, tantos professores ou em alguma profissão relacionada à educação. Raras exceções, existe ali uma questão que é um tanto geracional: boa parte desses meus amigos vivem a memória de ser/estar próximo do PT da periferia de São Paulo dos anos 80. Viver essa memória de lutas e boas recordações, parece virar um salvo-conduto para esconder o amargo do real PT, Realpolitik, aquele da real cidade de São Paulo, sacudida nesta mesma semana pelas greves de motoristas e cobradores - taxada por Haddad de “ilegal” - e de professores - que juntaram mais de 15 mil na rua, um ano depois do descumprimento do acordo da greve de 2013.

Mesmo com essa divergência entre nós, a companhia sempre muito agradável faz com que a gente ria de nossas diferenças e siga convivendo naquela linha “daqui a um tempo vamos nos encontrar de novo, tomar mais cerveja e vamos continuar a nos provocar mutuamente”, uma versão bon vivant de "a história há de nos julgar". E numa dessas risadas aconteceu uma cena de alguns poucos minutos que definiu magistralmente o raciocínio deste partido que, 20 anos atrás, foi referência de esquerda no Brasil, e que enterra seu passado a cada dia.

Duas crianças de 30 anos brincando de bola, no frio, uma menina e um menino. Ela muito ligeira, mas em desvantagem de anos de construção de gênero, logo perde a bola para ele, que então alfineta perguntando se ela não vai roubar de volta. Ele rola a bola pra esquerda, para a direita, e ela tenta sem sucesso roubar na ponta do pé. Nada. Vira 180 graus, passa para cima, para baixo, com aquele barulhinho de sola de tênis travando no chão, ficam uns tantos minutos e nada dela conseguir. De repente ela para, bota as duas mãos na cintura, olha bem firme na cara dele, que segura um sorriso de sarcasmo na boca, e começa a sambar. Todos caem na gargalhada, ele, ela, as crianças de mais ou menos trinta anos, e claro que eu também. Ela, ainda embriagada das risadas, vira para ele e diz:

“A gente tinha era que gravar um comercial assim para a Copa!!!”

Eu, ainda rindo, pergunto se ela gravaria mesmo um comercial para o malfadado megaevento, pensando em todas as implicações e comprometimentos que isto traria. E ela, sem pestanejar:

“Mas é claro!!! Imagina só o quanto a gente não poderia mudar o mundo gravando um comercial para a Copa!!!”.

E eu, entendendo que não havia outra coisa a fazer, caí na gargalhada, assim como ela e os demais presentes. Esperta como era, completou com a cereja do bolo, na mais plena e mais sintética caracterização do PT:

“Ou então a gente podia abrir uma ONG!”.

Só rindo mesmo.






quinta-feira, 22 de maio de 2014

Corrida maluca pela isenção do vestibular: a quem interessa?

Fiquei na dúvida se postava sobre essa história aqui no blog, afinal de contas é uma história sobre o Rio, onde eu moro. Mas dado que o blog é de viagens, e creio que o surrealismo da situação me permite a classificação, tá valendo.

É nosso primeiro ano da Rede Emancipa de Cursinhos Populares aqui no Rio de Janeiro, e, como de praxe, temos uma grande preocupação: que os alunos não deixem de se inscrever nas provas da universidade pública por conta das altas taxas cobradas. No caso da UERJ, por serem na prática 3 etapas (2 exames de qualificação e um exame discursivo), e cada um ter sua taxa, é possível chegar a desembolsar a bagatela de R$ 187. Por isso a importância da isenção da taxa de inscrição.

Vale lembrar que a isenção de taxas é condição mínima para garantir que o estudante pobre ao menos cogite se inscrever no processo seletivo, o que é por si só um passo importante, já que inúmeros fatores são desencorajantes: a alta concorrência, a facilidade de cursar faculdades privadas, a maratona de provas. Supondo que, apesar de tudo isso, o estudante fique sabendo que há a possibilidade de isenção (pouco divulgada!) e se disponha a tentar consegui-la, ele precisa enfrentar um enorme empecilho: uma burocracia de fazer inveja a Kafka.







É compreensível a preocupação com a coisa pública, a importância de haver meios para evitar ao máximo possíveis fraudes. Mas muito me estranha que para uma quantidade tão absurda de documentos não haja um prazo minimamente razoável. A solicitação de isenção foi aberta no dia 21/05 e encerra em 23/05!

A UERJ é uma universidade muito importante: além de ser bastante reconhecida em diversas áreas, há mais de 10 anos possui a importante conquista da reserva de vagas para negros e para a escola pública. Isso faz com que seja nítida a composição racial, em que, diferente de muitas universidades no país, estudantes negros são boa parte dos estudantes nos corredores e rampas.

É tão evidente ver um contraste menor entre quem anda nas ruas, nos ônibus e quem senta nos bancos da universidade ou transita pelos seus elevadores, que estudantes de Engenharia de outras universidades apelidaram, pensaram eles pejorativamente, a instituição de "Congo". O tiro saiu pela culatra: "o Congo" é título carregado com muito orgulho pelos seus estudantes (ou pelo menos pela parcela mais saudável deles). Mas até chegar no "Congo", há muita estrada a percorrer pelo estudante do ensino médio...

Imaginando que fosse diminuir a burocracia e facilitar a possibilidade de mais alunos tentarem a UERJ, cadastramos a Rede Emancipa como cursinho comunitário que pode pleitear isenção. Ledo engano. É apenas um código a mais a ser preenchido, mas pelo menos ganhamos um dia a mais para a entrega dos documentos. Os alunos ainda precisam entrar no sistema necessariamente entre 21 e 23/05, precisam preencher vários campos, e aí começa a farra das declarações.

Primeiro que estamos vivendo, por diversas razões, um verdadeira onda de (justas) greves na educação - algo que já compromete um dos principais documentos: comprovante de escolaridade emitido pela escola. Suponho que o estudante ou deve esperar que alguém fure greve para obter o documento, ou arrumar "o que der" para comprovar.

Depois as comprovações de renda, a começar pelo estudante: trabalha? quantas fontes de renda? comprovante de todas elas. Não trabalha? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.

Mora com quantas pessoas? Anexar documento de todas elas. Não trabalham? Declaração de próprio punho "explicando a situação", datada, assinada pelo solicitante, e por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF.

Trabalha e é funcionário público? Contracheque. Trabalha e é aposentado/pensionista? Contracheque. Até aí tudo bem. Começa a complicar com o celetista: cópia do contraceque mais a folha de identificação da carteira de trabalho, mais a folha do contrato, mas todas as folhas de atualização deste contrato.

Além do mais, imagino que não apenas eu tive dificuldade de entender a diferença entre o trabalhador autônomo e o trabalhador do mercado informal. Para ambos os casos, a pessoa deve trazer uma cópia de comprovante de renda (que em se tratando de autônomo me parece meio complicado, que dirá no caso do "trabalhador do mercado informal"). Não esquecer a famigerada declaração de próprio punho indicando o que faz, quanto ganha por mês, datada e assinada pelo familiar, pelo solicitante, por duas testemunhas que não sejam da família, com nome completo e CPF. Ah, e não deixe de declarar programas sociais: Bolsa-família incluso (não seria suficiente presumir que o recebimento de Bolsa-família já justificaria a isenção???).

Detalhe básico: estas informações não constam do edital de isenção. A minúcia dos documentos só é descoberta depois de se acessar o sistema (ah, sempre o sistema...), aquele que só abre pelo período de 72 horas. E de que adianta um moderno sistema, se é preciso pegar uma fila na entrega dos documentos, que serão conferidos manualmente? Mistério.

Não basta ser pobre: tem que ralar pra provar. Ou fazer o que se espera dadas as bizarras condições desta foma de pedir isenção: desistir.

Ainda bem que aprendemos a ser teimosos: de tanta teima, a isenção de taxas de vestibular enfim passou a existir lá nos anos 1990. Teimaremos até que ela seja pensada para seres humanos, não para alienígenas que achem normal o mundo dos carimbadores malucos.

Pra encerrar, toca Raul.





quarta-feira, 14 de maio de 2014

Outra mulher silenciada: Nahui Olin, uma mexicana de vanguarda


Minha paixão pelo México começou com Frida Kahlo, mas em breve foi se estendendo aos mais múltiplos aspectos do país, tendo a arte e a revolução sempre um peso maior. Além de Frida, uma outra mulher revolucionária ligada à história mexicana foi Tina Modotti, que conheci pelo presente mais do que querido de um amigo: ele me deu a biografia Modotti em quadrinhos. E agora, depois de voltar do país que muito me encanta, mais uma mulher forte adicionada às paixões mexicanas: Nahui Olin.
Quadro de Dr Atl retratando a artista Nahui Olin

Seu nome ficou me martelando a memória. Um nome distinto, dono de uns olhos muito grandes em um mural de Rivera na Secretaría de la Educación Pública. Na verdade, foi um nome adotado, proposto por seu companheiro Dr Atl, e que significa em nahuatl (língua asteca) "perpétuo movimento" (como não amar?).

Mural "Dia de los Muertos" de Diego Rivera. Olhando com atenção, seguindo a caveira mais à direita do plano de fundo, há um homem gordo de chapéu, que seria o próprio Rivera. À sua esquerda está uma mulher de chapéu, Lupe Marín, sua segunda esposa. E um pouco abaixo deles está uma figura feminina em que aparece apenas um grande olho com longos cílios: Nahui Olin.


Quando cheguei de viagem tratei de procurar sobre essa mulher, que pelo que me contaram por lá, era considerada uma das mais lindas e ousadas de seu tempo, livre, artista de vanguarda, poeta e pintora: uma feminista. Nas buscas em português, não consegui encontrar quase nada sobre ela. E aí me deu aquela inquietude, angustiada com o silêncio sistemático às mulheres que ousaram fazer história.

Nahui Olin fotografada por Edward Weston

Nascida Carmén Mondragón numa família rica no México, bem cedo foi estudar na França. Já com dez anos tinha escritos muito lúcidos, retratando a angústia da submissão. É o caso do trecho, originalmente em francês:

"Não sou feliz porque a vida não tem sido feita para mim, porque sou uma chama devorada por si mesma e que não se pode apagar; porque não tenho vencido com liberdade a vida tendo o direito de gostar de prazeres, estando destinada a ser vendida como antigamente os escravos, a um marido..."



Nahui teve diversos casamentos, maridos e amantes, muitos deles célebres, a quem frequentemente dão mais atenção do que a ela mesma: Manuel Rodriguez Lozanos, Gerardo Murilo, Dr. Atl, e mais tantos outros supostos e anônimos. Era incômoda para a sociedade de antes e de hoje, por ser dona de seu corpo: usava minissaia nos anos 1920, posou desnuda para Edward Weston (que foi companheiro de Tina Modotti), Antonio Garduño e Diego Rivera.



Fotografada por Antonio Garduño


O erotismo é marca forte em sua estética. É o caso do poema "Em minhas meias":


Em minhas meias
 
uma coisa  
que é minha carne  
que se mira
sentindo 
prazer
 

e são
meias

de seda  
de cor 
negra
que têm
uma coisa
dentro
que se
mira
de longe
de perto
com prazer

—cá—
 

nas minhas
meias
uma coisa
que se mira
com gula
e
por mais que se diga
é minha carne
a que se vê

A TRAVÉS DA
 
seda
das minhas meias






Como muitas das mulheres fortes, se tornou um pouco mito, ao mesmo tempo que um tanto incômoda. É curioso como em alguns dos sites que tratam de seu trabalho, retratem traços de seus quadros como "infantis". Ou de tratarem da "louca" que teria se tornado no fim da vida, por perambular pelas ruas falando sozinha. Por outro lado, é bem difícil encontrar escritos seus, já em espanhol ou francês, que dirá em português. Nahuí Olin parece estar sendo mais falada pelo olhar da sociedade de sua época (revivido pelo conservadorismo contemporâneo) do que por sua própria expressão. Não seria a primeira mulher a ser silenciada por conta de uma estética e uma política de vanguarda.

Quadros pintados por Nahui Olin, em que retrata o próprio corpo
No México parece  haver atualmente um novo interesse sobre sua vida e obra. Que saibamos mais sobre ela sobre novas óticas, para evitar o simplismo dos rótulos, e para compreender melhor as mulheres de hoje ao olhar para as de ontem. A liberdade ainda parece machucar aqueles acostumados a submeter.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A história do contador de histórias

Todo Carnaval tem seu fim, ainda que levemos conosco a memória da festa. Com a boca mordiscada de pimenta e o peito cheio de saudade, ontem me despedi do México, como bem disse John Reed, rebelde. Queria contar tantas coisas, mas por incapacidade/impossibilidade e para poupar a paciência de quem lê, a despedida vai ser relatando um personagem conhecido no centro histórico da Cidade do México.

Uma amiga me contou que havia lindíssimos murais do Rivera na Secretaria de Educación Pública (SEP), e lá fui eu conhecê-los. O lugar estava bastante vazio, só eu, uma meia dúzia de funcionários circulantes, até a hora que chegou um grupo de três argentinos com cara de turista e um senhor baixinho, menor que eu, cabelos brancos, rosto queimado de sol, por volta de uns 60 anos, com uns 3 ou 4 dentes na boca, e postura napoleônica. Narrava apaixonado a história épica de um Rivera comunista e provocador. Como não sabia lá a recepção que teria se chegasse ao lado do grupo, fui passo a passo me aproximando para tentar "pescar" a explicação. Até que fui notada rapidamente e convidada a ouvir a história.

Contava que Diego Rivera havia sido convidado para pintar os murais da SEP no México pós-revolução, e descrevia com uma riqueza de detalhes cada um dos murais. Contou de quando o ministro lhe censurou o poema que falava em transformar moedas em punhais para o povo; de quando entrou em disputas com o crítico de arte Salvador Novo; dos inúmeros casos de Rivera com mulheres; da assinatura de foice e martelo, comunista convicto que era; da representação de elementos tradicionais da cultura mexicana, como os povos pré-hispânicos, o dia dos mortos; de como os elementos industriais representavam a fundição de uma nação e de um povo; do desprezo profundo de Rivera pelo soldado, pelo padre e pelo capitalista.

Em dado momento lhe fotografei, e risonho, disse que por favor contactasse seu advogado, pois ele, Señor Arturo Aguilar González, tinha um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, e que caso fosse publicada, eu terei que lhe indenizar pesadamente. Disse que não mais trabalhava, porque já fez muito isso. Contava de seus amigos alemães, ou das italianas que vieram conhecer Rivera com ele. Dava detalhes sobre a vida de Tina Modotti, de Nahui Olli, Siqueiros, Zapata e tantos outros personagens de seu país. Dizia que o povo mexicano é muito briguento, e que não aceita assim qualquer coisa que lhes impunha. Contava com desprezo das mulheres que tingem cabelos para esconder sua origem indígena e dos turistas que vem ao México para conhecer Acapulco sem mergulhar no vasto mar cultural de muitas civilizações desse país encantador.

Enquanto contava suas histórias em frente a cada mural tirei muitas fotos tentando registrar um pouco da história que nos foi contada. A arte muralista é tão rica de detalhes, monumental e imponente, que uma fotografia lhe empobrece e impede a contemplação que lhe é intrínseca. Como coisa de bruxo, nem o Señor Arturo e nenhum mural que fotografei na SEP foi registrada na minha câmera. De contador de história a personagem, o senhor Arturo fica na minha memória como síntese desse México, rebelde, indignado, colorido, alegre e orgulhoso. Hasta luego!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

As greves são o terremoto do Brasil

Desde que cheguei aqui no México senti de cara a mudança do clima. A sensação que tinha era do inverno paulistano, tudo muito seco, a ponto de sangrar o nariz e rachar os lábios. No DF parece que tem a hora da chuva: faz calor durante o dia e água no fim da tarde. Como não amenizava a secura, presumi que era a poluição.

Aí cheguei em Toluca e veio o frio de verdade, 5 graus. E mais seco ainda! Foi quando descobri que estava a 2600 metros de altitude. Nunca fui tão alto, pelo menos não fisicamente... Chega a fazer negativo no inverno, e a neve que cai dá nome ao vulcão daqui: Nevado.



Não foi essa a maior surpresa: estava sentadinha quando de repente me deu uma tontura. Pensei que era pressão baixa (vai que era efeito retardado do mezcal de ontem?), mas tudo continuou a mexer. Quando olhei para os lados e vi gente correndo e indo pra fora do prédio, é que entendi que estava presenciando meu primeiro terremoto...
Passado o choque inicial, conversei com meninas do DF, que se assustaram com meu espanto. Lembraram do terremoto grande ocorrido nos anos 1980, e também contaram que lá na Cidade do México é um pouco pior. A cidade dos astecas era toda banhada por uma lagoa que foi aterrada, para a construção dos vários monumentos. Resultado: vários prédios caindo para o lado, inclusive a Catedral que fica no Centro Histórico. Quem mandou mexer com os astecas?
Catedral Metropolitana, já meio tortinha, dá pra perceber?

Curioso é um terremoto justo no dia em que chegam notícias do Rio que dão conta de uma forte greve de professores do estado e do município, além da greve dos rodoviários. Isso para não falar da greve dos garis de BH, das ocupações em Porto Alegre e Natal, ato em São Paulo... A terra tremeu até aqui...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Em busca do horizonte perdido

Não nasci pros ambientes fechados. Quando o infinito do horizonte (o encontro do céu e do mar) é seu ponto de partida, não ver a luz do sol e o passar do tempo é castigo. É o caso de ficar o dia todo num hotel que se pretende imperial, ar condicionado, trabalhadores engravatados prontos para servir especialmente àqueles que só conhecem os lugares quando vão de táxi.



Muito diferente dos dias intensos no DF, com suas inúmeras praças arborizadas, prédio oitocentistas, cores vivas. No caminho pro hotel onde foi a sede do Congresso, viadutos e vias expressas cinzentas. Nada parecido com o louco vaivém das centenas de pessoas pelo centro em cada cruzamento que vi na Cidade do México. Não vi por aqui crianças sorridentes e bochechudas brincando, nem camelôs cantando suas mercadorias nos transportes.



Mas sim conversei bastante por aqui. Me interessou especialmente o movimento Yo Soy 132. Foi um marco de mobilização como não se viu desde 1968, protagonizado por estudantes de uma universidade particular, a Universidade Iberoamericana da Cidade do México. Durante a campanha presidência, Peña Nieto foi a esta universidade e foi recebido com um escracho tão potente que se escondeu no banheiro. O escracho, organizado por 131 estudantes, colocou em xeque um massacre ocorrido meses antes, e para variar escondido pela mídia. O nome Yo Soy 132 se refere a “ser mais um“ (algo que me remete à ideia de “camisa 12“), pois muitos passaram a ser perseguidos, e o que defendiam foi amplamente apoiado por vários setores, inclusive internacionalmente.

Mas como sempre se colocam os desafios ao movimento: ao mesmo tempo que é preciso evitar os personalismos, também é preciso ter um mínimo de unidade de ação. Ser contra Peña Nieto unificou milhares de estudantes, mas e depois? Até onde se vai a unidade? Até onde se decide coletivamente mantendo a unidade na diversidade?

Fico muito feliz de saber que estou na construção de duas experiências que apresentam algumas possibilidades para estas questões. Uma é a Rede Emancipa de cursinhos populares, e a outra é o Juntos. Colocando novas questões e fazendo experiências, vamos avançando. Melhor do que colocar questões pelo simples prazer da abstração, tão ao gosto da academia sem compromisso com transformar o mundo.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Cores, sabores e fogueira de vaidades




Se antes já me parecia, agora se confirma a ideia que tinha do México como um lugar colorido: não só as roupas, mas as casas, a comida, as luzes da cidade do México nos monumentos (dignos do nome). Estou completamente encantada com o DF (como chamam a capital que se conurba com outras várias cidades da zona metropolitana).


Monumento à Revolução (com as amigas do DF)

Zócalo, o principal ponto do centro histórico

 É tudo muito vivo. A começar pela comida: comi uma coisa que achei prudente perguntar pelo nome depois. Era crocante e tinha antenas: chapulines, como o colorado. Depois descobri que eram como minigafanhotos muito gostosos. Se você é fresco/a com comida, não vá ao México. Seus anticorpos podem não estar preparados. Eu particularmente to gostando bastante, principalmente porque tudo é picante, até quando dizem que não é. Melhor dos mundos pra baiana.


Quesadillas "grasentas" (fritas como pastel)

O novo e o velho estão sempre convivendo

Close up nas quesadillas à prova de gente fresca





Agora que vim para o congresso aqui em Toluca as coisas me parecem um pouco mais cinzas. De volta aquela sensação de aeroporto, congresso em hotel “plaza imperial“, formalidades e um certa dose de puxasaquismo que me irritam profundamente. Felizmente uma amiga da graduaçao e uma professora argentina foram como uma boia de simpatia nesse oceano de vaidades. Deusmelivre de precisar de 5 pessoas pra carregar meu ego como véu de noiva.


A Lupita (Virgem de Guadalupe) está em todos os lugares



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Frida, Rivera e os povos originários


Intenso. O dia  e o México bem definidos em uma palavra. Poderia ficar muitas horas descrevendo cada passo do longo dia, mas acho que dentre as múltiplas cores, palavras que ainda dançam na boca procurando os fonemas que me faltam, pedacinhos da linda Coyocán, sabores que queimam a boca, simpatia de cada um que conheci, a breve experiência que passei aqui (como tudo na vida) é inesgotável na recriação pelas palavras.
Uma das esquinas de Coyocán, senhora vendendo adelas, bonecas que representam as revolucionárias mexicanas.




Conheci algumas meninas muito legais que se dispuseram a mostrar um pouco da cidade e outra que me recebeu na casa de sua mãe em Coyocán. Coyocán é um bairro muito peculiar: ainda que muito turístico, ainda tem cara de uma cidade do interior, e era de fato um pueblo antes de ser incorporado ao Distrito Federal. Um bairro com casas muito típicas, reduto da boemia, dos artistas, em especial da que mais me encanta: Frida Kahlo.




Minha prioridade desde o momento em que sonhava em vir até o México foi visitar a Casa Azul, onde morou Frida quando pequena, e mais tarde com Diego Rivera. Chegamos antes de abrir e já tinha fila – aí começa a parte de incômodo, porque quando a expectativa é alta, no nível do sonho, não precisa muito para falta correspondência. Mas apesar da fila, da cara de coisa para turista ver, do ingresso caro (100 pesos, algo como 17 reais), de cobrarem taxa para tirar foto (me pergunto se agradaria os donos da casa...), apesar de tudo isso, o lugar é incrível.



Dá para entender um pouco mais da arte de Frida depois de ver como organizou o espaço ao seu redor, tudo parecia milimetricamente pensado na imensa casa colorida. O acervo de quadros não é tão grande (devem estar por aí passeando os museus do mundo) mas muitos esboços bastante significativos e fotografias raras estavam na exposição. A cama com espelho a paleta de tintas com trechos do diário, a cozinha organizada à moda tradicional, muitas e muitas e muitas referências às culturas pré-hispânicas, de peças arqueológicas, máscaras, às conhecidas peças de roupa que Frida sempre fez questão de usar.




Também me interessou muito os documentos, fotos e vídeos de Frida e Diego com Trotsky e Natália, que foram acolhidos por eles na sua chegada ao México antes do lamentável assassinato na esteira dos expurgos stalinistas. Muitos elementos da obra de Frida e Diego referem-se explicitamente ao marxismo – algo claramente incomôdo para muitos abstratos críticos de arte.



Depois fomos à casa (casa é pouco: era um sítio de 4 hectares com um verdadeiro palácio monumental) construído por Rivera, com mais de 2 mil peças arqueológicas (ele chegou a ter quase 60 mil peças arqueológicas, o que nos deixou um pouco entalado na garganta – afinal é um acervo particular, não é de todos os mexicanos e muito menos dos povos de onde as peças foram retiradas). Mas o lugar é incrível, havia alguns esboços como o do mural projetado para o Rockefeller Center que foi destruido porque tinha um operário com o rosto de Lenin. Inúmeras referências aos povos indígenas daqui, desde as referências arquitetônicas (as meninas falaram que era como um pequeno resumo do que eu veria nas pirâmides, que não vai dar pra ver dessa vez), pinturas no teto, as próprias peças digamos que... “tomadas emprestadas” para não dizer outra coisa..., e mesmo a forma como se integra a construção com a vegetação local.

De repente me tomou uma tristeza, quando pensei o quanto sou ignorante de minha própria história, o quanto não sei sobre os povos indígenas, o quanto nos sonegam de nós mesmos. O movimento negro conseguiu conquistas importantes quanto ao ensino da história da África e dos africanos no Brasil, ainda que se necessite avançar e muito. Mas a história indígena é tão marginalizada, que só conhecemos uma ou outra história contada do ponto de vista do pitoresco, do bizarro, quase uma alegoria. Não conhecemos as resistências, as lutas, o que passou aqui a não ser pelo ponto de vista europeu. O indígena é até hoje visto como alguém que falta algo, não pleno. Algumas vezes me disseram que parte dos povos originários do Brasil era bastante dócil, não muito afeita a guerras. Mas isso não me convence muito. Acho que essa sonegação é parte do processo de negar aquilo que nos é fundante, e que pode estar aflorando naquilo que às vezes sequer percebemos, porque estamos imersos demais, contaminados demais pelo olhar colonizado.



sábado, 3 de maio de 2014

Primeiros passos: de aeroportos e colonizações

O dia começou cedo, pegando o vôo de madrugada. Vi pela primeira vez a Cordilheira dos Andes lá do alto, que coisa mais linda! Depois de uma breve escala em Lima, eu e o Alexandre Vannuchi Leme (estampado na minha camiseta comemorativa de 30 anos do DCE Livre da USP) pegamos o vôo rumo à Cidade do México.

Nenhuma novidade no ambiente insuportavelmente asséptico de aeroporto: a sensação de que, à exceção do idioma, poderia ser qualquer outro aeroporto do planeta. Essa regularidade aos olhos e ao corpo (entrega papel, mostra documento, passa a mala no bloqueio, pega a fila, entra no avião, senta na poltrona, escuta procedimentos de segurança, serve a comida de bordo, fila de novo, mostra papel e etc etc etc) me deixa um tanto entediada. Ainda mais quando não tem companhia. Nesse vôo ainda tinha um grupo de senhoras gaúchas extremamente emperuadas que contribuiram para a minha impaciência. Mas nada que sonecas não resolvam.

Aí o piloto avisa que falta pouco pra chegar. E eu nas nuvens, literalmente, daquelas brancas tipo barba de Deus de história em quadrinho, fui olhando pela janelinha do avião a terra ficar mais perto: e de repente começa a escorrer água pela janela. A emoção escorreu por fora de mim, deixando meu rosto seco. A cidade me pareceu bastante plana, até o ponto lá ao longe onde dava para ver umas montanhas que me pareceram enormes. E a mancha urbana era de perder de vista. Foi a primeira coisa que me deu a sensação de semelhança com São Paulo.

Quando eu saí do aeroporto, essa sensação foi aumentando cada vez mais: o metrô lembra os trens da CPTM, um pouco mais acabadinhos (ou seja, um pouco melhor do que os trens da Supervia), mas com uma malha enorme, muitas estações e linhas. E a cada estação, a cada passagem, a cena familiar dos marreteiros vendendo bala, doce, gilete, fone de ouvido, brinquedo de criança, meia calça, creme para varizes, CDs, geladinho (sacolé/chup-chup), roupa, tudo isso em cada esquina. Mas aqui no México eles não são negros ou nordestinos como em São Paulo ou no Rio: a cara dos explorados aqui é a cara da América, dos povos que por anos foram subjugados pelos europeus e aqui principalmente pelo Tio Sam, vizinho rico do norte.

El Pueblo Mexicano: Foto de Tina Modotti.


E assim, geração a geração, fomos aprendendo mais ou menos explicitamente, que a nossa cara não é bonita porque não é a cara do colonizador, fomos aprendendo a tentar deixar de ser nós mesmos para ser o que nunca seremos.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho

Estou virando campeã de postagens inaugurais de blogs, e não vou prometer que com este será diferente. Vai que não prometendo enfim consigo cumprir?

Já que sempre que posto algo num blog fico tempos sem escrever novamente, desta vez resolvi criar um blog propositalmente passageiro: um blog de viagem. E a inauguração dessa vez tem pitada de uma ansiedade muito grande, mariposas voando no estômago, escapulindo pela boca quase. Vou pra um lugar sempre sonhei conhecer: MÉXICO!

Uma vez um amigo me falou que eu gostaria muito de lá porque parece com a minha Bahia: as pessoas são felizes, usam roupas coloridas e adoram pimenta. Resolvi tirar a prova, já planejo ir há mais de 10 anos e dessa vez apareceu a oportunidade.

Eu odeio arrumar mala, mas dessa vez eu até gostei - me fez pensar no que estarei carregando na volta... Lembrança se apaga, se guarda e se reinventa, o blog é um jeito de recontar uns dias de jornada.

E agora me voy pra terra de Zapata. Na companhia de Lila Downs, devidamente adicionada à lista de divas preferidas... Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho = Caminale despacito!



Zapata se queda (Lila Downs)

Son las 3 de la mañana,
dicen que pena un santito,
Bajito yo oigo que dice:
Caminale despacito ay mamá,
Caminale despacito

mi sueño me dice no vallas,
mis piernas me dicen tantito,
y cuando ya me doy cuenta caramba,
me muevo poco a poquito ay mamá,
me muevo poco a poquito.

Seras tu Zapata,
el que escucho aquí,
con tu luz perpetua,
que en tus ojos ví.

En mi mente se oye,
que me dice así,
En mi mente se oye
que me dice así

Por la sombra de la selva,
se escucho un disparo,
y cayo un gallo negro,
por la calle de milagro.

Si tu dices que me quieres
con el todo al todo,
y te vas tu, conmigo,
levantamos polvo.

Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
se dibuja el sereno,
por todo mi camino

Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
no hay ni miedo ni ruda,
sobre mi destino.

Son las 3 de la mañana,
dicen que pena un santito,
Bajito yo oigo que dice:
Caminale despacito ay mamá,
Caminale despacito

mi sueño me dice no vallas,
mis piernas me dicen tantito,
y cuando ya me doy cuenta caramba,
me muevo poco a poquito ay mamá,
me muevo poco a poquito.

Seras tu Zapata,
el que escucho aquí,
con tu luz perpetua,
que en tus ojos ví.

En mi mente se oye,
que me dice así,
Que en mi mente se oye
que me dice así

Por la sombra de la selva,
se escucha un disparo,
y cayo un gallo negro,
por la calle de milagro.

Si tu dices que me quieres
con el todo al todo,
y te vas tu, conmigo,
levantamos polvo.

Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
se dibuja el sereno,
por todo mi camino

Ay ay ay ay,
cuando sueño contigo,
no hay ni miedo ni ruda,
sobre mi destino.