sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tite, CBF e muita coisa estranha

Hoje o texto da da grande amiga Cibele Lima, uma das mulheres que conheço que mais entende de futebol. Mesmo torcendo para times diferentes, concordamos em muitas coisas, e uma delas essencialmente: A crise da CBF é a crise de "muita coisa estranha" que se passa nos bastidores da cartolagem.
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*Por Cibele Lima

Agora todo mundo quer encontrar um culpado para o fracasso da seleção brasileira. E o que mais me impressiona é que em nenhum momento se fala do fundamental, a estrutura corrupta que hoje sustenta o futebol nacional. Fala-se do Dunga, mas em nenhum momento a imprensa esportiva procura responder algumas perguntas elementares: Porque ele ainda estava à frente da seleção? Porque insistir em determinados jogadores? Quais as relações de interesse que (obviamente) estão por trás disso? 

Tampouco se fala sobre o fato de que o presidente da entidade Marco Polo Del Nero é um dos três brasileiros envolvidos no esquema de corrupçãona FIFA que tem sido investigado pelo FBI. E ninguém acha “estranho” que a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão de jogos, não foi citada até agora nesta investigação.

Nem mesmo sobre o fato de Neymar (que não jogou a Copa América), maior estrela do time, ser investigado por crime financeiro no Brasil e naEspanha.

Isso tudo sem contar a promiscuidade financeira envolvendo os estádios da copa do mundo, cujas construtoras responsáveis estão sendo acusadas na operação lava-jato. São tantos absurdos que nem cabem nesse texto.

Aliás, a camisa da seleção brasileira combina bastante com a multidão que a usou como uniforme dos atos “anticorrupção”. Deveriam mandar uma de presente para o Michel Temer. Enquanto isso, torcidas organizadas que protestam contra a corrupção são brutalmente reprimidas pela PM.

O futebol brasileiro é uma máquina capitalista administrada pelo que há de pior: empresários, cartolas e uma longa casta política que ainda carrega a vergonha de ter entre seus maiores dirigentes alguns órfãos da ditadura militar.

Será que nada disso tem a ver com a decadência da seleção brasileira?

Enquanto isso, o que temos de fato assistido é um distanciamento cada vez maior entre a torcida e seus times. Tanto que a muito não se conversa sobre o futebol (no sentido mais específico da palavra) da seleção. Nem sequer se acompanha seus jogadores (quem aqui assistiu os últimos jogos do elenco da seleção em seus clubes?). Desde a demissão do Dunga ouço as pessoas falando do Tite e do Corinthians em todos os lugares. Nós corintianas pra lamentar, a turma anti vibrando. Mas sobre como isso pode revolucionar a seleção, pouco se fala. Nem mesmo a imprensa esportiva faz dessa a principal discussão.

Mas entre os clubes e suas torcidas as coisas também não andam muito bem. Ingressos com preços nas alturas e jogos que não empolgam fazem, a cada rodada, recordes de baixo publico. Até mesmo pela TV os jogos tem perdido audiência.
Como resposta à violência, jogos de torcida única única se mostram uma resposta ineficaz que desvia o foco do problema enquanto as  mortes fora dos estádios continuam.

Enquanto isso a vida de milhares de crianças e jovens é usada como moeda de aposta para gerar cifras milionárias. Alimentados de sonhos, muitos meninos são submetidos a condições precárias e insalubres de treino e alimentação, enquanto os que tem maiores “investimento” e melhores empresários para participar de peneiras e seleções são os que tem chances reais.

E veja só. Este texto foi quase totalmente escrito no masculino. Porque enquanto o futebol masculino vive neste pântano, o futebol feminino batalha diariamente para ocupar seu mais que merecido lugar. Enquanto a atacante Marta é a maior campeã do mundo de todos os tempos, levando 5 vezes o prêmio de melhor do mundo (que homem conseguiu essa façanha?) e passando a marca do Pelé em numero de gols com a camisa da seleção, apesar disso nós não podemos sequercomprar a camisa da seleção feminina de futebol.


Nada é pra sempre, assim como a crise do futebol brasileiro também não é. No entanto, uma mudança que não seja estrutural vai continuar apenas maquiando e personalizando o problema. E o que vamos fazer? O futebol brasileiro precisa de uma revolução, precisa ser democrático e representativo, e é nesse sentido que atletas, torcedoras e torcedores tem se organizado. O futebol é, em várias épocas e locais do mundo, ferramenta de politização que impulsiona revoluções.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A necessidade de romper com a velha esquerda é tão pungente quanto a de rechaçar a direita



Cinco mortos numa madrugada fria. Este é o saldo de uma política deliberada da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, órgão municipal cuja orientação foi a de retirar cobertores, colchões e papelões dos moradores de rua, de acordo com a Pastoral da Rua da Arquidiocese de São Paulo. Isto numa semana em que a temperatura atingiu recordes mínimos: zero graus em 13 de junho.

A GCM procura justificar o injustificável “rapa” pelo discurso de que os moradores estariam “privatizando” o espaço público. Fernando Haddad afirma ser uma medida contra a refavelização de praças públicas. Se o termo privado pode de alguma maneira ser usado com propriedade no caso, é o fato de serem pessoas privadas de quase tudo – de políticas públicas, de moradia, e no caso dos 5, inclusive da vida.

Mais indignante do que a orientação e as justificativas, tem sido o expediente corriqueiro por meio das diversas mídias de apoiadores acríticos da prefeitura em defesa da atitude abominável. Chegamos mesmo ao fundo do poço quando aqueles que se reivindicam, ainda que com traços pálidos, como de esquerda, podem tolerar vidas perdidas em meio ao sofrimento do frio. Não precisa sequer ser de esquerda para achar uma total perda de parâmetros da humanidade deixar pessoas escorrerem as vidas lentamente enquanto tremem para se aquecer, na falta de teto, na falta de humanidade, na falta de respeito, na falta de emprego. A miséria da política institucional vai mesmo muito longe caso não condenemos severamente este absurdo.

O argumento de fundo para sustentar é mais do mesmo: o do menos pior. “Imagine se fosse aquele apresentador insensível”, “imagine se fosse o picolé de xuxu”, “imagine se fosse um dos antigos prefeitos”, seria muito pior. O pior já chegou, e faz tempo. O pior é nos tornarmos reféns da falta de alternativa por acreditar no discurso do menos pior, e tolerar o frio e a fome em nome de uma melhoria ou outra. Prefeito não é síndico, prefeito é cargo político, posição de discussões públicas, de projetos de cidade. Quem “limpa” gente como quem limpa o chão, diz que as vidas dos “sem tudo” vale menos que a poeira.

Caso semelhante passa na Venezuela. Onde outrora o povo brandia a constituição que ajudou a escrever e cultivou a referência de Chávez por fomentar a organização dos de baixo, vemos a triste disputa entre um governo que se diz de esquerda e põe a população faminta a esperar horas a fio em filas para tentar o mínimo abastecimento para suas famílias. Estamos falando de escassez tão profunda que não tem eufemismo que dê conta de da dimensão do que estamos tratando: o povo venezuelano está com fome. Por outro lado, uma direita brandindo cinicamente o argumento da democracia. Enquanto o povo está fome, burocratas do governo e figurões da oposição de direita fazem compras em Aruba, devidamente registradas em selfies.

Nós de esquerda temos uma grande responsabilidade com as próximas gerações. Teremos de que explicar a elas que ser de esquerda não tem nada a ver com ser insensível à fome e ao frio. Teremos de dizê-las que nós de esquerda soubemos nos levantar contra as tiranias de todo tipo, inclusive as que falsificam nosso nome, como as russas e as chinesas. Teremos de insistir que as decisões de cúpula em nome da manutenção do poder não nos representam, que defendemos um projeto profundamente humano e a mais radical democracia.


O dia que se abre mão desta disputa, a direita já ganhou, porque não faz mais sentido se dizer de esquerda. Melhor chamar de governo, apenas. Nada mais.