segunda-feira, 5 de maio de 2014

Frida, Rivera e os povos originários


Intenso. O dia  e o México bem definidos em uma palavra. Poderia ficar muitas horas descrevendo cada passo do longo dia, mas acho que dentre as múltiplas cores, palavras que ainda dançam na boca procurando os fonemas que me faltam, pedacinhos da linda Coyocán, sabores que queimam a boca, simpatia de cada um que conheci, a breve experiência que passei aqui (como tudo na vida) é inesgotável na recriação pelas palavras.
Uma das esquinas de Coyocán, senhora vendendo adelas, bonecas que representam as revolucionárias mexicanas.




Conheci algumas meninas muito legais que se dispuseram a mostrar um pouco da cidade e outra que me recebeu na casa de sua mãe em Coyocán. Coyocán é um bairro muito peculiar: ainda que muito turístico, ainda tem cara de uma cidade do interior, e era de fato um pueblo antes de ser incorporado ao Distrito Federal. Um bairro com casas muito típicas, reduto da boemia, dos artistas, em especial da que mais me encanta: Frida Kahlo.




Minha prioridade desde o momento em que sonhava em vir até o México foi visitar a Casa Azul, onde morou Frida quando pequena, e mais tarde com Diego Rivera. Chegamos antes de abrir e já tinha fila – aí começa a parte de incômodo, porque quando a expectativa é alta, no nível do sonho, não precisa muito para falta correspondência. Mas apesar da fila, da cara de coisa para turista ver, do ingresso caro (100 pesos, algo como 17 reais), de cobrarem taxa para tirar foto (me pergunto se agradaria os donos da casa...), apesar de tudo isso, o lugar é incrível.



Dá para entender um pouco mais da arte de Frida depois de ver como organizou o espaço ao seu redor, tudo parecia milimetricamente pensado na imensa casa colorida. O acervo de quadros não é tão grande (devem estar por aí passeando os museus do mundo) mas muitos esboços bastante significativos e fotografias raras estavam na exposição. A cama com espelho a paleta de tintas com trechos do diário, a cozinha organizada à moda tradicional, muitas e muitas e muitas referências às culturas pré-hispânicas, de peças arqueológicas, máscaras, às conhecidas peças de roupa que Frida sempre fez questão de usar.




Também me interessou muito os documentos, fotos e vídeos de Frida e Diego com Trotsky e Natália, que foram acolhidos por eles na sua chegada ao México antes do lamentável assassinato na esteira dos expurgos stalinistas. Muitos elementos da obra de Frida e Diego referem-se explicitamente ao marxismo – algo claramente incomôdo para muitos abstratos críticos de arte.



Depois fomos à casa (casa é pouco: era um sítio de 4 hectares com um verdadeiro palácio monumental) construído por Rivera, com mais de 2 mil peças arqueológicas (ele chegou a ter quase 60 mil peças arqueológicas, o que nos deixou um pouco entalado na garganta – afinal é um acervo particular, não é de todos os mexicanos e muito menos dos povos de onde as peças foram retiradas). Mas o lugar é incrível, havia alguns esboços como o do mural projetado para o Rockefeller Center que foi destruido porque tinha um operário com o rosto de Lenin. Inúmeras referências aos povos indígenas daqui, desde as referências arquitetônicas (as meninas falaram que era como um pequeno resumo do que eu veria nas pirâmides, que não vai dar pra ver dessa vez), pinturas no teto, as próprias peças digamos que... “tomadas emprestadas” para não dizer outra coisa..., e mesmo a forma como se integra a construção com a vegetação local.

De repente me tomou uma tristeza, quando pensei o quanto sou ignorante de minha própria história, o quanto não sei sobre os povos indígenas, o quanto nos sonegam de nós mesmos. O movimento negro conseguiu conquistas importantes quanto ao ensino da história da África e dos africanos no Brasil, ainda que se necessite avançar e muito. Mas a história indígena é tão marginalizada, que só conhecemos uma ou outra história contada do ponto de vista do pitoresco, do bizarro, quase uma alegoria. Não conhecemos as resistências, as lutas, o que passou aqui a não ser pelo ponto de vista europeu. O indígena é até hoje visto como alguém que falta algo, não pleno. Algumas vezes me disseram que parte dos povos originários do Brasil era bastante dócil, não muito afeita a guerras. Mas isso não me convence muito. Acho que essa sonegação é parte do processo de negar aquilo que nos é fundante, e que pode estar aflorando naquilo que às vezes sequer percebemos, porque estamos imersos demais, contaminados demais pelo olhar colonizado.



2 comentários: