segunda-feira, 12 de maio de 2014

A história do contador de histórias

Todo Carnaval tem seu fim, ainda que levemos conosco a memória da festa. Com a boca mordiscada de pimenta e o peito cheio de saudade, ontem me despedi do México, como bem disse John Reed, rebelde. Queria contar tantas coisas, mas por incapacidade/impossibilidade e para poupar a paciência de quem lê, a despedida vai ser relatando um personagem conhecido no centro histórico da Cidade do México.

Uma amiga me contou que havia lindíssimos murais do Rivera na Secretaria de Educación Pública (SEP), e lá fui eu conhecê-los. O lugar estava bastante vazio, só eu, uma meia dúzia de funcionários circulantes, até a hora que chegou um grupo de três argentinos com cara de turista e um senhor baixinho, menor que eu, cabelos brancos, rosto queimado de sol, por volta de uns 60 anos, com uns 3 ou 4 dentes na boca, e postura napoleônica. Narrava apaixonado a história épica de um Rivera comunista e provocador. Como não sabia lá a recepção que teria se chegasse ao lado do grupo, fui passo a passo me aproximando para tentar "pescar" a explicação. Até que fui notada rapidamente e convidada a ouvir a história.

Contava que Diego Rivera havia sido convidado para pintar os murais da SEP no México pós-revolução, e descrevia com uma riqueza de detalhes cada um dos murais. Contou de quando o ministro lhe censurou o poema que falava em transformar moedas em punhais para o povo; de quando entrou em disputas com o crítico de arte Salvador Novo; dos inúmeros casos de Rivera com mulheres; da assinatura de foice e martelo, comunista convicto que era; da representação de elementos tradicionais da cultura mexicana, como os povos pré-hispânicos, o dia dos mortos; de como os elementos industriais representavam a fundição de uma nação e de um povo; do desprezo profundo de Rivera pelo soldado, pelo padre e pelo capitalista.

Em dado momento lhe fotografei, e risonho, disse que por favor contactasse seu advogado, pois ele, Señor Arturo Aguilar González, tinha um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, e que caso fosse publicada, eu terei que lhe indenizar pesadamente. Disse que não mais trabalhava, porque já fez muito isso. Contava de seus amigos alemães, ou das italianas que vieram conhecer Rivera com ele. Dava detalhes sobre a vida de Tina Modotti, de Nahui Olli, Siqueiros, Zapata e tantos outros personagens de seu país. Dizia que o povo mexicano é muito briguento, e que não aceita assim qualquer coisa que lhes impunha. Contava com desprezo das mulheres que tingem cabelos para esconder sua origem indígena e dos turistas que vem ao México para conhecer Acapulco sem mergulhar no vasto mar cultural de muitas civilizações desse país encantador.

Enquanto contava suas histórias em frente a cada mural tirei muitas fotos tentando registrar um pouco da história que nos foi contada. A arte muralista é tão rica de detalhes, monumental e imponente, que uma fotografia lhe empobrece e impede a contemplação que lhe é intrínseca. Como coisa de bruxo, nem o Señor Arturo e nenhum mural que fotografei na SEP foi registrada na minha câmera. De contador de história a personagem, o senhor Arturo fica na minha memória como síntese desse México, rebelde, indignado, colorido, alegre e orgulhoso. Hasta luego!

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