quinta-feira, 9 de julho de 2015

Do trancamento da BR-415 na greve das UEBAs: um balanço necessário

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello


Como tudo na história, há disputa sobre que lições podemos tirar de nossas lutas. Entrar em greve, realizar uma ocupação, trancar uma rodovia, fazer um escracho, apitaço ou panelaço, não existe nenhuma regra universal que diz o que é mais adequado em cada contexto de luta. Ou melhor, talvez a única regra nestes casos seja saber avaliar bem a correlação de forças de quem luta e contra quem se luta. Um exemplo de polêmica entre distintas táticas foi em junho de 2013: no debate sobre a “tática black block” e os desdobramentos dessas ações para o refluxo principalmente dos ativistas mais novos. 

Não vejo problema algum de realizar ações mais radicalizadas, desde que elas sejam construídas e propostas pelo conjunto da categoria. Ontem, por exemplo, dia 8 de julho de 2015, o movimento de moradia “Nós da Sul”, que organiza ocupações no bairro Grajaú São Paulo, ocupou a Secretaria de Habitação com o intuito de reverter a criminosa reintegração de posse de seu terreno. Há algumas semanas o Movimento do Sem Teto da Bahia organizou um fechamento da pista da Rodovia Ilhéus-Itabuna (BR-415) para garantir que a ocupação no Teotônio Vilela também não fosse despejada, conseguindo conquistar seu direito à moradia. Quando os movimentos discutem e decidem coletivamente nas suas instâncias de base a necessidade de ações que gerem repercussões para a sua luta, elas tem maiores condições de chegar a conquistas.

Atualmente volta-se a esta polêmica na greve das universidades estaduais da Bahia (UEBA). Uma greve desencadeada pela irresponsabilidade do governo petista para com a educação, num contexto de ajuste que vem sendo implementado tanto em nível federal quanto estadual. O governo dá ênfase no aumento de 10% do orçamento global, mas não explica que boa parte foi para pagar a demanda de pessoal, dos professores dos novos cursos – e a falta de professores ainda assim é uma triste realidade (como podemos perceber nos novos cursos de Engenharia da UESC); o governo “Rui Corta” convenientemente silencia sobre a redução de R$ 19 milhões nos últimos 2 anos para as verbas de custeio – aquele papel higiênico que faltou, os terceirizados que ficam sem receber, a negativa do financiamento para apresentação de trabalhos em eventos científicos, a restrição para compra de material básico como papel sulfite, piloto, material de laboratório. É nítido que a população percebe que os atuais governos – federal e estadual – estão cortando verbas da educação, da saúde, dos direitos previdenciários, e por isso nossa greve tem tido bastante respaldo.

Desde o começo tenho composto o comando de greve da UESC, que tem organizado importantes ações: diversas manifestações, tanto em Ilhéus e Itabuna como em Salvador; aulas públicas debatendo orçamento da educação, a lei 7176/97, o documento “Pátria Educadora”, cafés da manhã no pórtico da universidade, panfletagens, caminhadas com a ecológica “bicicleta de som” (substituindo o “carro de som”), intervenção na torcida durante o jogo do Colo-colo (com faixas denunciando o descaso com as UEBAs), integração com os servidores do IFBA que também tem construído uma greve, manifestações contra a retirada de direitos representadas pelas terceirizações do PL 4330, reuniões com a reitoria para exigir clareza quanto à real situação do quadro de vagas, reuniões com os estudantes para caminharmos juntos em defesa da universidade, exibição de filme com debate (Cinegreve), só para citar algumas. Acredito que todas estas ações foram fundamentais pelo esforço de sua construção coletiva, pela pressão que tem realizado sobre o governo, o qual não tem demonstrado disposição ao diálogo, sem apresentar contra-propostas minimamente satisfatórias.

Diferente daqueles que preferem lamentos no corredor a uma eventual reposição de aula, aposto na capacidade organizada que temos de conquistar vitórias, e no instrumento da greve como um dos mais capazes de levar a elas. É uma pena que ainda haja pessoas que se confortam em seu individualismo quando vemos a deterioração pelas quais nossas condições de trabalho tem passado, ou que acham que criticar o governo é “abrir espaço para a direita”, ou então que precisaríamos aguardar um edílico momento perfeito para fazermos uma greve, já que passamos por um período de crise. O momento de defender nossos direitos é já, e vacilar nessa determinação pode significar uma derrota de longa duração.




Dito isto, acho que é importante discutirmos com serenidade a queima de pneus na BR-415 realizada dia 09 de julho com um número reduzido de estudantes e ainda mais reduzido de professores. Como havia dito acima, não pela ação em si de queimar pneus ou fechar a BR, mas pela forma como foi construída.

É bem verdade, tivemos uma visibilidade midiática – TV, rádio e muitas postagens Facebook repercutiram essa ação. Mas talvez a razão da repercussão seja uma forma de tiro pela culatra. Em primeiro lugar, porque o debate, que poderia ter sido realizado amplamente entre os professores que tem construído e apoiado a greve, não foi realizado de forma satisfatória, o que explica a surpresa de muitos colegas ao chegarem à universidade nesta quinta-feira e se depararem com a queima de pneus. Por meio desse método – debate ponderado se esta seria a tática mais adequada com o conjunto de docentes – seria possível verificar a real aceitação (ou rejeição, o que penso ser o caso) dessa tática no atual momento.

Em segundo lugar porque, no lugar de realizarmos um ato de diálogo que estava planejado para a cidade de Itabuna, explicando o porquê estamos em greve, como o belo ato do último dia 07 em Ilhéus realizado em conjunto com o IFBA, optamos por algo que acabou gerando mais incompreensões que manifestações de apoio.


É natural a pluralidade de visões sobre táticas e concepções de movimento, e é salutar debater estas distintas visões com o conjunto da categoria. O instrumento de uma greve é precioso demais para se perder em equívocos pontuais que possam jogar água no moinho do individualismo. Se nos focarmos em responder às demandas de uma pequena vanguarda ao invés de usarmos toda a nossa capacidade inventiva para mobilizar mais e mais pessoas que defendem uma universidade verdadeiramente pública e de qualidade, podemos desgastar este instrumento que tantos lutadores abnegados se dedicaram a consolidar como a maior expressão de força de nossa classe.