quarta-feira, 14 de maio de 2014

Outra mulher silenciada: Nahui Olin, uma mexicana de vanguarda


Minha paixão pelo México começou com Frida Kahlo, mas em breve foi se estendendo aos mais múltiplos aspectos do país, tendo a arte e a revolução sempre um peso maior. Além de Frida, uma outra mulher revolucionária ligada à história mexicana foi Tina Modotti, que conheci pelo presente mais do que querido de um amigo: ele me deu a biografia Modotti em quadrinhos. E agora, depois de voltar do país que muito me encanta, mais uma mulher forte adicionada às paixões mexicanas: Nahui Olin.
Quadro de Dr Atl retratando a artista Nahui Olin

Seu nome ficou me martelando a memória. Um nome distinto, dono de uns olhos muito grandes em um mural de Rivera na Secretaría de la Educación Pública. Na verdade, foi um nome adotado, proposto por seu companheiro Dr Atl, e que significa em nahuatl (língua asteca) "perpétuo movimento" (como não amar?).

Mural "Dia de los Muertos" de Diego Rivera. Olhando com atenção, seguindo a caveira mais à direita do plano de fundo, há um homem gordo de chapéu, que seria o próprio Rivera. À sua esquerda está uma mulher de chapéu, Lupe Marín, sua segunda esposa. E um pouco abaixo deles está uma figura feminina em que aparece apenas um grande olho com longos cílios: Nahui Olin.


Quando cheguei de viagem tratei de procurar sobre essa mulher, que pelo que me contaram por lá, era considerada uma das mais lindas e ousadas de seu tempo, livre, artista de vanguarda, poeta e pintora: uma feminista. Nas buscas em português, não consegui encontrar quase nada sobre ela. E aí me deu aquela inquietude, angustiada com o silêncio sistemático às mulheres que ousaram fazer história.

Nahui Olin fotografada por Edward Weston

Nascida Carmén Mondragón numa família rica no México, bem cedo foi estudar na França. Já com dez anos tinha escritos muito lúcidos, retratando a angústia da submissão. É o caso do trecho, originalmente em francês:

"Não sou feliz porque a vida não tem sido feita para mim, porque sou uma chama devorada por si mesma e que não se pode apagar; porque não tenho vencido com liberdade a vida tendo o direito de gostar de prazeres, estando destinada a ser vendida como antigamente os escravos, a um marido..."



Nahui teve diversos casamentos, maridos e amantes, muitos deles célebres, a quem frequentemente dão mais atenção do que a ela mesma: Manuel Rodriguez Lozanos, Gerardo Murilo, Dr. Atl, e mais tantos outros supostos e anônimos. Era incômoda para a sociedade de antes e de hoje, por ser dona de seu corpo: usava minissaia nos anos 1920, posou desnuda para Edward Weston (que foi companheiro de Tina Modotti), Antonio Garduño e Diego Rivera.



Fotografada por Antonio Garduño


O erotismo é marca forte em sua estética. É o caso do poema "Em minhas meias":


Em minhas meias
 
uma coisa  
que é minha carne  
que se mira
sentindo 
prazer
 

e são
meias

de seda  
de cor 
negra
que têm
uma coisa
dentro
que se
mira
de longe
de perto
com prazer

—cá—
 

nas minhas
meias
uma coisa
que se mira
com gula
e
por mais que se diga
é minha carne
a que se vê

A TRAVÉS DA
 
seda
das minhas meias






Como muitas das mulheres fortes, se tornou um pouco mito, ao mesmo tempo que um tanto incômoda. É curioso como em alguns dos sites que tratam de seu trabalho, retratem traços de seus quadros como "infantis". Ou de tratarem da "louca" que teria se tornado no fim da vida, por perambular pelas ruas falando sozinha. Por outro lado, é bem difícil encontrar escritos seus, já em espanhol ou francês, que dirá em português. Nahuí Olin parece estar sendo mais falada pelo olhar da sociedade de sua época (revivido pelo conservadorismo contemporâneo) do que por sua própria expressão. Não seria a primeira mulher a ser silenciada por conta de uma estética e uma política de vanguarda.

Quadros pintados por Nahui Olin, em que retrata o próprio corpo
No México parece  haver atualmente um novo interesse sobre sua vida e obra. Que saibamos mais sobre ela sobre novas óticas, para evitar o simplismo dos rótulos, e para compreender melhor as mulheres de hoje ao olhar para as de ontem. A liberdade ainda parece machucar aqueles acostumados a submeter.

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