Nenhuma novidade no ambiente insuportavelmente asséptico de aeroporto: a sensação de que, à exceção do idioma, poderia ser qualquer outro aeroporto do planeta. Essa regularidade aos olhos e ao corpo (entrega papel, mostra documento, passa a mala no bloqueio, pega a fila, entra no avião, senta na poltrona, escuta procedimentos de segurança, serve a comida de bordo, fila de novo, mostra papel e etc etc etc) me deixa um tanto entediada. Ainda mais quando não tem companhia. Nesse vôo ainda tinha um grupo de senhoras gaúchas extremamente emperuadas que contribuiram para a minha impaciência. Mas nada que sonecas não resolvam.
Aí o piloto avisa que falta pouco pra chegar. E eu nas nuvens, literalmente, daquelas brancas tipo barba de Deus de história em quadrinho, fui olhando pela janelinha do avião a terra ficar mais perto: e de repente começa a escorrer água pela janela. A emoção escorreu por fora de mim, deixando meu rosto seco. A cidade me pareceu bastante plana, até o ponto lá ao longe onde dava para ver umas montanhas que me pareceram enormes. E a mancha urbana era de perder de vista. Foi a primeira coisa que me deu a sensação de semelhança com São Paulo.
Quando eu saí do aeroporto, essa sensação foi aumentando cada vez mais: o metrô lembra os trens da CPTM, um pouco mais acabadinhos (ou seja, um pouco melhor do que os trens da Supervia), mas com uma malha enorme, muitas estações e linhas. E a cada estação, a cada passagem, a cena familiar dos marreteiros vendendo bala, doce, gilete, fone de ouvido, brinquedo de criança, meia calça, creme para varizes, CDs, geladinho (sacolé/chup-chup), roupa, tudo isso em cada esquina. Mas aqui no México eles não são negros ou nordestinos como em São Paulo ou no Rio: a cara dos explorados aqui é a cara da América, dos povos que por anos foram subjugados pelos europeus e aqui principalmente pelo Tio Sam, vizinho rico do norte.
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| El Pueblo Mexicano: Foto de Tina Modotti. |
E assim, geração a geração, fomos aprendendo mais ou menos explicitamente, que a nossa cara não é bonita porque não é a cara do colonizador, fomos aprendendo a tentar deixar de ser nós mesmos para ser o que nunca seremos.

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