quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ode à Mordaça - Mario Benedetti

Descobri que hoje é aniversário de nascimento de Mario Benedetti, meu poeta mais querido: para mim Benedetti está para poesia assim como Galeano para a prosa. Duas das pérolas que o Uruguai nos brinda.



Em tempos que não nos cabe TEMER, o poema "Ode à Mordaça" parece bastante apropriado. Como não achei o poema em português na internet, resolvi transcrever aqui.





Ode à Mordaça

Não creio em você
mordaça
mas vou dizer
por que não creio
como você vê
agora não digo
nem hoje
nem ai

e no entanto
igual solto o verbo
respiro o grito
e armo a blasfêmia

penso
logo insisto

faço inventário
do seu alegre palpitar da miséria
da sua crueldade sem muitas ilusões
da sua ira lustrada
do seu medo
porque mordaça
você
é muitíssimo mais que um pano sujo
é a mão trêmula que te ajuda
é o dono flagrante desta mão
e até o dono canalha do teu dono

porque mordaça
você é muitíssimo mais que um pano sujo
com gosto de boca livre e palavrão
é a lei malvivente do sistema
é a flor bem-morrente da infâmia

penso
logo insisto

a seus cuidados ficam meus lábios apertados
ficam meus incisivos
caninos
e molares
fica minha língua
fica meu discurso
mas não fica porém minha garganta

na minha garganta começo
desde logo
a ser livre
às vezes engulo a saliva amarga
mas não engulo meu rancor salgado

mordaça bárbara
mordaça ingênua
você acredita que não vou falar
porém sim falo
somente com ser
e com estar

penso
logo insisto

que me importa calar
se falamos todos
por todas as paredes
e por todos os signos
que me importa calar
se você já sabe
obscura
que me importa calar
se você já sabe
mordaça
o que vou dizer
porcaria



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tite, CBF e muita coisa estranha

Hoje o texto da da grande amiga Cibele Lima, uma das mulheres que conheço que mais entende de futebol. Mesmo torcendo para times diferentes, concordamos em muitas coisas, e uma delas essencialmente: A crise da CBF é a crise de "muita coisa estranha" que se passa nos bastidores da cartolagem.
________________________________________________________________________________
*Por Cibele Lima

Agora todo mundo quer encontrar um culpado para o fracasso da seleção brasileira. E o que mais me impressiona é que em nenhum momento se fala do fundamental, a estrutura corrupta que hoje sustenta o futebol nacional. Fala-se do Dunga, mas em nenhum momento a imprensa esportiva procura responder algumas perguntas elementares: Porque ele ainda estava à frente da seleção? Porque insistir em determinados jogadores? Quais as relações de interesse que (obviamente) estão por trás disso? 

Tampouco se fala sobre o fato de que o presidente da entidade Marco Polo Del Nero é um dos três brasileiros envolvidos no esquema de corrupçãona FIFA que tem sido investigado pelo FBI. E ninguém acha “estranho” que a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão de jogos, não foi citada até agora nesta investigação.

Nem mesmo sobre o fato de Neymar (que não jogou a Copa América), maior estrela do time, ser investigado por crime financeiro no Brasil e naEspanha.

Isso tudo sem contar a promiscuidade financeira envolvendo os estádios da copa do mundo, cujas construtoras responsáveis estão sendo acusadas na operação lava-jato. São tantos absurdos que nem cabem nesse texto.

Aliás, a camisa da seleção brasileira combina bastante com a multidão que a usou como uniforme dos atos “anticorrupção”. Deveriam mandar uma de presente para o Michel Temer. Enquanto isso, torcidas organizadas que protestam contra a corrupção são brutalmente reprimidas pela PM.

O futebol brasileiro é uma máquina capitalista administrada pelo que há de pior: empresários, cartolas e uma longa casta política que ainda carrega a vergonha de ter entre seus maiores dirigentes alguns órfãos da ditadura militar.

Será que nada disso tem a ver com a decadência da seleção brasileira?

Enquanto isso, o que temos de fato assistido é um distanciamento cada vez maior entre a torcida e seus times. Tanto que a muito não se conversa sobre o futebol (no sentido mais específico da palavra) da seleção. Nem sequer se acompanha seus jogadores (quem aqui assistiu os últimos jogos do elenco da seleção em seus clubes?). Desde a demissão do Dunga ouço as pessoas falando do Tite e do Corinthians em todos os lugares. Nós corintianas pra lamentar, a turma anti vibrando. Mas sobre como isso pode revolucionar a seleção, pouco se fala. Nem mesmo a imprensa esportiva faz dessa a principal discussão.

Mas entre os clubes e suas torcidas as coisas também não andam muito bem. Ingressos com preços nas alturas e jogos que não empolgam fazem, a cada rodada, recordes de baixo publico. Até mesmo pela TV os jogos tem perdido audiência.
Como resposta à violência, jogos de torcida única única se mostram uma resposta ineficaz que desvia o foco do problema enquanto as  mortes fora dos estádios continuam.

Enquanto isso a vida de milhares de crianças e jovens é usada como moeda de aposta para gerar cifras milionárias. Alimentados de sonhos, muitos meninos são submetidos a condições precárias e insalubres de treino e alimentação, enquanto os que tem maiores “investimento” e melhores empresários para participar de peneiras e seleções são os que tem chances reais.

E veja só. Este texto foi quase totalmente escrito no masculino. Porque enquanto o futebol masculino vive neste pântano, o futebol feminino batalha diariamente para ocupar seu mais que merecido lugar. Enquanto a atacante Marta é a maior campeã do mundo de todos os tempos, levando 5 vezes o prêmio de melhor do mundo (que homem conseguiu essa façanha?) e passando a marca do Pelé em numero de gols com a camisa da seleção, apesar disso nós não podemos sequercomprar a camisa da seleção feminina de futebol.


Nada é pra sempre, assim como a crise do futebol brasileiro também não é. No entanto, uma mudança que não seja estrutural vai continuar apenas maquiando e personalizando o problema. E o que vamos fazer? O futebol brasileiro precisa de uma revolução, precisa ser democrático e representativo, e é nesse sentido que atletas, torcedoras e torcedores tem se organizado. O futebol é, em várias épocas e locais do mundo, ferramenta de politização que impulsiona revoluções.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A necessidade de romper com a velha esquerda é tão pungente quanto a de rechaçar a direita



Cinco mortos numa madrugada fria. Este é o saldo de uma política deliberada da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, órgão municipal cuja orientação foi a de retirar cobertores, colchões e papelões dos moradores de rua, de acordo com a Pastoral da Rua da Arquidiocese de São Paulo. Isto numa semana em que a temperatura atingiu recordes mínimos: zero graus em 13 de junho.

A GCM procura justificar o injustificável “rapa” pelo discurso de que os moradores estariam “privatizando” o espaço público. Fernando Haddad afirma ser uma medida contra a refavelização de praças públicas. Se o termo privado pode de alguma maneira ser usado com propriedade no caso, é o fato de serem pessoas privadas de quase tudo – de políticas públicas, de moradia, e no caso dos 5, inclusive da vida.

Mais indignante do que a orientação e as justificativas, tem sido o expediente corriqueiro por meio das diversas mídias de apoiadores acríticos da prefeitura em defesa da atitude abominável. Chegamos mesmo ao fundo do poço quando aqueles que se reivindicam, ainda que com traços pálidos, como de esquerda, podem tolerar vidas perdidas em meio ao sofrimento do frio. Não precisa sequer ser de esquerda para achar uma total perda de parâmetros da humanidade deixar pessoas escorrerem as vidas lentamente enquanto tremem para se aquecer, na falta de teto, na falta de humanidade, na falta de respeito, na falta de emprego. A miséria da política institucional vai mesmo muito longe caso não condenemos severamente este absurdo.

O argumento de fundo para sustentar é mais do mesmo: o do menos pior. “Imagine se fosse aquele apresentador insensível”, “imagine se fosse o picolé de xuxu”, “imagine se fosse um dos antigos prefeitos”, seria muito pior. O pior já chegou, e faz tempo. O pior é nos tornarmos reféns da falta de alternativa por acreditar no discurso do menos pior, e tolerar o frio e a fome em nome de uma melhoria ou outra. Prefeito não é síndico, prefeito é cargo político, posição de discussões públicas, de projetos de cidade. Quem “limpa” gente como quem limpa o chão, diz que as vidas dos “sem tudo” vale menos que a poeira.

Caso semelhante passa na Venezuela. Onde outrora o povo brandia a constituição que ajudou a escrever e cultivou a referência de Chávez por fomentar a organização dos de baixo, vemos a triste disputa entre um governo que se diz de esquerda e põe a população faminta a esperar horas a fio em filas para tentar o mínimo abastecimento para suas famílias. Estamos falando de escassez tão profunda que não tem eufemismo que dê conta de da dimensão do que estamos tratando: o povo venezuelano está com fome. Por outro lado, uma direita brandindo cinicamente o argumento da democracia. Enquanto o povo está fome, burocratas do governo e figurões da oposição de direita fazem compras em Aruba, devidamente registradas em selfies.

Nós de esquerda temos uma grande responsabilidade com as próximas gerações. Teremos de que explicar a elas que ser de esquerda não tem nada a ver com ser insensível à fome e ao frio. Teremos de dizê-las que nós de esquerda soubemos nos levantar contra as tiranias de todo tipo, inclusive as que falsificam nosso nome, como as russas e as chinesas. Teremos de insistir que as decisões de cúpula em nome da manutenção do poder não nos representam, que defendemos um projeto profundamente humano e a mais radical democracia.


O dia que se abre mão desta disputa, a direita já ganhou, porque não faz mais sentido se dizer de esquerda. Melhor chamar de governo, apenas. Nada mais.  

sexta-feira, 18 de março de 2016

Qual democracia?

Outro dia escutei um cozinheiro que reuniu as aves: as galinhas, os gansos, os pavões, os faisões e os patos. E eu escutei um pouco o que o cozinheiro dizia para elas. O cozinheiro perguntava com que molho elas queriam ser comidas. Uma das aves, uma humilde galinha disse: "Nós não queremos ser comidas de maneira nenhuma. O cozinheiro esclareceu: "Isso está fora de questão.". Eu achei esta reunião muito interessante porque é uma metáfora  do mundo. O mundo está organizado de uma forma tal que temos o direito de escolher o molho com que seremos comidos.
Eduardo Galeano




Os recentes acontecimentos parecem ter colocado o Brasil numa espécie de novela, ou, mais atualmente, num seriado político que se pode acompanhar ao vivo. A conjuntura parece a alguns ter virado os pólos magnéticos da Terra, deixando atônitos e confusos aqueles se acostumaram a viver um glorioso mar de estabilidade. Como nossa cultura de debate político ainda não sabe conviver com diferença de opinião, muitas vezes o caminho da violência e da mediocridade argumentativa procura esconder uma dificuldade de colocar em suspenso o que se parecia, há tão pouco tempo, sólido.

A grande armadilha política me parece agora o que se entende por democracia. Possivelmente um conjunto significativo desistiram da leitura do título deste texto, pelo simples fato de democracia vir seguida de um ponto de interrogação. Quem ousaria colocar a democracia em dúvida? A democracia precisa ser uma certeza! Não se pode hesitar em defesa da democracia. Com exceção de um punhado de viúvas da ditadura, quem seria contra a democracia?

Aí é começa a dificuldade: para quem sempre teve a justiça ao seu lado, as movimentações de um setor do judiciário são graves. Levantam argumentos que poucos compreendem. Vemos um brandir ensandecido de artigos, parágrafos e incisos constitucionais bradados de eloquentes togas em todos os espectros políticos possíveis. Normalmente falam em presunção de culpa, grampos ilegais, personalismo de juristas, atentado ao Estado Democrático de Direito com letras maiúsculas. Para quem sempre teve a justiça ao seu lado, estamos vivendo o fim dos tempos.

Sinto muito aos amigos juristas, mas das especificidades jurídicas eu não compreendo. Acho que não sou a única. Mas alguma coisa sobre democracia posso me arriscar a dizer, ou ao menos sobre a falta dela.

Para grande parte da população, a democracia não existe. Ela não existe para a juventude negra e da periferia, que é assassinada brutalmente pela polícia como os 12 mortos do Cabula em Salvador. Ela não existe para Rafael Braga, que foi preso com uma garrafa de Pinho Sol por terrorismo – aliás, que democracia é essa que a presidenta defende ao sancionar uma lei antiterrorista um dia antes do ato convocado com esse mote? A democracia não existe nas abordagens policiais que criminalizam a pobreza sem direito de defesa. Não me parece nada democrático não pagar o décimo terceiro dos servidores, como no Rio de Janeiro, parcelar os salários dos servidores do Rio Grande do Sul, ou cortar o adicional de insalubridade de todos os servidores estaduais da Bahia. Não me parece democrático aumentar as passagens nas capitais depois de junho de 2013 ter mostrado a ​todos que esse modelo de cidade está falido. Contar as moedinhas pra comprar o pão e ver o preço de tudo aumentar junto com o desemprego também não é nada democrático.

Não me parece democrático Eduardo Cunha ser presidente da Câmara e seguir aprovando absurdos, sendo cotado para a linha sucessória de um governo em frangalhos. Também não me parece democrático deixar aos engravatados que foram financiados por empreiteiras, bancos, latifundiários e tudo de mais “fino” da realpolitik brasileira decidirem quem e como deve governar o país. Ao mesmo tempo, me parece temerário depositar todas as esperanças de democracia no judiciário brasileiro, uma das instituições mais conservadoras do Brasil.

O fato é que a Operação Lava Jato causou um terremoto na conjuntura brasileira, levantando argumentos pró e contra de forma e de conteúdo. E hoje parece haver uma tentativa de colocar a Operação Lava Jato como responsável pelo fim da democracia, o que é um grave equívoco. Do ponto de vista da forma, alguns levantam argumentos que minha ignorância jurídica pode até aceitar. Deixarei os debates jurídicos aos juristas, mas como sujeita política que sou, quero saber do conteúdo das relações entre todos os partidos e as empreiteiras e bancos. Todos, sem exceção: quem pagou o que a quem? Teve propina? Quanto de dinheiro público foi para as obras da Copa? Quanto foi para as campanhas? Quem teve voto comprado? Quem tem conta na Suíça? Porque se grita tanto quando se fala de Lula, e pouco se fala sobre Marcelo Odebrecht? Quando no país se viu um empresário chegar de jatinho para ser preso? Isso é bom para a democracia ou é ruim?

Para quem nunca teve a justiça do seu lado, prender o ricaço do jatinho e o político corrupto é justiça. E amigos juristas que aguentaram ler até aqui, vocês precisam se esforçar mais para convencer dos seus complexos argumentos a população que acha que todo político é igual, corrupto e safado, e que deveria ser preso. Porque para eles isso é justiça.

A questão é que a nossa democracia é tão frágil que não sustenta 10 minutos de discordância sobre o caráter da Lava jato. E isso me preocupa muito, porque estamos aqui fazendo uma clivagem muito perigosa: entre aqueles que são pela democracia e aqueles que são contra a corrupção. Como ser por uma democracia que não investigue corruptos e corruptores? Como ser contra a corrupção e não enxergar que os direitosos estão até o fim do pescoço envolvidos nos mesmos esquemas?

Espero sinceramente que as investigações avancem e não retrocedam. Que se investigue mais e não menos. Que se possa revolver a fundo o passado e não deixar pedra sobre pedra daqueles que enganam o povo para viver do luxo, bebendo caros vinhos com seus amigos, seja em Atibaia, em Paris ou nos covis de Brasília.

Ao nomear Lula ministro, Dilma não comete nada ilegal. Trata-se de uma discussão sobre legitimidade: se até Lula resistiu em aceitar, é porque sabia que obter foro privilegiado é praticamente sua confissão de culpa. Esse é o problema de uma concepção de democracia que se esgota na possibilidade de votar num líder salvador da pátria. E o que os jornais chamam de “habilidade de articulação” de Lula se configura como uma tentativa de abafar a Operação Lava Jato e não torná-la pública. Não podemos permitir um recuo nas investigações, sob o risco de acabar em pizza as acusações contra todos os políticos que têm responsabilidade nos esquemas de perpetuação do poder: como por exemplo Aécio Neves, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e todos os outros que sempre mandaram no país, aos quais o PT e PCdoB optaram por fortalecer.


Portanto não contem comigo para defender uma democracia que tolera abafar esquemas. Muitos companheiros e companheiras morreram defendendo que democracia é mais do que só votar, e sim que o povo decida os rumos da política. Também não esperem me ver em atos de verde-amarelo que agridem quem não adota o figurino – com estes a marcha a ré é certa. Ou apostamos na nossa capacidade de criar algo novo, ou nos tornaremos espectadores dos acontecimentos surreais que aparecem sobre os nossos olhos. Tomemos as ruas pelos motivos certos: nenhum passo atrás em nossos direitos, inclusive o direito de decidir quem deve governar pelo voto, e não se engalfinhar em atos de rua pelo direito de escolher o molho do ajuste com que seremos comidos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Erro mestre

Última aula da disciplina, peço pros alunos fazerem uma avaliação do que acharam.
- Avaliação pra quê professora? A gente sempre escreve mentira nessas coisas!
- Mas se vocês escreverem mentira, como é que eu posso melhorar na disciplina?
- É que a gente tem medo de escrever o que pensa e levar nota baixa. Tem um monte de professor que faz isso.
O pior é que ele está certo: e o pressuposto por trás disso é que professor não erra.
A gente erra sim, erra rude às vezes. No fim das contas, várias da turma fizeram muitos apontamentos de coisas (espero que não seja mentira) que não vão acontecer mais na próxima vez, porque eu nunca tinha nem parado para pensar. Certamente outros erros acontecerão. E assim a gente aprende.
Que triste daquele que não tenta fazer algo diferente por medo de errar. Talvez não aprenda nunca.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Do trancamento da BR-415 na greve das UEBAs: um balanço necessário

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello


Como tudo na história, há disputa sobre que lições podemos tirar de nossas lutas. Entrar em greve, realizar uma ocupação, trancar uma rodovia, fazer um escracho, apitaço ou panelaço, não existe nenhuma regra universal que diz o que é mais adequado em cada contexto de luta. Ou melhor, talvez a única regra nestes casos seja saber avaliar bem a correlação de forças de quem luta e contra quem se luta. Um exemplo de polêmica entre distintas táticas foi em junho de 2013: no debate sobre a “tática black block” e os desdobramentos dessas ações para o refluxo principalmente dos ativistas mais novos. 

Não vejo problema algum de realizar ações mais radicalizadas, desde que elas sejam construídas e propostas pelo conjunto da categoria. Ontem, por exemplo, dia 8 de julho de 2015, o movimento de moradia “Nós da Sul”, que organiza ocupações no bairro Grajaú São Paulo, ocupou a Secretaria de Habitação com o intuito de reverter a criminosa reintegração de posse de seu terreno. Há algumas semanas o Movimento do Sem Teto da Bahia organizou um fechamento da pista da Rodovia Ilhéus-Itabuna (BR-415) para garantir que a ocupação no Teotônio Vilela também não fosse despejada, conseguindo conquistar seu direito à moradia. Quando os movimentos discutem e decidem coletivamente nas suas instâncias de base a necessidade de ações que gerem repercussões para a sua luta, elas tem maiores condições de chegar a conquistas.

Atualmente volta-se a esta polêmica na greve das universidades estaduais da Bahia (UEBA). Uma greve desencadeada pela irresponsabilidade do governo petista para com a educação, num contexto de ajuste que vem sendo implementado tanto em nível federal quanto estadual. O governo dá ênfase no aumento de 10% do orçamento global, mas não explica que boa parte foi para pagar a demanda de pessoal, dos professores dos novos cursos – e a falta de professores ainda assim é uma triste realidade (como podemos perceber nos novos cursos de Engenharia da UESC); o governo “Rui Corta” convenientemente silencia sobre a redução de R$ 19 milhões nos últimos 2 anos para as verbas de custeio – aquele papel higiênico que faltou, os terceirizados que ficam sem receber, a negativa do financiamento para apresentação de trabalhos em eventos científicos, a restrição para compra de material básico como papel sulfite, piloto, material de laboratório. É nítido que a população percebe que os atuais governos – federal e estadual – estão cortando verbas da educação, da saúde, dos direitos previdenciários, e por isso nossa greve tem tido bastante respaldo.

Desde o começo tenho composto o comando de greve da UESC, que tem organizado importantes ações: diversas manifestações, tanto em Ilhéus e Itabuna como em Salvador; aulas públicas debatendo orçamento da educação, a lei 7176/97, o documento “Pátria Educadora”, cafés da manhã no pórtico da universidade, panfletagens, caminhadas com a ecológica “bicicleta de som” (substituindo o “carro de som”), intervenção na torcida durante o jogo do Colo-colo (com faixas denunciando o descaso com as UEBAs), integração com os servidores do IFBA que também tem construído uma greve, manifestações contra a retirada de direitos representadas pelas terceirizações do PL 4330, reuniões com a reitoria para exigir clareza quanto à real situação do quadro de vagas, reuniões com os estudantes para caminharmos juntos em defesa da universidade, exibição de filme com debate (Cinegreve), só para citar algumas. Acredito que todas estas ações foram fundamentais pelo esforço de sua construção coletiva, pela pressão que tem realizado sobre o governo, o qual não tem demonstrado disposição ao diálogo, sem apresentar contra-propostas minimamente satisfatórias.

Diferente daqueles que preferem lamentos no corredor a uma eventual reposição de aula, aposto na capacidade organizada que temos de conquistar vitórias, e no instrumento da greve como um dos mais capazes de levar a elas. É uma pena que ainda haja pessoas que se confortam em seu individualismo quando vemos a deterioração pelas quais nossas condições de trabalho tem passado, ou que acham que criticar o governo é “abrir espaço para a direita”, ou então que precisaríamos aguardar um edílico momento perfeito para fazermos uma greve, já que passamos por um período de crise. O momento de defender nossos direitos é já, e vacilar nessa determinação pode significar uma derrota de longa duração.




Dito isto, acho que é importante discutirmos com serenidade a queima de pneus na BR-415 realizada dia 09 de julho com um número reduzido de estudantes e ainda mais reduzido de professores. Como havia dito acima, não pela ação em si de queimar pneus ou fechar a BR, mas pela forma como foi construída.

É bem verdade, tivemos uma visibilidade midiática – TV, rádio e muitas postagens Facebook repercutiram essa ação. Mas talvez a razão da repercussão seja uma forma de tiro pela culatra. Em primeiro lugar, porque o debate, que poderia ter sido realizado amplamente entre os professores que tem construído e apoiado a greve, não foi realizado de forma satisfatória, o que explica a surpresa de muitos colegas ao chegarem à universidade nesta quinta-feira e se depararem com a queima de pneus. Por meio desse método – debate ponderado se esta seria a tática mais adequada com o conjunto de docentes – seria possível verificar a real aceitação (ou rejeição, o que penso ser o caso) dessa tática no atual momento.

Em segundo lugar porque, no lugar de realizarmos um ato de diálogo que estava planejado para a cidade de Itabuna, explicando o porquê estamos em greve, como o belo ato do último dia 07 em Ilhéus realizado em conjunto com o IFBA, optamos por algo que acabou gerando mais incompreensões que manifestações de apoio.


É natural a pluralidade de visões sobre táticas e concepções de movimento, e é salutar debater estas distintas visões com o conjunto da categoria. O instrumento de uma greve é precioso demais para se perder em equívocos pontuais que possam jogar água no moinho do individualismo. Se nos focarmos em responder às demandas de uma pequena vanguarda ao invés de usarmos toda a nossa capacidade inventiva para mobilizar mais e mais pessoas que defendem uma universidade verdadeiramente pública e de qualidade, podemos desgastar este instrumento que tantos lutadores abnegados se dedicaram a consolidar como a maior expressão de força de nossa classe.

sábado, 16 de maio de 2015

O viaduto 16 de maio (Salvador-BA) e a revolução dos "pinguinos" chilenos''

Hoje entrei no túnel do tempo: de sopetão uma colega (valeu Luana!) me tirou de minha dormência e me fez lembrar de um outro dia 16 de maio, ocorrido há 14 anos. Revivi meu primeiro grande ato de rua, quando era ainda estudante secundarista, no ano em que fazia parte do grêmio de meu colégio. Até hoje, toda vez que passo pelo Viaduto do Canela em Salvador, penso “esse é o Viaduto 16 de maio”. Como o Aeroporto 2 de julho, sempre foi e sempre será lembrado pelo nome que representa a resistência de quem luta na Bahia. Que bom que o curta "Choque" registra momentos históricos daquele dia.




Naquele dia fomos para a escola determinadas a levar todo mundo para o ato do “Fora ACM”. Em mais um ato típico de sinhôzinho coronel, Toninho Malvadeza violou o painel eletrônico do Senado para saber quem votava como na questão sobre a cassação de Luiz Estevão. Como ninguém aguentava mais as amarras do carlismo, estávamos animados com o grande ato no centro da cidade. Infelizmente as entidades estudantis, àquela época, já brigavam entre si divindo a concentração: a UBES, controlada à mão de ferro pelo PcdoB, chamava o ato na Praça da Piedade; o DCE, aparelhado pelo PT, chamava o ato para o Campo Grande. Evidentemente quem tinha um pingo de senso crítico via algo muito estranho, mas como estávamos determinados a dizer um NÃO ao Carlismo, fomos ao centro na disposição de encher as ruas. Haviam dois adesivos, um dizia “Cassação já”, acho que do PT, o outro era Fora ACM, que devia ser do PcdoB ou da UBES. Colei um de cada no peito, fazendo questão de arrancar fora as letrinhas de cada sigla.

A escola toda queria ir pro centro: eu estava no 2o ano do ensino médio, mas o pessoal da 8a série não se aguentava: poderíamos enfim dizer FORA ACM, e não era só no corredor da escola. A diretora disse que precisaríamos de autorização, mas acho que muita gente acabou saindo furtivamente para o ponto de ônibus. Quando os ônibus em direção ao centro passaram, o primeiro lotou, o segundo também e no terceiro ainda foi um tanto de gente.

Lembro que aquela situação de disputa entre a UBES e o DCE fazia sempre os mesmos subirem ao carro de som. E junto com alguns amigos (né Pedro?), conversamos com o grupo de estudantes que mobilizamos e resolvi ir ao carro do som fazer uma fala. No meio de um turbilhão de emoções (nunca tinha falado num microfone e tinha bem muitas centenas de gentes ali) lembro bem de me tremer da cabeça aos pés, mas de manifestar indignada, talvez uns decibeis a mais do que deveria por conta do nervoso, que ali tinham que falar os estudantes e não só a meia dúzia de deputado do PT e do PcdoB que tentavam nos arrebanhar. Não lembro se aplaudiram ou vaiaram, desci ainda trêmula e procurando ver se não tinha perdido ninguém da oittava série em meio ao viaduto do Canela. Mas um tanto satisfeita de ter tido coragem de sair do meu mutismo para dizer algo que sentia e que parecia não ser a única ali.

Estávamos aguardando porque estranhamente a Polícia tinha fechado o viaduto da universidade, uma área federal. Era revoltante: desde a ditadura militar a PM não invadia aquela área, e simplesmente fechou a passagem de um lado a outro do viaduto. E foi então que as bombas começaram, uma a uma, vindo de trás do homens a cavalo com cassetetes. Também foi a primeira vez que tomei uma paulada de cassetete. Foi bem na costela e doeu muito: tropecei quando fugia e nem sei como consegui ficar em pé e correr muito até a Faculdade de Administração da UFBA. Quando a adrenalina passou, me dei conta que tinha torcido o pé, nem percebi enquanto corria. Mas ao olhar a Faculdade, lotada de pessoas e coberta em nuvem de gás, com os vidros quebrados e muitas pessoas deitadas nas mesas da sala de aula com as costas cortadas por estilhaços de bomba, vi que o meu problema nem era dos piores.

Este episódio talvez tenha me marcado tão profundamente que minhas escolhas até hoje tem a ver com as conclusões que tirei deles. Da mesma forma, quem viveu junho de 2013, viveu momentos que não podem ser apagados tão facilmente. Em 2006, a greve geral dos secundaristas chilenos, chamados de Pinguinos, deixou legados para uma grande manifestação pela educação em 2011.


A história está sendo feita hoje. Talvez eu não saiba, mas a greve que construo hoje em minha universidade, como professora, seja o esteio para uma grande greve que virá recheada de vitórias. Talvez pode até ser essa greve que virá. Se não lutarmos, como saber das conquistas que virão?