Quando saí da sala do cursinho que funciona na Igreja, encontrei Jesus. Não, nada que possa parecer uma epifania, iluminação ou aparição: Cosme Silva de Jesus, negro, grisalho, com os rastros da idade esculpidos no rosto, conversava animadamente sobre sua saída da cadeia.
Estava rindo, visivelmente surpreso, mais muito à vontade: acabava de conhecer o primeiro ateu de sua vida na conversa com um novo amigo. Dizia não conseguir entender como podia ser tão pacato e ateu: como se duvidar da existência divina fosse uma ansiedade muito maior do que a de Lhe prestar contas.
Seu Jesus encontrava-se frustrado com a tentativa de encontrar um grupo de oração - ainda faltavam-lhe R$ 16,50 para inteirar o valor da passagem até o norte do Estado (queria chegar à Bahia), e esperava que encontraria um coração cristão que se compadecesse para tornar o pedido mais convincente.
E eis que até esqueceu o pedido do dinheiro, já que conseguiu encontrar de uma tacada só dois (eu e o outro) sem Jesus no coração, dois tristes da vida, sofrendo em agonia, ou - sabe de nada inocente - numa vida de pecado. Evangelizar foi preciso.
Mas o demônio é ardiloso! A argumentação era fina e cuidadosamente escolhida, envolvendo repertório de parábolas de todos os tipos. Seu Jesus foi direto ao tema da evolução, clamando pela evidência do design inteligente, invocando Darwin. Quando eu falei que era bióloga e que Darwin era um dos assuntos favoritos, a estratégia logo mudou.
Então veio o contra-ataque: encarei de frente, e, com um sorriso, lancei o desafio. Jesus, o problema é o seguinte: vai ficar meio difícil a gente discutir a existência de Deus pela ciência, por uma causa simples. A ciência precisa duvidar, duvidar sempre. O dia que a ciência descobrir uma verdade em que não haja dúvida, é porque deixou de ser ciência. Mas a fé não pode jamais conviver com a dúvida, porque o não questionar é o motor de sua existência. Então, Jesus, a gente podia deixar a César o que é de César.
Ali eu vi Jesus duvidar. Por um momento deu uma risada e apertou minha mão, como quem dissesse que ganhei um round. Mas ele não tinha nome de quem desiste fácil.
"Você fez biologia né? Coisa de cientista que descobre coisas, isso. Cientista é que nem garimpeiro. Eu quando trabalhei no garimpo às vezes tinha uma pilha maior que ele ali. A gente ia no aluvião e aguava, aguava. E depois de um tanto de tempo aquela pilha gigante tava em menos da metade, até acabar. E a gente tinha achado algumas pepitas. Cientista faz isso né? Procura lá umas pepitas no seu estudo..."
Eu ainda estava embasbacada com a perfeição da metáfora e ele veio de sola:
"Então se a senhora acreditou em algum momento que ia encontrar o seu ouro como cientista, quer dizer que em algum momento teve fé em alguma coisa não é? Pois minha senhora, isso que a senhora sentiu, é o mesmo com Jesus!"
Os dois gargalhamos, apertamos as mãos. Antes de ir, Jesus disse que mudou a impressão que tinha dos ateus - havia percebido que "eram gente muito humana". Achei graça.
Fomos cada um para o seu lado, eu com um pouco mais de fé, ele com um pouco mais de dúvida.