sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Renascer: algumas memórias noveleiras

Quando era criança eu passava muito tempo sozinha (ou só com adultos, o que na maioria das vezes era igualmente chato). Como tantas e tantas, minha principal companhia foi durante muito tempo foi a TV. Precisei assistir muita TV para cansar dela., Hoje as crianças tem a internet, a cada dia mais infinita. A TV não - era muito limitada - até porque demorou um tempo até a TV a cabo chegar lá em casa. Lembro claramente de vários coleguinhas da 3a série comentando que TV aberta não dava pra assistit e eu ficar tentando imaginar um aparelho - àquela época um senhor de um caixote de tubos - aberto de forma que inviabilizava assistir. Sabia de nada, inocente.

Acho que a primeira novela que eu acompanhei, de saber trama e nome dos personagens, foi Vamp. Cláudia Ohana de vampira virou uma grande musa. Mas a novela que me marcou de verdade foi Renascer. Primeiro porque, diferente de todas as novelas em que as pessoas falavam como as pessoas de São Paulo ou Rio, em Renascer a trama era na Bahia. Era evidente que um monte de gente estava forçando, tentando falar com sotaque da Bahia, mas algumas pessoas falavam como eu na época (a essa altura já não soo mais de lugar nenhum). Era bom enfim ouvir alguém que soa como você, que parece com você. Nas novelas, parece que todo mundo no mundo é branco, loiro, rico e que toma suco de laranja da jarra de vidro no café da manhã. Chatice é pouco.

E em Renascer tinha aquelas paisagens verdes lindas, trilha sonora com um batuque comendo solto, tinha a maravilhosa Patrícia França com aqueles cabelos soltos e cacheados lindíssimos, tinha um monte de homem gatinho (como não reparar no Marcos Palmeira de 1993?) sem camisa (ainda que vários não soubessem atuar).




É engraçado pensar nas voltas que a vida dá. O meu passado de novela, na Ilhéus que já era passado, encontrando meu futuro, no espaço já tão mudado. O que Jorge Amado eternizou nas suas tocaias, nos seus romances picantes, com as mulheres ou santas ou putas, que faz com que entrecruze os estereótipos que nos causam alguma empatia e alguma rebeldia, continua lá, mas anos à frente.


Não há como entender o hoje sem olhar para esse ontem. A gente vai se achando nesse espanar da poeira do tempo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Paulo Freire que (re)conheci

Paulo Freire é uma daquelas pessoas que ninguém tem coragem de invocar para falar mal. Ainda que a máxima da estupidez da unanimidade costume não ter falhas, até mesmo os seus maiores detratores de alguns anos atrás (lembremos de seu exílio) hoje lhe tecem as maiores loas de sorrisos amarelos. O coitado deve estrebuchar no caixão com usos como o da Prefeitura do Rio de Janeiro, com seus programas mais do que questionáveis, ou de projetos vinculados a bancos multibilionários e afins.

Por outro lado, vale lembrar que essas personalidades unânimes muitas vezes o são mais por reconhecimento do que por conhecimento da obra. Quem acompanhou sua produção (e tive muito gosto de fazê-lo no mestrado) sabe que ideias freireanas não cabem em qualquer contexto. Sobretudo nos autoritários - ainda que possamos discutir fases em sua vasta obra, em nenhuma pode servir de desculpa para relações autoritárias.

Nesta semana ocorreu uma situação daquelas em que você se pega pensando sobre as voltas que a vida dá. Não tive bolsa de mestrado e no segundo ano precisei concluí-lo trabalhando como professora na prefeitura de São Paulo. Cheguei a trabalhar durante três meses em duas escolas simultaneamente: no Euclydes Figueiredo (Vila São Francisco, pertinho de Osasco), dando aula para o Ensino Fundamental, e no Derville Allegretti (Santana), dando aula para o Ensino Médio e Curso Normal. Era uma loucura: trabalhar 60 horas por semana e ainda ter pique para estudar e produzir uma dissertação não foi fácil. Mas foi muito importante para minha formação. Infelizmente tive que fazer a difícil opção de me vincular de uma das escolas ou não teria conseguido concluir o curso, ficando somente no Derville até 2012.



Eis que chega no meu email um link com várias fotos de Paulo Freire, num auditório que me pareceu familiar. Era um planejamento escolar em que o famoso educador sentava à mesa num conhecido tablado. O mesmo tablado em que dei tantas aulas. Essa sensação de voltas do mundo me pareceu muito engraçada. Não conheci Paulo Freire, ele não me conheceu. Isso nunca alterou em nada a minha vida, mas só de saber que pisamos no mesmo local, é como se ele, que habita minha estante e meus sonhos, estivesse um passo mais próximo.



De repente me peguei lembrando de todas as coisas que já passei nesse auditório. Foram muitas reuniões pedagógicas, a maioria sem sentido, feitas porque "a gestão" disse que teria que fazer. Os problemas da escola iam para baixo do tapete, porque urgiam seguir as metas. Foram várias reuniões do Conselho de Escola, algumas vezes como presidenta: umas guardo boas recordações, outras nem tanto: como no dia em que aprovaram o programa de trainee Junior Achievement para "formar jovens empreededores", ou no dia em que um professor reconhecidamente autoritário veio me agredir por eu "estar fazendo política" (e ele não?).

Gostava muito do auditório por poder trazer vídeos, preparar slides e usar o datashow para fugir um pouco dos livros, mas também por sair um pouco da sala de aula. Lembro de algumas aulas sobre biotecnologia, lembro de debates organizados por outros professores, e lembro do momento que talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que fiz como professora do noturno que foi brigar para que tivessem, como nas turmas diurnas, um show de calouros (um sucesso, por sinal!).

De repente todas essas coisas que fiz, é possível que pela distância do espaço e do tempo, ficaram mais especiais, pelo fato de Paulo Freire ter passado ali. Então fiquei pensando nas coisas que fazemos por acharmos importante, e não por ninguém nos dizer que é preciso fazê-las. Tantas colegas fazem coisas muito especiais nas salas de aula por aí, que vão ser tão somente coisas que irão lembrar como as melhores coisas que fizeram. Às vezes farão à revelia de diretoras, às vezes desistirão de fazer pela mesma razão. Mas o fato é que fazem, porque não desistem, a despeito de toda a desvalorização que passam, de ser o que são: educadoras. E para sê-lo, têm que lutar todos os dias, porque acreditar não paga aluguel, nem faz compras do mês, nem cria autonomia pedagógica: o conflito, o debate, a tomada de posição podem fazer com que venham novas conquistas (econômicas e políticas).

E então fiquei feliz por encontrar de novo, depois de tantas voltas, o querido mestre com quem tanto aprendi. Ele está um pouco em mim, como está um pouco em todas as que lutam.

P.S. Para quem sentiu curiosidade, o link das fotos: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/3410


terça-feira, 5 de agosto de 2014

As pepitas de Jesus ex-presidiário

Quando saí da sala do cursinho que funciona na Igreja, encontrei Jesus. Não, nada que possa parecer uma epifania, iluminação ou aparição: Cosme Silva de Jesus, negro, grisalho, com os rastros da idade esculpidos no rosto, conversava animadamente sobre sua saída da cadeia.

Estava rindo, visivelmente surpreso, mais muito à vontade: acabava de conhecer o primeiro ateu de sua vida na conversa com um novo amigo. Dizia não conseguir entender como podia ser tão pacato e ateu: como se duvidar da existência divina fosse uma ansiedade muito maior do que a de Lhe prestar contas.

Seu Jesus encontrava-se frustrado com a tentativa de encontrar um grupo de oração - ainda faltavam-lhe R$ 16,50 para inteirar o valor da passagem até o norte do Estado (queria chegar à Bahia), e esperava que encontraria um coração cristão que se compadecesse para tornar o pedido mais convincente.

E eis que até esqueceu o pedido do dinheiro, já que conseguiu encontrar de uma tacada só dois (eu e o outro) sem Jesus no coração, dois tristes da vida, sofrendo em agonia, ou - sabe de nada inocente - numa vida de pecado. Evangelizar foi preciso.

Mas o demônio é ardiloso! A argumentação era fina e cuidadosamente escolhida, envolvendo repertório de parábolas de todos os tipos. Seu Jesus foi direto ao tema da evolução, clamando pela evidência do design inteligente, invocando Darwin. Quando eu falei que era bióloga e que Darwin era um dos assuntos favoritos, a estratégia logo mudou.

Então veio o contra-ataque: encarei de frente, e, com um sorriso, lancei o desafio. Jesus, o problema é o seguinte: vai ficar meio difícil a gente discutir a existência de Deus pela ciência, por uma causa simples. A ciência precisa duvidar, duvidar sempre. O dia que a ciência descobrir uma verdade em que não haja dúvida, é porque deixou de ser ciência. Mas a fé não pode jamais conviver com a dúvida, porque o não questionar é o motor de sua existência. Então, Jesus, a gente podia deixar a César o que é de César.

Ali eu vi Jesus duvidar. Por um momento deu uma risada e apertou minha mão, como quem dissesse que ganhei um round. Mas ele não tinha nome de quem desiste fácil.



"Você fez biologia né? Coisa de cientista que descobre coisas, isso. Cientista é que nem garimpeiro. Eu quando trabalhei no garimpo às vezes tinha uma pilha maior que ele ali. A gente ia no aluvião e aguava, aguava. E depois de um tanto de tempo aquela pilha gigante tava em menos da metade, até acabar. E a gente tinha achado algumas pepitas. Cientista faz isso né? Procura lá umas pepitas no seu estudo..."

Eu ainda estava embasbacada com a perfeição da metáfora e ele veio de sola:

"Então se a senhora acreditou em algum momento que ia encontrar o seu ouro como cientista, quer dizer que em algum momento teve fé em alguma coisa não é? Pois minha senhora, isso que a senhora sentiu, é o mesmo com Jesus!"

Os dois gargalhamos, apertamos as mãos. Antes de ir, Jesus disse que mudou a impressão que tinha dos ateus - havia percebido que "eram gente muito humana". Achei graça.

Fomos cada um para o seu lado, eu com um pouco mais de fé, ele com um pouco mais de dúvida.