segunda-feira, 28 de julho de 2014

Crônica de uma panfleteira: tem uma pessoa ali!

Panfletar é uma arte. A maioria das pessoas acha que distribuir panfleto na rua é uma ação teleológica: o objetivo final seria se livrar do papel. Isto só faria sentido se a relação com o papel distribuído for uma relação monetária: tanto faz o que está escrito, o que moveria à distribuição de panfletos seria acabar com eles. Para quem recebe por quantidade de panfletos distribuídos ou por tempo de distribuição, é compreensível ouvir de alguns "deixa eu pegar uns 10 panfletos para te ajudar".

Mas no meu caso, e no de milhares de ativistas por aí, não ajuda muito. O ato de panfletar tem a ver com uma necessidade: a de espalhar ideias para uma quantidade de pessoas que seria inatingível pelas relações pessoais e também pela internet. Primeiro porque todos conhecemos um número limitado de pessoas, e segundo porque a internet, além de enganar um pouco sobre a capacidade de atingir novas pessoas (ainda mais com as novas políticas do Facebook, que valorizam publicações pagas), também não é um direito universal ainda hoje no país.




É engraçado quando você panfleta há um certo tempo, porque alguns padrões de comportamento insistem em se repetir. Um tipo é o que pega por educação ou solidariedade. Se a motivação é bem intencionada, de nada terá servido caso não leia a mensagem espalhada. Afinal de contas, o objetivo é a mensagem! Mas depois de algumas horas tentando o contato com diversos desconhecidos nem sempre tão educados, quem pega por educação deixa uma sensação de alívio, pois representa esta possibilidade de talvez ler o panfleto.

Uma quantidade considerável de pessoas, ao perceber alguém panfletando, prefere ignorar solenemente a humanidade do outro. Os fones de ouvido ajudam bastante - são um subterfúgio mais eficaz para tratar o outro como um poste. Ei gente, tem uma pessoa ali! É um tanto aflitivo, depois do bom dia/boa tarde/ boa noite, ver as pessoas te tratarem como aos leprosos do século XV - correndo para mudar de calçada, mantendo o pescoço reto para não cruzar o olhar, ou fazendo cara de nojo.

Tento compreender estas atitudes, mas confesso que tenho uma certa dificuldade. Alguns são motivados por uma crítica à efetividade do panfleto: muito papel para pouco retorno, gera lixo e as pessoas não dão atenção. Posso dizer, depois de panfletar por diversas situações - cursinho popular, sindicato, posição política, campanha eleitoral, que ainda não conheço nenhum modo mais eficaz de fazer chegar suas ideias a um grande número de pessoas (fora a internet, com as ressalvas já feitas lá em cima). Outros negam por pressa mesmo, acontece. Um outro tanto de gente levou muito a sério as orientações maternas de não falar com estranhos. E ainda há aqueles que pensam que panfleto="político", entendido na pior das suas acepções: o político corrupto que só quer ganhar vantagem (e não na acepção política que temos todos, inclusive os "que odeiam política" e permitem que esses vermes se reproduzam com sua posição abstencionista).

Mas se eu não tivesse panfletado tanto, teria perdido muito causo nessa minha vida. Que alegria conhecer o seu Antônio, trabalhador da construção civil, e ganhar uns dois dedos de prosa sobre a situação política no Brasil. Seu Antônio, pernambucano de uns 60 anos, de fala mansa e amplo conhecimento, lembrava de cabeça o nome e número de todas as pessoas em quem votou na vida. Um verdadeiro exemplo. Por mais Antônios nas ruas. Eles fazem a gente ganhar o dia.

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