Panfletar é uma arte. A maioria das pessoas acha que distribuir panfleto na rua é uma ação teleológica: o objetivo final seria se livrar do papel. Isto só faria sentido se a relação com o papel distribuído for uma relação monetária: tanto faz o que está escrito, o que moveria à distribuição de panfletos seria acabar com eles. Para quem recebe por quantidade de panfletos distribuídos ou por tempo de distribuição, é compreensível ouvir de alguns "deixa eu pegar uns 10 panfletos para te ajudar".
Mas no meu caso, e no de milhares de ativistas por aí, não ajuda muito. O ato de panfletar tem a ver com uma necessidade: a de espalhar ideias para uma quantidade de pessoas que seria inatingível pelas relações pessoais e também pela internet. Primeiro porque todos conhecemos um número limitado de pessoas, e segundo porque a internet, além de enganar um pouco sobre a capacidade de atingir novas pessoas (ainda mais com as novas políticas do Facebook, que valorizam publicações pagas), também não é um direito universal ainda hoje no país.
É engraçado quando você panfleta há um certo tempo, porque alguns
padrões de comportamento insistem em se repetir. Um tipo é o que pega
por educação ou solidariedade. Se a motivação é bem intencionada, de
nada terá servido caso não leia a mensagem espalhada. Afinal de contas, o
objetivo é a mensagem! Mas depois de algumas horas tentando o contato
com diversos desconhecidos nem sempre tão educados, quem pega por
educação deixa uma sensação de alívio, pois representa esta
possibilidade de talvez ler o panfleto.
Uma quantidade
considerável de pessoas, ao perceber alguém panfletando, prefere ignorar
solenemente a humanidade do outro. Os fones de ouvido ajudam bastante - são um subterfúgio mais eficaz para tratar o outro como um poste.
Ei gente, tem uma pessoa ali! É um tanto aflitivo, depois do bom
dia/boa tarde/ boa noite, ver as pessoas te tratarem como aos leprosos
do século XV - correndo para mudar de calçada, mantendo o pescoço reto
para não cruzar o olhar, ou fazendo cara de nojo.
Tento
compreender estas atitudes, mas confesso que tenho uma certa
dificuldade. Alguns são motivados por uma crítica à efetividade do
panfleto: muito papel para pouco retorno, gera lixo e as pessoas não dão
atenção. Posso dizer, depois de panfletar por diversas situações -
cursinho popular, sindicato, posição política, campanha eleitoral, que
ainda não conheço nenhum modo mais eficaz de fazer chegar suas ideias a
um grande número de pessoas (fora a internet, com as ressalvas já feitas
lá em cima). Outros negam por pressa mesmo, acontece. Um outro tanto de
gente levou muito a sério as orientações maternas de não falar com
estranhos. E ainda há aqueles que pensam que panfleto="político", entendido na pior das suas acepções: o político corrupto que só quer ganhar vantagem (e não na acepção política que temos todos, inclusive os "que odeiam política" e permitem que esses vermes se reproduzam com sua posição abstencionista).
Mas se eu não tivesse panfletado tanto, teria perdido muito causo nessa minha vida. Que alegria conhecer o seu Antônio, trabalhador da construção civil, e ganhar uns dois dedos de prosa sobre a situação política no Brasil. Seu Antônio, pernambucano de uns 60 anos, de fala mansa e amplo conhecimento, lembrava de cabeça o nome e número de todas as pessoas em quem votou na vida. Um verdadeiro exemplo. Por mais Antônios nas ruas. Eles fazem a gente ganhar o dia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário