quinta-feira, 9 de julho de 2015

Do trancamento da BR-415 na greve das UEBAs: um balanço necessário

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello


Como tudo na história, há disputa sobre que lições podemos tirar de nossas lutas. Entrar em greve, realizar uma ocupação, trancar uma rodovia, fazer um escracho, apitaço ou panelaço, não existe nenhuma regra universal que diz o que é mais adequado em cada contexto de luta. Ou melhor, talvez a única regra nestes casos seja saber avaliar bem a correlação de forças de quem luta e contra quem se luta. Um exemplo de polêmica entre distintas táticas foi em junho de 2013: no debate sobre a “tática black block” e os desdobramentos dessas ações para o refluxo principalmente dos ativistas mais novos. 

Não vejo problema algum de realizar ações mais radicalizadas, desde que elas sejam construídas e propostas pelo conjunto da categoria. Ontem, por exemplo, dia 8 de julho de 2015, o movimento de moradia “Nós da Sul”, que organiza ocupações no bairro Grajaú São Paulo, ocupou a Secretaria de Habitação com o intuito de reverter a criminosa reintegração de posse de seu terreno. Há algumas semanas o Movimento do Sem Teto da Bahia organizou um fechamento da pista da Rodovia Ilhéus-Itabuna (BR-415) para garantir que a ocupação no Teotônio Vilela também não fosse despejada, conseguindo conquistar seu direito à moradia. Quando os movimentos discutem e decidem coletivamente nas suas instâncias de base a necessidade de ações que gerem repercussões para a sua luta, elas tem maiores condições de chegar a conquistas.

Atualmente volta-se a esta polêmica na greve das universidades estaduais da Bahia (UEBA). Uma greve desencadeada pela irresponsabilidade do governo petista para com a educação, num contexto de ajuste que vem sendo implementado tanto em nível federal quanto estadual. O governo dá ênfase no aumento de 10% do orçamento global, mas não explica que boa parte foi para pagar a demanda de pessoal, dos professores dos novos cursos – e a falta de professores ainda assim é uma triste realidade (como podemos perceber nos novos cursos de Engenharia da UESC); o governo “Rui Corta” convenientemente silencia sobre a redução de R$ 19 milhões nos últimos 2 anos para as verbas de custeio – aquele papel higiênico que faltou, os terceirizados que ficam sem receber, a negativa do financiamento para apresentação de trabalhos em eventos científicos, a restrição para compra de material básico como papel sulfite, piloto, material de laboratório. É nítido que a população percebe que os atuais governos – federal e estadual – estão cortando verbas da educação, da saúde, dos direitos previdenciários, e por isso nossa greve tem tido bastante respaldo.

Desde o começo tenho composto o comando de greve da UESC, que tem organizado importantes ações: diversas manifestações, tanto em Ilhéus e Itabuna como em Salvador; aulas públicas debatendo orçamento da educação, a lei 7176/97, o documento “Pátria Educadora”, cafés da manhã no pórtico da universidade, panfletagens, caminhadas com a ecológica “bicicleta de som” (substituindo o “carro de som”), intervenção na torcida durante o jogo do Colo-colo (com faixas denunciando o descaso com as UEBAs), integração com os servidores do IFBA que também tem construído uma greve, manifestações contra a retirada de direitos representadas pelas terceirizações do PL 4330, reuniões com a reitoria para exigir clareza quanto à real situação do quadro de vagas, reuniões com os estudantes para caminharmos juntos em defesa da universidade, exibição de filme com debate (Cinegreve), só para citar algumas. Acredito que todas estas ações foram fundamentais pelo esforço de sua construção coletiva, pela pressão que tem realizado sobre o governo, o qual não tem demonstrado disposição ao diálogo, sem apresentar contra-propostas minimamente satisfatórias.

Diferente daqueles que preferem lamentos no corredor a uma eventual reposição de aula, aposto na capacidade organizada que temos de conquistar vitórias, e no instrumento da greve como um dos mais capazes de levar a elas. É uma pena que ainda haja pessoas que se confortam em seu individualismo quando vemos a deterioração pelas quais nossas condições de trabalho tem passado, ou que acham que criticar o governo é “abrir espaço para a direita”, ou então que precisaríamos aguardar um edílico momento perfeito para fazermos uma greve, já que passamos por um período de crise. O momento de defender nossos direitos é já, e vacilar nessa determinação pode significar uma derrota de longa duração.




Dito isto, acho que é importante discutirmos com serenidade a queima de pneus na BR-415 realizada dia 09 de julho com um número reduzido de estudantes e ainda mais reduzido de professores. Como havia dito acima, não pela ação em si de queimar pneus ou fechar a BR, mas pela forma como foi construída.

É bem verdade, tivemos uma visibilidade midiática – TV, rádio e muitas postagens Facebook repercutiram essa ação. Mas talvez a razão da repercussão seja uma forma de tiro pela culatra. Em primeiro lugar, porque o debate, que poderia ter sido realizado amplamente entre os professores que tem construído e apoiado a greve, não foi realizado de forma satisfatória, o que explica a surpresa de muitos colegas ao chegarem à universidade nesta quinta-feira e se depararem com a queima de pneus. Por meio desse método – debate ponderado se esta seria a tática mais adequada com o conjunto de docentes – seria possível verificar a real aceitação (ou rejeição, o que penso ser o caso) dessa tática no atual momento.

Em segundo lugar porque, no lugar de realizarmos um ato de diálogo que estava planejado para a cidade de Itabuna, explicando o porquê estamos em greve, como o belo ato do último dia 07 em Ilhéus realizado em conjunto com o IFBA, optamos por algo que acabou gerando mais incompreensões que manifestações de apoio.


É natural a pluralidade de visões sobre táticas e concepções de movimento, e é salutar debater estas distintas visões com o conjunto da categoria. O instrumento de uma greve é precioso demais para se perder em equívocos pontuais que possam jogar água no moinho do individualismo. Se nos focarmos em responder às demandas de uma pequena vanguarda ao invés de usarmos toda a nossa capacidade inventiva para mobilizar mais e mais pessoas que defendem uma universidade verdadeiramente pública e de qualidade, podemos desgastar este instrumento que tantos lutadores abnegados se dedicaram a consolidar como a maior expressão de força de nossa classe.

sábado, 16 de maio de 2015

O viaduto 16 de maio (Salvador-BA) e a revolução dos "pinguinos" chilenos''

Hoje entrei no túnel do tempo: de sopetão uma colega (valeu Luana!) me tirou de minha dormência e me fez lembrar de um outro dia 16 de maio, ocorrido há 14 anos. Revivi meu primeiro grande ato de rua, quando era ainda estudante secundarista, no ano em que fazia parte do grêmio de meu colégio. Até hoje, toda vez que passo pelo Viaduto do Canela em Salvador, penso “esse é o Viaduto 16 de maio”. Como o Aeroporto 2 de julho, sempre foi e sempre será lembrado pelo nome que representa a resistência de quem luta na Bahia. Que bom que o curta "Choque" registra momentos históricos daquele dia.




Naquele dia fomos para a escola determinadas a levar todo mundo para o ato do “Fora ACM”. Em mais um ato típico de sinhôzinho coronel, Toninho Malvadeza violou o painel eletrônico do Senado para saber quem votava como na questão sobre a cassação de Luiz Estevão. Como ninguém aguentava mais as amarras do carlismo, estávamos animados com o grande ato no centro da cidade. Infelizmente as entidades estudantis, àquela época, já brigavam entre si divindo a concentração: a UBES, controlada à mão de ferro pelo PcdoB, chamava o ato na Praça da Piedade; o DCE, aparelhado pelo PT, chamava o ato para o Campo Grande. Evidentemente quem tinha um pingo de senso crítico via algo muito estranho, mas como estávamos determinados a dizer um NÃO ao Carlismo, fomos ao centro na disposição de encher as ruas. Haviam dois adesivos, um dizia “Cassação já”, acho que do PT, o outro era Fora ACM, que devia ser do PcdoB ou da UBES. Colei um de cada no peito, fazendo questão de arrancar fora as letrinhas de cada sigla.

A escola toda queria ir pro centro: eu estava no 2o ano do ensino médio, mas o pessoal da 8a série não se aguentava: poderíamos enfim dizer FORA ACM, e não era só no corredor da escola. A diretora disse que precisaríamos de autorização, mas acho que muita gente acabou saindo furtivamente para o ponto de ônibus. Quando os ônibus em direção ao centro passaram, o primeiro lotou, o segundo também e no terceiro ainda foi um tanto de gente.

Lembro que aquela situação de disputa entre a UBES e o DCE fazia sempre os mesmos subirem ao carro de som. E junto com alguns amigos (né Pedro?), conversamos com o grupo de estudantes que mobilizamos e resolvi ir ao carro do som fazer uma fala. No meio de um turbilhão de emoções (nunca tinha falado num microfone e tinha bem muitas centenas de gentes ali) lembro bem de me tremer da cabeça aos pés, mas de manifestar indignada, talvez uns decibeis a mais do que deveria por conta do nervoso, que ali tinham que falar os estudantes e não só a meia dúzia de deputado do PT e do PcdoB que tentavam nos arrebanhar. Não lembro se aplaudiram ou vaiaram, desci ainda trêmula e procurando ver se não tinha perdido ninguém da oittava série em meio ao viaduto do Canela. Mas um tanto satisfeita de ter tido coragem de sair do meu mutismo para dizer algo que sentia e que parecia não ser a única ali.

Estávamos aguardando porque estranhamente a Polícia tinha fechado o viaduto da universidade, uma área federal. Era revoltante: desde a ditadura militar a PM não invadia aquela área, e simplesmente fechou a passagem de um lado a outro do viaduto. E foi então que as bombas começaram, uma a uma, vindo de trás do homens a cavalo com cassetetes. Também foi a primeira vez que tomei uma paulada de cassetete. Foi bem na costela e doeu muito: tropecei quando fugia e nem sei como consegui ficar em pé e correr muito até a Faculdade de Administração da UFBA. Quando a adrenalina passou, me dei conta que tinha torcido o pé, nem percebi enquanto corria. Mas ao olhar a Faculdade, lotada de pessoas e coberta em nuvem de gás, com os vidros quebrados e muitas pessoas deitadas nas mesas da sala de aula com as costas cortadas por estilhaços de bomba, vi que o meu problema nem era dos piores.

Este episódio talvez tenha me marcado tão profundamente que minhas escolhas até hoje tem a ver com as conclusões que tirei deles. Da mesma forma, quem viveu junho de 2013, viveu momentos que não podem ser apagados tão facilmente. Em 2006, a greve geral dos secundaristas chilenos, chamados de Pinguinos, deixou legados para uma grande manifestação pela educação em 2011.


A história está sendo feita hoje. Talvez eu não saiba, mas a greve que construo hoje em minha universidade, como professora, seja o esteio para uma grande greve que virá recheada de vitórias. Talvez pode até ser essa greve que virá. Se não lutarmos, como saber das conquistas que virão?

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Meu encontro com Galeano

Depois de junho de 2013, nada mais foi o mesmo. Quando se divulgou nas redes sociais que Galeano viria para um debate na PUC Rio, foi um alvoroço. Ainda mais ao descobrir, logo depois, que seria para apenas 200 pessoas.

Mesmo garantido o telão para quem não pudesse acompanhar a atividade, uma multidão de jovens esperançosos usou daquilo que Galeano tanto louvou em seus textos: da persistência. E foi necessário mudar de espaço para que todos pudessem acompanhar as palavras inspiradoras de um incurável militante. Depois de junho, nada mais foi o mesmo.

E eis que uma rápida articulação de dois mandatos do PSOL conseguiu garantir uma outra atividade com o uruguaio que tão bem descreveu os brasileiros, amante que era do futebol e da luta. Marcelo Freixo e Eliomar Coelho articularam uma cerimônia de outorga a Eduardo Galeano de cidadão honorário do Rio de Janeiro. Com diploma e tudo.

Sendo impossível ir na atividade da PUC, fiquei eufórica com a possibilidade de ver o autor de As Veias Abertas da América Latina de perto. O livro que mudou minha vida: o que li pela primeira vez, uma edição de sebo, tinha algumas dezenas de marcações de etiquetas coloridas com anotações, porque tudo ali era para ser lembrado. O socialismo das ideias me levou meu pequeno tesouro (que esteja sendo bem utilizado). Quantas lágrimas não me arrancou, quantas certezas derrubadas, exceto a de não desistir, jamais?

E lá estava eu, 3 horas antes do começo da atividade, na primeira fila, esperando. Já havia 6 pessoas quando cheguei, todas aparentando a minha mesma euforia. Enquanto o auditório enchia, as pessoas pareciam preencher não as cadeiras, mas o próprio futuro: eram jovens, em sua maioria. Talvez filhos dos filhos dos contemporâneos de Galeano. E ali estavam, latinoamericando no idioma dos filhos da terra.

Depois de muito tempo de atraso (atribuído justamente às desfortunadas e superfaturadas obras do prefeito do Rio), eis que chega, meio trôpego e num paletó azul marinho, um velhinho um pouco sisudo. Ovacionado de pé, ouvia as falas dos combativos parlamentares e dos demais homenageadores como uma criança que estivesse na missa. Recebido o diploma, abriu, tirou do canudo e, ao invés de olhar o título que recém ganhava, colocou o canudo nos olhos, feito uma luneta. Alguém assim realmente deve ver as coisas por outro ângulo.

E eu, ainda palpitando com a proximidade de alguém que nunca me viu, mas que me era tão íntimo, terminada a atividade, pulei de um pinote correndo atrás dele, como se fosse a minha última chance de vê-lo (e era). O sempre simpático Eliomar ainda me segurou para ajudar a subir no tablado do palco, enquanto já nos bastidores, Galeano se distanciava. Corri atrás dele, e Marcelo Freixo, preocupado com o cansaço de um senhor de idade, educadamente me pediu para poupá-lo. Foi quando ele se virou e me olhou com seus enormes olhos azuis:

- Como é seu nome?

Ainda em choque, não consegui acreditar que estava falando com ele. Pensei no que falar, no que perguntar, mas estava catatônica. O coração pulava pela boca, ainda meio balbuciando e segurando nas mãos meu livro preferido (Mulheres), respondi:

- Maíra. Sei que você deve ouvir isso milhões de vezes, mas seu livro mudou minha vida.

- Maíra. Que nome bonito! E você também é muito bonita.

E pegou de minhas mãos o livro, assinou e me devolveu. Segurou a minha mão, e me deu um beijo no rosto, se despedindo.

E voltei para casa, com um livro autografado, uma cantada de um senhor de idade, e a certeza renovada de que desistir não pode ser uma possibilidade.

Galeano morreu hoje. Mas o que deixou renasceu gerações: ainda mais depois de junho, quando nada mais foi o mesmo.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O cuidado é político

Há um tempo tenho lido alguns textos sobre autocuidado que me tocaram muito, porque ser professora, estudante e militante é para uma mulher uma jornada quádrupla de trabalho (e quando falo trabalho estou pensando em tempo do dia/da vida de uma pessoa). É como se nós estivéssemos o tempo todo deixando de fazer alguma coisa direito de nossas vidas – e, na condição de mulher, como se tivéssemos o tempo todo que afirmar essa condição (e isto porque sou mulher e branca, certamente para uma mulher negra o cruzamente de preconceitos é ainda mais violento).

Como educadora, me sinto na obrigação de dar o melhor de mim: de procurar estudar antes de preparar todas as aulas, de corrigir os exercícios no prazo e colocar apontamentos que favoreçam o desenvolvimento autônomo de cada aluno, disponibilizar com antecedência os planejamentos das disciplinas, deixar espaço na aula para que os alunos manifestem suas opiniões ainda que sejam distintas da minha, procurar dar subsídios para que eles depois pesquisem mais sobre o que discutimos caso queiram, planejar avaliações que reflitam as finalidades dos cursos. Já foi bem mais difícil fazer isso: na época de professora na prefeitura de São Paulo, a quantidade de alunos, de turmas, e de autonomia deixava pouco espaço para isso acontecer a contento. E isso gera uma angústia para tentar “diminuir a distância entre o que se pensa e o que se pratica”.

Como estudante, é preciso dar conta dos prazos e pressões da academia, que tem alguns critérios bem menos objetivos do que parece: favorecimentos de determinados grupos de pesquisas, centralidade de algumas universidades principalmente no eixo sul-sudeste, relações de poder em que não é raro se entrecuzarem critérios do mais abjeto racismo, machismo e homofobia não são incomuns – vale lembrar da recente recusa de financiamento do Prof. Kabengele Munanga na UFRB, único dentre 59 selecionados que era negro e teve sua bolsa negada por critérios insustentáveis ou o caso de Idelber Avelar. Porém ainda que as formas mais violentas das intrincadas relações de poder da academia não inviabilizem importantes pesquisas que contribuem para que novos conhecimentos possam ser compartilhados com a sociedade, ser estudante de uma universidade exige tempo, sempre mais do que você pode dar, tendo em vista tantos séculos passados de produção de conhecimento.

Como militante que consegue equilibrar o pouco tempo que sobra entre educadora e estudante, há tanto o que fazer! Há que se lutar para marcar o espaço como mulher, e todo dia enfrentar um oceano de lixo misógino que temos que atravessar todo dia. Tem que brigar muito para garantir que nossos direitos não retrocedam. Tem que aguentar muitas vezes um jeito rasteiro de fazer política, bem típico do patriarcado, de bater na mesa, falar mais alto, espalhar boatos, tudo no implícito do “você sabe quem está falando?” bem ao gosto do coronelismo.

Mas não preciso aguentar calada.

Precisamos de espaços em que isto seja repudiado tanto quanto ao sistema que nos explora, aos políticos que nos esmagam, às corporações que dispõe de nossas vidas como se fôssemos só mais um número no banco de metadados infinitamente armazenado pela Google. Espaços em que o cuidado com o outro – e principalmente com a outra - não seja questão menor.

Não se pode ficar calada quando sapateiam sobre a memória de quem dedicou a vida à liberdade, a ainda que restrita, em que vivemos, clamando pela volto do horror – sim a ditadura é o horror, é a total falta de respeito pelas possibilidades democráticas mínimas, e qualquer forma  de endosso é cumplicidade com o horror. Não se pode ficar calada vendo o extermínio na juventude negra, porque a maioridade penal já é reduzida e se mostra no assassinato DIÁRIO de jovens e adolescentes negrxs na guerra contra as drogas. Não se pode ficar calada com as milhares de mulheres, a grande maioria negras, que morrem por abortos clandestinos diariamente. Não se pode ficar calada com a execução de LGBTs pelo simples fato de não corresponderem à heteronormatividade. Não se pode ficar calada com os vergonhosos cortes para verbas públicas na educação empreendidos pelos governos, pois aqueles que engrossam o coro do imobilismo neste momento também são responsáveis pelo caos que vivemos.

Quando bate aquele desespero, de pensar que não estou dando conta nem do começo de cada uma das necessidades, é que os espaços coletivos são mais necessários. Pensar coletivamente, criar redes de apoio, porque política se faz nos mínimos espaços. Então eu respiro fundo, e me tranquilizo quando penso que felizmente fiz parte da construção de organizações que viabilizam estes espaços.

E fico muito orgulhosa de ser militante do Movimento Esquerda Socialista do PSOL, do movimento Juntos! e da Rede Emancipa de Cursinhos Populares. Sei que batalhamos para que estes espaços sejam garantidos. Um salve especial para cada uma de minhas companheiras que constroem estes espaços. Cuidando umas das outras a gente aprende a cuidar de si.

domingo, 8 de março de 2015

Por Genilce, por você, por nós: luta mulher!

Eu não conheci Genilce, como ela também nunca soube quem sou. Mas por ela, por mim e pelas outras é que seu nome deve ser lembrado.

Chego no assentamento e o galpão de nossa oficina está um brinco. Flores colhidas por ali enfeitam a mesa (bicos de papagaio e strelitzias, lindas no seu vermelho e amarelo, palmeiras envoltas em arranjos) e vários grupos de mesinhas estavam cuidadosamente forradas com tecido branco e dourado.

Depois de umas boas discussões sobre "coisa de homem" e "coisa de mulher", a importância do papel das mulheres no avanço das lutas populares, da necessidade de formação política e da constatação de que "não basta ser mulher, tem que estar do lado certo", vem o delicioso feijão preparado por Ju, lá do Assentamento Frei Vantuy,  que fica na Rodovia Jorge Amado, entre Ilhéus e Itabuna.

Sento para conversar com Maisa e Meri, as mais participativas da oficina. A primeira, presidente da associação,  conta das conquistas: antes mulher não podia nem votar na assembleia. Hoje se precisar põe dedo na cara de quem quer que seja.

Maisa conta da história quando as mulheres ficavam de fora das decisões,  mas que com muitas conversas entre elas começaram a participar, sob protesto dos machistas de plantão: os poderosos e às vezes até os companheiros. Seguiram se reunindo até que ninguém se inscreveu para a chapa da associação dos produtores, quando tiveram que engolir a mulherada aguerrida.

Com as dívidas relativas a créditos rurais anteriores, a gestão correu atrás de alternativas de produção,  como frutas secas,  além do cacau e outros produtos.  Saldaram às dívidas e deu até uma sobrinha de fim de ano.

Até que foi incômodo demais. Genilce, que não era de levar desaforo para casa foi encontrada pelo filho e por Maisa assassinada em sua própria residência. Era demais suportar tantas mulheres seguras de si.

Não serei capaz de conceber o tamanho da dor de ver uma companheira com marcas de violência tão brutal: Genilce foi sufocada e teve a cabeça atingida por diversos golpes de marreta. Maisa conta que tirou o filho da amiga de cima da mãe e aguardou a chegada da polícia.  Dava para ouvir o barulho dos ossos esmigalhados,  barulho que habitou seu sono por tantas noites. Até hoje não houve indiciamento por esse crime tão bárbaro.

Uma outra amiga teve a casa atingida por uma bala. E Maisa entre risos, diz que já temeu pela vida, mas que o medo é próprio do ser humano. E segue batalhando pelos direitos do povo do campo, na luta por reforma agrária.

Genilce morreu na luta. É possível que tenha sido alvo pelo simples fato de ser uma mulher que não se dobra, um feminicídio. A importância da aprovação desta lei no Senado,  ainda que uma conquista tímida,  é a de dar visibilidade a crimes que são cometidos pelo fato de se ser mulher.

Sua luta floresce nas mulheres que dão continuidade ao que começou. Por Genilce e todas as Margaridas que adubam nossa luta. Que sejam lembradas hoje e sempre.

domingo, 1 de março de 2015

Um pedaço de nós

A Enrique, militante tão pleno.

O que tenho melhor em mim é me identificar com a multidão. E é por isso que o que tenho melhor em mim é a minha militância. Ela me torna humana, no sentido mais profundo da palavra. Me conecta com meu irmão e minha irmã quando reconhecemos vida no olhar do outro, na sobrevivência contra a selvageria do capitalismo. É a capacidade de comemorarmos uma vitória e um passo adiante rumo a outro horizonte de coisas, de sofrermos uma derrota em comum que nos coloca ombro a ombro: el Che ya lo dice, se você tem a capacidade de tremer de indignação, somos companheiros.

Ontem subitamente a vida me tirou um pedaço de mim: não de mim pessoa, mas de mim organização, de mim movimento esquerda socialista, PSOL, de mim esquerda latinoamericana antiimperialista, de mim trotskysta, de mim movimento internacional dos trabalhadores, de mim resistência popular, de nós. Perdemos Enrique Morales, um gigante, dor daquelas indescritíveis.

Amigo da cerveja, do café e do fumo, da boa música, bons livros, da poesia, que também escrevia lindamente. Sempre intempestivo, pronto a mandar ao carajo qualquer boludez.

Foi quando me dei conta do quanto aprendi com Enrique: mesmo não sistematicamente, vivendo numa mesma cidade, mas nos momentos críticos, nos debates, atos, congressos, jantas, tantas enfim. Enrique é testemunho da vida de um comunista, daqueles forjados na vida dura. Quando falava de música, quando falava de Lenin, quando lamentava um companheiro perdido ou brindava uma vitória na luta.

Pela existência de Enrique, segue a linha de continuidade dos revolucionários de muitos anos. Segue o aprendizado de disciplina e coerência, de gerações de trabalhadores que criaram seus organismos para construir um outro poder. Sua morte nos entristece, mas carajo, o que lhe valeu foi sua vida. A ela, o melhor de nós.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Com que roupa?

A primeira vez que votei nas eleições foi em 2002. Foi um ano bom pra se votar - embalada em esperança de mudança, todo mundo na escola estava em polvorosa. Quem já tinha conseguido tirar o título - e quem não tirou, apesar do desapontamento, também - se reunia no andar de cima para combinar que dia íamos no diretório do (naquele momento ainda nem tão) finado PT pegar material e distribuir na rua. Ninguém veio dizer para gente que tínhamos que fazer isso - nem professor, nem militante. A gente simplesmente sabia que precisava.

Da primeira vez que fomos panfletar no centro, levaram o material que tinha no diretório. Lembro até da ordem dos candidatos (nos quais hoje não votaria nem amordaçada) e das fotos, todas de homens. E fomos conversando com as pessoas, uma a uma, mesmo com várias pessoas dizendo pra gente desistir, que a gente era muito novo e político era tudo igual (aham, senta lá Cláudia). Terminados os panfletos, fomos ao diretório pegar mais para os dias seguintes - já era reta final.

Chegando lá tinha uma infinidade de material, mas o que eu queria mesmo era uma camiseta do PT. Tinha lá um botton, mas que graça? O que eu queria era uma camiseta vermelha, que mostrasse, como tantas outras pessoas, que a mudança era possível quando se começa jovem. E qual não foi minha decepção ao chegar lá e encontrar só uma camiseta tamanho G-sambante, regata azul-marinho com a estrela vermelha! Mas era o que tinha no momento e o jeito foi levar aquela mesmo.

Lá no dia da eleição botei a camiseta emocionada, me entupi de adesivo (escrevi "Lula" no verso da camiseta com os adesivos retangulares) e bandeira, encontrei os conhecidos na fila de votação e na comemoração do Rio Vermelho: em Salvador deu 90% de votos, e no dia seguinte a cidade tinha aquele cheiro de álcool dormido da ressaca.

Passei no vestibular, mudei pra São Paulo e levei a tal camiseta na mala. E aí muita coisa aconteceu: Henrique Meirelles (sempre ele!) no Banco Central, ministérios loteados, Sarney apoiado para presidente do Senado! Como se não bastasse ainda teve a reforma da previdência, a expulsão dos "radicais" (oi?). E todo dia que eu ia lá na gaveta e pensava "Com que roupa?",  a camiseta olhava pra mim, eu para ela, e eu dizia sempre não.

Até que um dia mais tarde naquele ano, eu vi que essa camiseta nunca mais caberia em mim.

Passada muita água água embaixo da ponte e para encurtar conversa longa, por ora só tenho uma coisa a dizer:

Amigues, ainda dá tempo de trocar de roupa.