de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
Eu não conheci Genilce, como ela também nunca soube quem sou. Mas por ela, por mim e pelas outras é que seu nome deve ser lembrado.
Chego no assentamento e o galpão de nossa oficina está um brinco. Flores colhidas por ali enfeitam a mesa (bicos de papagaio e strelitzias, lindas no seu vermelho e amarelo, palmeiras envoltas em arranjos) e vários grupos de mesinhas estavam cuidadosamente forradas com tecido branco e dourado.
Depois de umas boas discussões sobre "coisa de homem" e "coisa de mulher", a importância do papel das mulheres no avanço das lutas populares, da necessidade de formação política e da constatação de que "não basta ser mulher, tem que estar do lado certo", vem o delicioso feijão preparado por Ju, lá do Assentamento Frei Vantuy, que fica na Rodovia Jorge Amado, entre Ilhéus e Itabuna.
Sento para conversar com Maisa e Meri, as mais participativas da oficina. A primeira, presidente da associação, conta das conquistas: antes mulher não podia nem votar na assembleia. Hoje se precisar põe dedo na cara de quem quer que seja.
Maisa conta da história quando as mulheres ficavam de fora das decisões, mas que com muitas conversas entre elas começaram a participar, sob protesto dos machistas de plantão: os poderosos e às vezes até os companheiros. Seguiram se reunindo até que ninguém se inscreveu para a chapa da associação dos produtores, quando tiveram que engolir a mulherada aguerrida.
Com as dívidas relativas a créditos rurais anteriores, a gestão correu atrás de alternativas de produção, como frutas secas, além do cacau e outros produtos. Saldaram às dívidas e deu até uma sobrinha de fim de ano.
Até que foi incômodo demais. Genilce, que não era de levar desaforo para casa foi encontrada pelo filho e por Maisa assassinada em sua própria residência. Era demais suportar tantas mulheres seguras de si.
Não serei capaz de conceber o tamanho da dor de ver uma companheira com marcas de violência tão brutal: Genilce foi sufocada e teve a cabeça atingida por diversos golpes de marreta. Maisa conta que tirou o filho da amiga de cima da mãe e aguardou a chegada da polícia. Dava para ouvir o barulho dos ossos esmigalhados, barulho que habitou seu sono por tantas noites. Até hoje não houve indiciamento por esse crime tão bárbaro.
Uma outra amiga teve a casa atingida por uma bala. E Maisa entre risos, diz que já temeu pela vida, mas que o medo é próprio do ser humano. E segue batalhando pelos direitos do povo do campo, na luta por reforma agrária.
Genilce morreu na luta. É possível que tenha sido alvo pelo simples fato de ser uma mulher que não se dobra, um feminicídio. A importância da aprovação desta lei no Senado, ainda que uma conquista tímida, é a de dar visibilidade a crimes que são cometidos pelo fato de se ser mulher.
Sua luta floresce nas mulheres que dão continuidade ao que começou. Por Genilce e todas as Margaridas que adubam nossa luta. Que sejam lembradas hoje e sempre.
A Enrique, militante tão pleno.
O que tenho melhor em mim é me identificar com a multidão. E é por isso que o que tenho melhor em mim é a minha militância. Ela me torna humana, no sentido mais profundo da palavra. Me conecta com meu irmão e minha irmã quando reconhecemos vida no olhar do outro, na sobrevivência contra a selvageria do capitalismo. É a capacidade de comemorarmos uma vitória e um passo adiante rumo a outro horizonte de coisas, de sofrermos uma derrota em comum que nos coloca ombro a ombro: el Che ya lo dice, se você tem a capacidade de tremer de indignação, somos companheiros.
Ontem subitamente a vida me tirou um pedaço de mim: não de mim pessoa, mas de mim organização, de mim movimento esquerda socialista, PSOL, de mim esquerda latinoamericana antiimperialista, de mim trotskysta, de mim movimento internacional dos trabalhadores, de mim resistência popular, de nós. Perdemos Enrique Morales, um gigante, dor daquelas indescritíveis.
Amigo da cerveja, do café e do fumo, da boa música, bons livros, da poesia, que também escrevia lindamente. Sempre intempestivo, pronto a mandar ao carajo qualquer boludez.
Foi quando me dei conta do quanto aprendi com Enrique: mesmo não sistematicamente, vivendo numa mesma cidade, mas nos momentos críticos, nos debates, atos, congressos, jantas, tantas enfim. Enrique é testemunho da vida de um comunista, daqueles forjados na vida dura. Quando falava de música, quando falava de Lenin, quando lamentava um companheiro perdido ou brindava uma vitória na luta.
Pela existência de Enrique, segue a linha de continuidade dos revolucionários de muitos anos. Segue o aprendizado de disciplina e coerência, de gerações de trabalhadores que criaram seus organismos para construir um outro poder. Sua morte nos entristece, mas carajo, o que lhe valeu foi sua vida. A ela, o melhor de nós.