Cinco mortos numa
madrugada fria. Este é o saldo de uma política deliberada da Guarda
Civil Metropolitana de São Paulo, órgão municipal cuja orientação
foi a de retirar cobertores, colchões e papelões dos moradores de
rua, de acordo com a Pastoral da Rua da Arquidiocese de São Paulo.
Isto numa semana em que a temperatura atingiu recordes mínimos: zero
graus em 13 de junho.
A GCM procura
justificar o injustificável “rapa” pelo discurso de que os
moradores estariam “privatizando” o espaço público. Fernando
Haddad afirma ser uma medida contra a refavelização de praças
públicas. Se o termo privado pode de alguma maneira ser usado com
propriedade no caso, é o fato de serem pessoas privadas de quase
tudo – de políticas públicas, de moradia, e no caso dos 5,
inclusive da vida.
Mais indignante do
que a orientação e as justificativas, tem sido o expediente
corriqueiro por meio das diversas mídias de apoiadores acríticos da
prefeitura em defesa da atitude abominável. Chegamos mesmo ao fundo
do poço quando aqueles que se reivindicam, ainda que com traços
pálidos, como de esquerda, podem tolerar vidas perdidas em meio ao
sofrimento do frio. Não precisa sequer ser de esquerda para achar
uma total perda de parâmetros da humanidade deixar pessoas
escorrerem as vidas lentamente enquanto tremem para se aquecer, na
falta de teto, na falta de humanidade, na falta de respeito, na falta
de emprego. A miséria da política institucional vai mesmo muito
longe caso não condenemos severamente este absurdo.
O argumento de fundo
para sustentar é mais do mesmo: o do menos pior. “Imagine se fosse
aquele apresentador insensível”, “imagine se fosse o picolé de
xuxu”, “imagine se fosse um dos antigos prefeitos”, seria muito
pior. O pior já chegou, e faz tempo. O pior é nos tornarmos reféns
da falta de alternativa por acreditar no discurso do menos pior, e
tolerar o frio e a fome em nome de uma melhoria ou outra. Prefeito
não é síndico, prefeito é cargo político, posição de
discussões públicas, de projetos de cidade. Quem “limpa” gente
como quem limpa o chão, diz que as vidas dos “sem tudo” vale
menos que a poeira.
Caso semelhante
passa na Venezuela. Onde outrora o povo brandia a constituição que
ajudou a escrever e cultivou a referência de Chávez por fomentar a
organização dos de baixo, vemos a triste disputa entre um governo
que se diz de esquerda e põe a população faminta a esperar horas a
fio em filas para tentar o mínimo abastecimento para suas famílias.
Estamos falando de escassez tão profunda que não tem eufemismo que
dê conta de da dimensão do que estamos tratando: o povo venezuelano
está com fome. Por outro lado, uma direita brandindo cinicamente o
argumento da democracia. Enquanto o povo está fome, burocratas do
governo e figurões da oposição de direita fazem compras em Aruba,
devidamente registradas em selfies.
Nós de esquerda
temos uma grande responsabilidade com as próximas gerações.
Teremos de que explicar a elas que ser de esquerda não tem nada a
ver com ser insensível à fome e ao frio. Teremos de dizê-las que
nós de esquerda soubemos nos levantar contra as tiranias de todo
tipo, inclusive as que falsificam nosso nome, como as russas e as
chinesas. Teremos de insistir que as decisões de cúpula em nome da
manutenção do poder não nos representam, que defendemos um projeto
profundamente humano e a mais radical democracia.
O dia que se abre
mão desta disputa, a direita já ganhou, porque não faz mais
sentido se dizer de esquerda. Melhor chamar de governo, apenas. Nada
mais.
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