quinta-feira, 16 de junho de 2016

A necessidade de romper com a velha esquerda é tão pungente quanto a de rechaçar a direita



Cinco mortos numa madrugada fria. Este é o saldo de uma política deliberada da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, órgão municipal cuja orientação foi a de retirar cobertores, colchões e papelões dos moradores de rua, de acordo com a Pastoral da Rua da Arquidiocese de São Paulo. Isto numa semana em que a temperatura atingiu recordes mínimos: zero graus em 13 de junho.

A GCM procura justificar o injustificável “rapa” pelo discurso de que os moradores estariam “privatizando” o espaço público. Fernando Haddad afirma ser uma medida contra a refavelização de praças públicas. Se o termo privado pode de alguma maneira ser usado com propriedade no caso, é o fato de serem pessoas privadas de quase tudo – de políticas públicas, de moradia, e no caso dos 5, inclusive da vida.

Mais indignante do que a orientação e as justificativas, tem sido o expediente corriqueiro por meio das diversas mídias de apoiadores acríticos da prefeitura em defesa da atitude abominável. Chegamos mesmo ao fundo do poço quando aqueles que se reivindicam, ainda que com traços pálidos, como de esquerda, podem tolerar vidas perdidas em meio ao sofrimento do frio. Não precisa sequer ser de esquerda para achar uma total perda de parâmetros da humanidade deixar pessoas escorrerem as vidas lentamente enquanto tremem para se aquecer, na falta de teto, na falta de humanidade, na falta de respeito, na falta de emprego. A miséria da política institucional vai mesmo muito longe caso não condenemos severamente este absurdo.

O argumento de fundo para sustentar é mais do mesmo: o do menos pior. “Imagine se fosse aquele apresentador insensível”, “imagine se fosse o picolé de xuxu”, “imagine se fosse um dos antigos prefeitos”, seria muito pior. O pior já chegou, e faz tempo. O pior é nos tornarmos reféns da falta de alternativa por acreditar no discurso do menos pior, e tolerar o frio e a fome em nome de uma melhoria ou outra. Prefeito não é síndico, prefeito é cargo político, posição de discussões públicas, de projetos de cidade. Quem “limpa” gente como quem limpa o chão, diz que as vidas dos “sem tudo” vale menos que a poeira.

Caso semelhante passa na Venezuela. Onde outrora o povo brandia a constituição que ajudou a escrever e cultivou a referência de Chávez por fomentar a organização dos de baixo, vemos a triste disputa entre um governo que se diz de esquerda e põe a população faminta a esperar horas a fio em filas para tentar o mínimo abastecimento para suas famílias. Estamos falando de escassez tão profunda que não tem eufemismo que dê conta de da dimensão do que estamos tratando: o povo venezuelano está com fome. Por outro lado, uma direita brandindo cinicamente o argumento da democracia. Enquanto o povo está fome, burocratas do governo e figurões da oposição de direita fazem compras em Aruba, devidamente registradas em selfies.

Nós de esquerda temos uma grande responsabilidade com as próximas gerações. Teremos de que explicar a elas que ser de esquerda não tem nada a ver com ser insensível à fome e ao frio. Teremos de dizê-las que nós de esquerda soubemos nos levantar contra as tiranias de todo tipo, inclusive as que falsificam nosso nome, como as russas e as chinesas. Teremos de insistir que as decisões de cúpula em nome da manutenção do poder não nos representam, que defendemos um projeto profundamente humano e a mais radical democracia.


O dia que se abre mão desta disputa, a direita já ganhou, porque não faz mais sentido se dizer de esquerda. Melhor chamar de governo, apenas. Nada mais.  

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