Hoje o texto da da grande amiga Cibele Lima, uma das mulheres que conheço que mais entende de futebol. Mesmo torcendo para times diferentes, concordamos em muitas coisas, e uma delas essencialmente: A crise da CBF é a crise de "muita coisa estranha" que se passa nos bastidores da cartolagem.
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*Por Cibele Lima
Agora
todo mundo quer encontrar um culpado para o fracasso da seleção
brasileira. E o que mais me impressiona é que em nenhum momento se
fala do fundamental, a estrutura corrupta que hoje sustenta o futebol
nacional. Fala-se do Dunga, mas em nenhum momento a imprensa
esportiva procura responder algumas perguntas elementares: Porque ele
ainda estava à frente da seleção? Porque insistir em determinados
jogadores? Quais as relações de interesse que (obviamente) estão por trás disso?
Tampouco
se fala sobre o fato de que o presidente da entidade Marco Polo Del
Nero é um dos três brasileiros envolvidos no esquema de corrupçãona FIFA que tem sido investigado pelo FBI.
E ninguém acha “estranho” que a Rede Globo, detentora dos
direitos de transmissão de jogos, não foi citada até agora nesta
investigação.
Nem
mesmo sobre o fato de Neymar (que não jogou a Copa América), maior
estrela do time, ser investigado por crime financeiro no Brasil e naEspanha.
Isso
tudo sem contar a promiscuidade financeira envolvendo os estádios da
copa do mundo, cujas construtoras responsáveis estão sendo acusadas
na operação lava-jato. São tantos absurdos que nem cabem nesse
texto.
Aliás,
a camisa da seleção brasileira combina bastante com a multidão que
a usou como uniforme dos atos “anticorrupção”. Deveriam mandar
uma de presente para o Michel Temer. Enquanto isso, torcidas
organizadas que protestam contra a corrupção são brutalmente
reprimidas pela PM.
O
futebol brasileiro é uma máquina capitalista administrada pelo que
há de pior: empresários, cartolas e uma longa casta política que
ainda carrega a vergonha de ter entre seus maiores dirigentes alguns
órfãos da ditadura militar.
Será
que nada disso tem a ver com a decadência da seleção brasileira?
Enquanto
isso, o que temos de fato assistido é um distanciamento cada vez
maior entre a torcida e seus times. Tanto que a muito não se
conversa sobre o futebol (no sentido mais específico da palavra) da
seleção. Nem sequer se acompanha seus jogadores (quem aqui assistiu
os últimos jogos do elenco da seleção em seus clubes?). Desde a
demissão do Dunga ouço as pessoas falando do Tite e do Corinthians
em todos os lugares. Nós corintianas pra lamentar, a turma anti
vibrando. Mas sobre como isso pode revolucionar a seleção, pouco se
fala. Nem mesmo a imprensa esportiva faz dessa a principal discussão.
Mas
entre os clubes e suas torcidas as coisas também não andam muito
bem. Ingressos com preços nas alturas e jogos que não empolgam
fazem, a cada rodada, recordes de baixo publico. Até mesmo pela TV
os jogos tem perdido audiência.
Como
resposta à violência, jogos de torcida única única se mostram uma
resposta ineficaz que desvia o foco do problema enquanto as mortes
fora dos estádios continuam.
Enquanto
isso a vida de milhares de crianças e jovens é usada como moeda de
aposta para gerar cifras milionárias. Alimentados de sonhos, muitos
meninos são submetidos a condições precárias e insalubres de
treino e alimentação, enquanto os que tem maiores “investimento”
e melhores empresários para participar de peneiras e seleções são
os que tem chances reais.
E
veja só. Este texto foi quase totalmente escrito no masculino.
Porque enquanto o futebol masculino vive neste pântano, o futebol
feminino batalha diariamente para ocupar seu mais que merecido lugar.
Enquanto a atacante Marta é a maior campeã do mundo de todos os
tempos, levando 5 vezes o prêmio de melhor do mundo (que homem
conseguiu essa façanha?) e passando a marca do Pelé em numero de
gols com a camisa da seleção, apesar disso nós não podemos sequercomprar a camisa da seleção feminina de futebol.
Nada é pra sempre, assim como a crise do futebol brasileiro também não é. No entanto, uma mudança que não seja estrutural vai continuar apenas maquiando e personalizando o problema. E o que vamos fazer? O futebol brasileiro precisa de uma revolução, precisa ser democrático e representativo, e é nesse sentido que atletas, torcedoras e torcedores tem se organizado. O futebol é, em várias épocas e locais do mundo, ferramenta de politização que impulsiona revoluções.
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