sábado, 16 de maio de 2015

O viaduto 16 de maio (Salvador-BA) e a revolução dos "pinguinos" chilenos''

Hoje entrei no túnel do tempo: de sopetão uma colega (valeu Luana!) me tirou de minha dormência e me fez lembrar de um outro dia 16 de maio, ocorrido há 14 anos. Revivi meu primeiro grande ato de rua, quando era ainda estudante secundarista, no ano em que fazia parte do grêmio de meu colégio. Até hoje, toda vez que passo pelo Viaduto do Canela em Salvador, penso “esse é o Viaduto 16 de maio”. Como o Aeroporto 2 de julho, sempre foi e sempre será lembrado pelo nome que representa a resistência de quem luta na Bahia. Que bom que o curta "Choque" registra momentos históricos daquele dia.




Naquele dia fomos para a escola determinadas a levar todo mundo para o ato do “Fora ACM”. Em mais um ato típico de sinhôzinho coronel, Toninho Malvadeza violou o painel eletrônico do Senado para saber quem votava como na questão sobre a cassação de Luiz Estevão. Como ninguém aguentava mais as amarras do carlismo, estávamos animados com o grande ato no centro da cidade. Infelizmente as entidades estudantis, àquela época, já brigavam entre si divindo a concentração: a UBES, controlada à mão de ferro pelo PcdoB, chamava o ato na Praça da Piedade; o DCE, aparelhado pelo PT, chamava o ato para o Campo Grande. Evidentemente quem tinha um pingo de senso crítico via algo muito estranho, mas como estávamos determinados a dizer um NÃO ao Carlismo, fomos ao centro na disposição de encher as ruas. Haviam dois adesivos, um dizia “Cassação já”, acho que do PT, o outro era Fora ACM, que devia ser do PcdoB ou da UBES. Colei um de cada no peito, fazendo questão de arrancar fora as letrinhas de cada sigla.

A escola toda queria ir pro centro: eu estava no 2o ano do ensino médio, mas o pessoal da 8a série não se aguentava: poderíamos enfim dizer FORA ACM, e não era só no corredor da escola. A diretora disse que precisaríamos de autorização, mas acho que muita gente acabou saindo furtivamente para o ponto de ônibus. Quando os ônibus em direção ao centro passaram, o primeiro lotou, o segundo também e no terceiro ainda foi um tanto de gente.

Lembro que aquela situação de disputa entre a UBES e o DCE fazia sempre os mesmos subirem ao carro de som. E junto com alguns amigos (né Pedro?), conversamos com o grupo de estudantes que mobilizamos e resolvi ir ao carro do som fazer uma fala. No meio de um turbilhão de emoções (nunca tinha falado num microfone e tinha bem muitas centenas de gentes ali) lembro bem de me tremer da cabeça aos pés, mas de manifestar indignada, talvez uns decibeis a mais do que deveria por conta do nervoso, que ali tinham que falar os estudantes e não só a meia dúzia de deputado do PT e do PcdoB que tentavam nos arrebanhar. Não lembro se aplaudiram ou vaiaram, desci ainda trêmula e procurando ver se não tinha perdido ninguém da oittava série em meio ao viaduto do Canela. Mas um tanto satisfeita de ter tido coragem de sair do meu mutismo para dizer algo que sentia e que parecia não ser a única ali.

Estávamos aguardando porque estranhamente a Polícia tinha fechado o viaduto da universidade, uma área federal. Era revoltante: desde a ditadura militar a PM não invadia aquela área, e simplesmente fechou a passagem de um lado a outro do viaduto. E foi então que as bombas começaram, uma a uma, vindo de trás do homens a cavalo com cassetetes. Também foi a primeira vez que tomei uma paulada de cassetete. Foi bem na costela e doeu muito: tropecei quando fugia e nem sei como consegui ficar em pé e correr muito até a Faculdade de Administração da UFBA. Quando a adrenalina passou, me dei conta que tinha torcido o pé, nem percebi enquanto corria. Mas ao olhar a Faculdade, lotada de pessoas e coberta em nuvem de gás, com os vidros quebrados e muitas pessoas deitadas nas mesas da sala de aula com as costas cortadas por estilhaços de bomba, vi que o meu problema nem era dos piores.

Este episódio talvez tenha me marcado tão profundamente que minhas escolhas até hoje tem a ver com as conclusões que tirei deles. Da mesma forma, quem viveu junho de 2013, viveu momentos que não podem ser apagados tão facilmente. Em 2006, a greve geral dos secundaristas chilenos, chamados de Pinguinos, deixou legados para uma grande manifestação pela educação em 2011.


A história está sendo feita hoje. Talvez eu não saiba, mas a greve que construo hoje em minha universidade, como professora, seja o esteio para uma grande greve que virá recheada de vitórias. Talvez pode até ser essa greve que virá. Se não lutarmos, como saber das conquistas que virão?

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