Hoje entrei no túnel
do tempo: de sopetão uma colega (valeu Luana!) me tirou de minha dormência e me
fez lembrar de um outro dia 16 de maio, ocorrido há 14 anos. Revivi
meu primeiro grande ato de rua, quando era ainda estudante
secundarista, no ano em que fazia parte do grêmio de meu colégio.
Até hoje, toda vez que passo pelo Viaduto do Canela em Salvador,
penso “esse é o Viaduto 16 de maio”. Como o Aeroporto 2 de
julho, sempre foi e sempre será lembrado pelo nome que representa a
resistência de quem luta na Bahia. Que bom que o curta "Choque" registra momentos históricos daquele dia.
Naquele dia fomos
para a escola determinadas a levar todo mundo para o ato do “Fora
ACM”. Em mais um ato típico de sinhôzinho coronel, Toninho
Malvadeza violou o painel eletrônico do Senado para saber quem
votava como na questão sobre a cassação de Luiz Estevão. Como
ninguém aguentava mais as amarras do carlismo, estávamos animados
com o grande ato no centro da cidade. Infelizmente as entidades
estudantis, àquela época, já brigavam entre si divindo a
concentração: a UBES, controlada à mão de ferro pelo PcdoB,
chamava o ato na Praça da Piedade; o DCE, aparelhado pelo PT,
chamava o ato para o Campo Grande. Evidentemente quem tinha um pingo
de senso crítico via algo muito estranho, mas como estávamos
determinados a dizer um NÃO ao Carlismo, fomos ao centro na
disposição de encher as ruas. Haviam dois adesivos, um dizia
“Cassação já”, acho que do PT, o outro era Fora ACM, que devia
ser do PcdoB ou da UBES. Colei um de cada no peito, fazendo questão
de arrancar fora as letrinhas de cada sigla.
A escola toda queria
ir pro centro: eu estava no 2o ano do ensino médio, mas o
pessoal da 8a série não se aguentava: poderíamos enfim
dizer FORA ACM, e não era só no corredor da escola. A diretora
disse que precisaríamos de autorização, mas acho que muita gente
acabou saindo furtivamente para o ponto de ônibus. Quando os ônibus
em direção ao centro passaram, o primeiro lotou, o segundo também
e no terceiro ainda foi um tanto de gente.
Lembro que aquela
situação de disputa entre a UBES e o DCE fazia sempre os mesmos
subirem ao carro de som. E junto com alguns amigos (né Pedro?),
conversamos com o grupo de estudantes que mobilizamos e resolvi ir ao
carro do som fazer uma fala. No meio de um turbilhão de emoções
(nunca tinha falado num microfone e tinha bem muitas centenas de
gentes ali) lembro bem de me tremer da cabeça aos pés, mas de
manifestar indignada, talvez uns decibeis a mais do que deveria por
conta do nervoso, que ali tinham que falar os estudantes e não só a
meia dúzia de deputado do PT e do PcdoB que tentavam nos arrebanhar.
Não lembro se aplaudiram ou vaiaram, desci ainda trêmula e
procurando ver se não tinha perdido ninguém da oittava série em
meio ao viaduto do Canela. Mas um tanto satisfeita de ter tido
coragem de sair do meu mutismo para dizer algo que sentia e que
parecia não ser a única ali.
Estávamos
aguardando porque estranhamente a Polícia tinha fechado o viaduto da
universidade, uma área federal. Era revoltante: desde a ditadura
militar a PM não invadia aquela área, e simplesmente fechou a
passagem de um lado a outro do viaduto. E foi então que as bombas
começaram, uma a uma, vindo de trás do homens a cavalo com
cassetetes. Também foi a primeira vez que tomei uma paulada de
cassetete. Foi bem na costela e doeu muito: tropecei quando fugia e
nem sei como consegui ficar em pé e correr muito até a Faculdade de
Administração da UFBA. Quando a adrenalina passou, me dei conta que
tinha torcido o pé, nem percebi enquanto corria. Mas ao olhar a
Faculdade, lotada de pessoas e coberta em nuvem de gás, com os
vidros quebrados e muitas pessoas deitadas nas mesas da sala de aula
com as costas cortadas por estilhaços de bomba, vi que o meu
problema nem era dos piores.
Este episódio
talvez tenha me marcado tão profundamente que minhas escolhas até
hoje tem a ver com as conclusões que tirei deles. Da mesma forma,
quem viveu junho de 2013, viveu momentos que não podem ser apagados
tão facilmente. Em 2006, a greve geral dos secundaristas chilenos,
chamados de Pinguinos, deixou legados para uma grande manifestação
pela educação em 2011.
A história está
sendo feita hoje. Talvez eu não saiba, mas a greve que construo hoje
em minha universidade, como professora, seja o esteio para uma grande
greve que virá recheada de vitórias. Talvez pode até ser essa
greve que virá. Se não lutarmos, como saber das conquistas que
virão?
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