É
tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
Thiago
de Mello
Como tudo na
história, há disputa sobre que lições podemos tirar de nossas
lutas. Entrar em greve, realizar uma ocupação, trancar uma rodovia,
fazer um escracho, apitaço ou panelaço, não existe nenhuma regra
universal que diz o que é mais adequado em cada contexto de luta. Ou
melhor, talvez a única regra nestes casos seja saber avaliar bem a
correlação de forças de quem luta e contra quem se luta. Um exemplo de polêmica entre distintas táticas foi em junho de 2013:
no debate sobre a “tática black block” e os desdobramentos
dessas ações para o refluxo principalmente dos ativistas mais
novos.
Não vejo problema
algum de realizar ações mais radicalizadas, desde que elas sejam
construídas e propostas pelo conjunto da categoria. Ontem, por
exemplo, dia 8 de julho de 2015, o movimento de moradia “Nós da
Sul”, que organiza ocupações no bairro Grajaú São Paulo, ocupou
a Secretaria de Habitação com o intuito de reverter a criminosa
reintegração de posse de seu terreno. Há algumas semanas o
Movimento do Sem Teto da Bahia organizou um fechamento da pista da
Rodovia Ilhéus-Itabuna (BR-415) para garantir que a ocupação no Teotônio
Vilela também não fosse despejada, conseguindo conquistar seu
direito à moradia. Quando os movimentos discutem e decidem
coletivamente nas suas instâncias de base a necessidade de ações
que gerem repercussões para a sua luta, elas tem maiores condições
de chegar a conquistas.
Atualmente volta-se
a esta polêmica na greve das universidades estaduais da Bahia (UEBA). Uma
greve desencadeada pela irresponsabilidade do governo petista para com a
educação, num contexto de ajuste que vem sendo implementado tanto
em nível federal quanto estadual. O governo dá ênfase no aumento
de 10% do orçamento global, mas não explica que boa parte foi para
pagar a demanda de pessoal, dos professores dos novos cursos – e a
falta de professores ainda assim é uma triste realidade (como
podemos perceber nos novos cursos de Engenharia da UESC); o governo
“Rui Corta” convenientemente silencia sobre a redução de R$ 19
milhões nos últimos 2 anos para as verbas de custeio – aquele
papel higiênico que faltou, os terceirizados que ficam sem receber,
a negativa do financiamento para apresentação de trabalhos em
eventos científicos, a restrição para compra de material básico
como papel sulfite, piloto, material de laboratório. É nítido que
a população percebe que os atuais governos – federal e estadual –
estão cortando verbas da educação, da saúde, dos direitos
previdenciários, e por isso nossa greve tem tido bastante respaldo.
Desde o começo
tenho composto o comando de greve da UESC, que tem organizado
importantes ações: diversas manifestações, tanto em Ilhéus e
Itabuna como em Salvador; aulas públicas debatendo orçamento da
educação, a lei 7176/97, o documento “Pátria Educadora”, cafés
da manhã no pórtico da universidade, panfletagens, caminhadas com a
ecológica “bicicleta de som” (substituindo o “carro de som”),
intervenção na torcida durante o jogo do Colo-colo (com faixas
denunciando o descaso com as UEBAs), integração com os servidores
do IFBA que também tem construído uma greve, manifestações contra
a retirada de direitos representadas pelas terceirizações do PL
4330, reuniões com a reitoria para exigir clareza quanto à real
situação do quadro de vagas, reuniões com os estudantes para
caminharmos juntos em defesa da universidade, exibição de filme com debate (Cinegreve), só para citar algumas.
Acredito que todas estas ações foram fundamentais pelo esforço de
sua construção coletiva, pela pressão que tem realizado sobre o
governo, o qual não tem demonstrado disposição ao diálogo, sem
apresentar contra-propostas minimamente satisfatórias.
Diferente daqueles
que preferem lamentos no corredor a uma eventual reposição de aula,
aposto na capacidade organizada que temos de conquistar vitórias, e
no instrumento da greve como um dos mais capazes de levar a elas. É
uma pena que ainda haja pessoas que se confortam em seu
individualismo quando vemos a deterioração pelas quais nossas
condições de trabalho tem passado, ou que acham que criticar o
governo é “abrir espaço para a direita”, ou então que
precisaríamos aguardar um edílico momento perfeito para fazermos
uma greve, já que passamos por um período de crise. O momento de
defender nossos direitos é já, e vacilar nessa determinação pode
significar uma derrota de longa duração.
Dito isto, acho que
é importante discutirmos com serenidade a queima de pneus na BR-415
realizada dia 09 de julho com um número reduzido de estudantes e
ainda mais reduzido de professores. Como havia dito acima, não pela
ação em si de queimar pneus ou fechar a BR, mas pela forma como foi
construída.
É bem verdade,
tivemos uma visibilidade midiática – TV, rádio e muitas postagens
Facebook repercutiram essa ação. Mas talvez a razão da repercussão
seja uma forma de tiro pela culatra. Em primeiro lugar, porque o
debate, que poderia ter sido realizado amplamente entre os
professores que tem construído e apoiado a greve, não foi realizado
de forma satisfatória, o que explica a surpresa de muitos colegas ao
chegarem à universidade nesta quinta-feira e se depararem com a
queima de pneus. Por meio desse método – debate ponderado se esta
seria a tática mais adequada com o conjunto de docentes – seria
possível verificar a real aceitação (ou rejeição, o que penso
ser o caso) dessa tática no atual momento.
Em segundo lugar
porque, no lugar de realizarmos um ato de diálogo que estava planejado para a
cidade de Itabuna, explicando o porquê estamos em greve, como o belo
ato do último dia 07 em Ilhéus realizado em conjunto com o IFBA,
optamos por algo que acabou gerando mais incompreensões que
manifestações de apoio.
É natural a
pluralidade de visões sobre táticas e concepções de movimento, e
é salutar debater estas distintas visões com o conjunto da
categoria. O instrumento de uma greve é precioso demais para se
perder em equívocos pontuais que possam jogar água no moinho do
individualismo. Se nos focarmos em responder às demandas de uma
pequena vanguarda ao invés de usarmos toda a nossa capacidade
inventiva para mobilizar mais e mais pessoas que defendem uma
universidade verdadeiramente pública e de qualidade, podemos
desgastar este instrumento que tantos lutadores abnegados se
dedicaram a consolidar como a maior expressão de força de nossa
classe.

Professora Maíra, nas das poucas vezes que pude encontrá-la em espaços de luta me acendeu uma grande admiração pela sua coerência e com isso tenho a certeza de que você é uma companheira que tem muito a contribuir no cenário político do Sul da Bahia formado por poucos e cansados militantes. Acho importantíssima sua avaliação e concordo, em partes, com ela. Porém, acredito que ela deveria ter sido feita em conjunto com seus pares, a esquerda já encontra-se um tanto fragilizada pra gente ficar dando "ousadia" e brecha pra direita nos escarnecer. Essa nota cumpre o mesmo papel que uma manifestação esvaziada, ela é um tiro no pé. Se houve um equívoco em queimar pneus com pouca gente, acredito estar havendo um equívoco em abrir as nossas fragilidades para aqueles que são contrários não somente à greve como a qualquer organização e reivindicação da classe trabalhadora. Abraços! Hundira Cunha
ResponderExcluirOlá Hundira, que bom que ambas estamos na tentativa de contribuir para o debate político na região. Permita-me discordar pontualmente de seu comentário: eu acredito que o debate público é salutar, e quando os espaços de militância tem dificuldade de agregar amplamente, é dever nosso fazer a autocrítica sobre nossos métodos e táticas, ou não estaríamos com fragilidades, mas respaldados pela base. Creio que não fazer este debate é o que abre espaço para a direita. Que possamos seguir este debate fraternalmente. Há braços!
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