quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ode à Mordaça - Mario Benedetti

Descobri que hoje é aniversário de nascimento de Mario Benedetti, meu poeta mais querido: para mim Benedetti está para poesia assim como Galeano para a prosa. Duas das pérolas que o Uruguai nos brinda.



Em tempos que não nos cabe TEMER, o poema "Ode à Mordaça" parece bastante apropriado. Como não achei o poema em português na internet, resolvi transcrever aqui.





Ode à Mordaça

Não creio em você
mordaça
mas vou dizer
por que não creio
como você vê
agora não digo
nem hoje
nem ai

e no entanto
igual solto o verbo
respiro o grito
e armo a blasfêmia

penso
logo insisto

faço inventário
do seu alegre palpitar da miséria
da sua crueldade sem muitas ilusões
da sua ira lustrada
do seu medo
porque mordaça
você
é muitíssimo mais que um pano sujo
é a mão trêmula que te ajuda
é o dono flagrante desta mão
e até o dono canalha do teu dono

porque mordaça
você é muitíssimo mais que um pano sujo
com gosto de boca livre e palavrão
é a lei malvivente do sistema
é a flor bem-morrente da infâmia

penso
logo insisto

a seus cuidados ficam meus lábios apertados
ficam meus incisivos
caninos
e molares
fica minha língua
fica meu discurso
mas não fica porém minha garganta

na minha garganta começo
desde logo
a ser livre
às vezes engulo a saliva amarga
mas não engulo meu rancor salgado

mordaça bárbara
mordaça ingênua
você acredita que não vou falar
porém sim falo
somente com ser
e com estar

penso
logo insisto

que me importa calar
se falamos todos
por todas as paredes
e por todos os signos
que me importa calar
se você já sabe
obscura
que me importa calar
se você já sabe
mordaça
o que vou dizer
porcaria



Nenhum comentário:

Postar um comentário