Em tempos que não nos cabe TEMER, o poema "Ode à Mordaça" parece bastante apropriado. Como não achei o poema em português na internet, resolvi transcrever aqui.
Ode à Mordaça
Não creio em você
Não creio em você
mordaça
mas vou dizer
por que não creio
como você vê
agora não digo
nem hoje
nem ai
e no entanto
igual solto o verbo
respiro o grito
e armo a blasfêmia
penso
logo insisto
faço inventário
do seu alegre
palpitar da miséria
da sua crueldade sem
muitas ilusões
da sua ira lustrada
do seu medo
porque mordaça
você
é muitíssimo mais
que um pano sujo
é a mão trêmula
que te ajuda
é o dono flagrante
desta mão
e até o dono
canalha do teu dono
porque mordaça
você é muitíssimo
mais que um pano sujo
com gosto de boca
livre e palavrão
é a lei malvivente
do sistema
é a flor
bem-morrente da infâmia
penso
logo insisto
a seus cuidados
ficam meus lábios apertados
ficam meus incisivos
caninos
e molares
fica minha língua
fica meu discurso
mas não fica porém
minha garganta
na minha garganta
começo
desde logo
a ser livre
às vezes engulo a
saliva amarga
mas não engulo meu
rancor salgado
mordaça bárbara
mordaça ingênua
você acredita que
não vou falar
porém sim falo
somente com ser
e com estar
penso
logo insisto
que me importa calar
se falamos todos
por todas as paredes
e por todos os
signos
que me importa calar
se você já sabe
obscura
que me importa calar
se você já sabe
mordaça
o que vou dizer
porcaria


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