domingo, 1 de março de 2015

Um pedaço de nós

A Enrique, militante tão pleno.

O que tenho melhor em mim é me identificar com a multidão. E é por isso que o que tenho melhor em mim é a minha militância. Ela me torna humana, no sentido mais profundo da palavra. Me conecta com meu irmão e minha irmã quando reconhecemos vida no olhar do outro, na sobrevivência contra a selvageria do capitalismo. É a capacidade de comemorarmos uma vitória e um passo adiante rumo a outro horizonte de coisas, de sofrermos uma derrota em comum que nos coloca ombro a ombro: el Che ya lo dice, se você tem a capacidade de tremer de indignação, somos companheiros.

Ontem subitamente a vida me tirou um pedaço de mim: não de mim pessoa, mas de mim organização, de mim movimento esquerda socialista, PSOL, de mim esquerda latinoamericana antiimperialista, de mim trotskysta, de mim movimento internacional dos trabalhadores, de mim resistência popular, de nós. Perdemos Enrique Morales, um gigante, dor daquelas indescritíveis.

Amigo da cerveja, do café e do fumo, da boa música, bons livros, da poesia, que também escrevia lindamente. Sempre intempestivo, pronto a mandar ao carajo qualquer boludez.

Foi quando me dei conta do quanto aprendi com Enrique: mesmo não sistematicamente, vivendo numa mesma cidade, mas nos momentos críticos, nos debates, atos, congressos, jantas, tantas enfim. Enrique é testemunho da vida de um comunista, daqueles forjados na vida dura. Quando falava de música, quando falava de Lenin, quando lamentava um companheiro perdido ou brindava uma vitória na luta.

Pela existência de Enrique, segue a linha de continuidade dos revolucionários de muitos anos. Segue o aprendizado de disciplina e coerência, de gerações de trabalhadores que criaram seus organismos para construir um outro poder. Sua morte nos entristece, mas carajo, o que lhe valeu foi sua vida. A ela, o melhor de nós.

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