quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Com que roupa?

A primeira vez que votei nas eleições foi em 2002. Foi um ano bom pra se votar - embalada em esperança de mudança, todo mundo na escola estava em polvorosa. Quem já tinha conseguido tirar o título - e quem não tirou, apesar do desapontamento, também - se reunia no andar de cima para combinar que dia íamos no diretório do (naquele momento ainda nem tão) finado PT pegar material e distribuir na rua. Ninguém veio dizer para gente que tínhamos que fazer isso - nem professor, nem militante. A gente simplesmente sabia que precisava.

Da primeira vez que fomos panfletar no centro, levaram o material que tinha no diretório. Lembro até da ordem dos candidatos (nos quais hoje não votaria nem amordaçada) e das fotos, todas de homens. E fomos conversando com as pessoas, uma a uma, mesmo com várias pessoas dizendo pra gente desistir, que a gente era muito novo e político era tudo igual (aham, senta lá Cláudia). Terminados os panfletos, fomos ao diretório pegar mais para os dias seguintes - já era reta final.

Chegando lá tinha uma infinidade de material, mas o que eu queria mesmo era uma camiseta do PT. Tinha lá um botton, mas que graça? O que eu queria era uma camiseta vermelha, que mostrasse, como tantas outras pessoas, que a mudança era possível quando se começa jovem. E qual não foi minha decepção ao chegar lá e encontrar só uma camiseta tamanho G-sambante, regata azul-marinho com a estrela vermelha! Mas era o que tinha no momento e o jeito foi levar aquela mesmo.

Lá no dia da eleição botei a camiseta emocionada, me entupi de adesivo (escrevi "Lula" no verso da camiseta com os adesivos retangulares) e bandeira, encontrei os conhecidos na fila de votação e na comemoração do Rio Vermelho: em Salvador deu 90% de votos, e no dia seguinte a cidade tinha aquele cheiro de álcool dormido da ressaca.

Passei no vestibular, mudei pra São Paulo e levei a tal camiseta na mala. E aí muita coisa aconteceu: Henrique Meirelles (sempre ele!) no Banco Central, ministérios loteados, Sarney apoiado para presidente do Senado! Como se não bastasse ainda teve a reforma da previdência, a expulsão dos "radicais" (oi?). E todo dia que eu ia lá na gaveta e pensava "Com que roupa?",  a camiseta olhava pra mim, eu para ela, e eu dizia sempre não.

Até que um dia mais tarde naquele ano, eu vi que essa camiseta nunca mais caberia em mim.

Passada muita água água embaixo da ponte e para encurtar conversa longa, por ora só tenho uma coisa a dizer:

Amigues, ainda dá tempo de trocar de roupa.


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